Nas vésperas de Pessach, perto do horário de minchá, ninguém coma até escurecer. — Um pouco antes do horário da oferenda de minchá da tarde — por volta da décima hora do dia —, proíbe-se a todos comerem qualquer refeição substancial, para que cheguem à noite com fome e possam comer a matzá da mitsvá com verdadeiro apetite, o que constitui um embelezamento especial dessa mitsvá.
E mesmo o mais pobre de Israel não coma sem se reclinar. — Na própria noite do Seder, todo judeu — inclusive o mais pobre da comunidade — é obrigado a comer reclinado à mesa, à maneira dos reis e dos homens livres, como demonstração viva da liberdade conquistada no êxodo.
E não lhe faltarão menos de quatro copos de vinho, mesmo que venham do prato da caridade. — Correspondendo às quatro expressões de redenção usadas pela Torá ao anunciar a libertação do Egito, todo judeu deve beber quatro copos de vinho ao longo do Seder; e essa obrigação vale inclusive para quem é sustentado pela caridade comunitária — os administradores da tzedaká devem garantir que mesmo o mais pobre entre os pobres receba os quatro copos, sem exceção.
É deste versículo que se derivam os quatro copos de vinho do Seder — um para cada uma das quatro expressões de redenção que Deus usa ao anunciar a libertação a Moshé: “tirarei”, “livrarei”, “redimirei” e “tomarei”. Cada expressão marca uma etapa distinta e progressiva da libertação, do fim do trabalho forçado até a formação de um povo com aliança própria; e a mishná exige que cada uma dessas quatro etapas seja celebrada com um copo de vinho separado, garantindo que até mesmo quem depende da caridade pública tenha acesso a todos os quatro, sem exceção, na noite em que se celebra essa redenção completa.
O Rambam, no Perush HaMishná, explica a lógica de reclinar-se como sinal de liberdade, e a origem do prato de caridade mencionado na mishná.
Nas vésperas de Pessach, perto do horário de minchá, ninguém coma etc. “Perto de minchá” é quando restam do dia mais de duas horas e meia sazonais, pois o horário chamado de minchá é quando restam do dia duas horas e meia. E por isso impusemos esta obrigação: pois comer matzá na primeira noite é um dever, e convém que a pessoa se deixe ficar com fome para comer a matzá com apetite. E o que se nos proibiu comer não é apenas pão, pois de qualquer forma não é permitido comer pão naquela hora — sendo proibido comer matzá no dia catorze até que se coma no horário da mitsvá —, mas se proibiu também comer muito de outros alimentos. E impusemos comer reclinado, para que se coma como comem os reis e os grandes, de modo que seja um modo de liberdade. E “tamchui” é o utensílio em que se põe o guisado que se recolhe, das casas, para o sustento dos pobres; e é proibido comer dele senão a pessoa que está no extremo da pobreza, como já explicamos no fim de Peá.
Bartenura fixa o horário exato de “perto de minchá” e detalha a origem dos quatro copos e do prato de caridade; Rashi, na Guemará, confirma os mesmos pontos de forma concisa.
“Nas vésperas de Pessach, perto do horário de minchá” — um pouco antes de minchá, como meia hora, no início da décima hora, pois o tamid é oferecido às nove horas e meia, que é o horário de minchá, e meia hora antes de minchá cai no início da décima hora.
“Ninguém coma” — para que coma a matzá com apetite, por causa do embelezamento da mitsvá. E quanto a pão, é óbvio que não pode comer, pois chametz é proibido desde a sexta hora em diante; e quanto a matzá também, pois dizemos no Talmud Yerushalmi que quem come matzá na véspera de Pessach é como quem se une à sua noiva na casa do sogro dela. E a proibição só era necessária quanto aos demais alimentos, para que não encha o estômago deles.
“Sem se reclinar” — na cama e à mesa, à maneira dos homens livres.
“Não lhe faltarão” — os administradores da caridade que sustentam os pobres.
“De quatro copos” — correspondendo às quatro expressões de redenção que há na porção de Vaerá: “e vos tirarei”, “e vos livrarei”, “e vos redimirei”, “e vos tomarei”.
“Mesmo que se sustente do prato de caridade” — isto é, o mais pobre entre os pobres, pois ensinamos no tratado Peá: quem tem sustento para duas refeições não recebe do prato de caridade.
“Mishná: véspera de Pessach, perto do horário de minchá” — um pouco antes de minchá.
“Ninguém coma” — para que coma a matzá da mitsvá com apetite, por causa do embelezamento da mitsvá.
“E mesmo o mais pobre de Israel não coma” — nas noites de Pessach, até se reclinar à maneira dos homens livres, em memória da liberdade, na cama e à mesa.
“Quatro copos” — correspondendo às quatro expressões de redenção ditas quanto ao exílio do Egito: “e vos tirarei”, “e vos livrarei”, “e vos redimirei”, “e vos tomarei”, na porção de Vaerá.
“E mesmo” — que se sustente do prato da caridade, isto é, o mais pobre entre os pobres, pois ensinamos no tratado Peá: quem tem sustento para duas refeições não recebe do prato de caridade.