Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Bet · Mishná 14

"Fermento de trumá e de kilei hakerem"

שְׂאֹר שֶׁל תְּרוּמָה וְשֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná retoma o padrão de 2:11 — dois fermentos proibidos, cada um insuficiente isoladamente, mas juntos suficientes — agora com trumá e kilei hakerem, dois "nomes" tecnicamente diferentes de proibição. O resultado é intermediário: proibido para os não-cohanim, mas permitido para os cohanim, pois a trumá lhes é permitida

Fermento de trumá e de kilei hakerem que caíram dentro de uma massa (dois fermentos proibidos, de fontes distintas, caindo na mesma massa), não havendo neste o suficiente para fermentar, nem naquele o suficiente para fermentar (nenhum dos dois, isoladamente, teria capacidade de fazer a massa fermentar), e se juntaram e fermentaram (mas a soma dos dois fermentos, juntos, efetivamente fez a massa fermentar — o mesmo cenário de causa combinada de 2:11), é proibido aos não-cohanim, e permitido aos cohanim (diferente de 2:11, aqui o resultado não é simplesmente "permitido" — porque um dos dois elementos, a trumá, é proibida apenas aos não-cohanim, mas permitida aos próprios cohanim; por isso, a massa resultante da combinação segue essa mesma distinção: proibida a quem a trumá seria proibida, permitida a quem ela seria permitida). Rabi Shimon permite aos não-cohanim e aos cohanim (Rabi Shimon discorda inteiramente, seguindo sua posição já vista em 2:10 — de que "dois nomes diferentes" [aqui, trumá e kilei hakerem] não se somam para completar a proibição, tornando a massa permitida a todos).

שְׂאֹר שֶׁל תְּרוּמָה וְשֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם שֶׁנָּפְלוּ לְתוֹךְ עִסָּה, לֹא בָזֶה כְדֵי לְחַמֵּץ וְלֹא בָזֶה כְדֵי לְחַמֵּץ, וְנִצְטָרְפוּ וְחִמְּצוּ, אָסוּר לְזָרִים וּמֻתָּר לַכֹּהֲנִים. רַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר לְזָרִים וְלַכֹּהֲנִים:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mishná combina o princípio de "isto e aquilo causam" (2:11) com a distinção entre "nomes iguais" e "nomes diferentes" (2:10), aplicada ao caso específico de trumá com kilei hakerem.

Bemidbar (Números) 18:11 · Devarim (Deuteronômio) 22:9
וְזֶה לְּךָ תְּרוּמַת מַתָּנָם... לְךָ נְתַתִּים וּלְבָנֶיךָ וְלִבְנֹתֶיךָ אִתְּךָ לְחָק עוֹלָם... לֹא תִזְרַע כַּרְמְךָ כִּלְאָיִם, פֶּן תִּקְדַּשׁ הַמְּלֵאָה.
A base de trumá como propriedade exclusiva dos cohanim, e de kilei hakerem como proibição absoluta a todos. A combinação dos dois nesta mishná ilustra como uma "causa mista" pode gerar um resultado halachico igualmente misto — proibido para quem a trumá seria proibida (os não-cohanim), permitido para quem ela seria permitida (os cohanim) — refletindo a própria natureza dupla dos elementos que a compõem.

Por que o resultado desta mistura de trumá com kilei hakerem não é simplesmente "proibido a todos", já que kilei hakerem por si só proíbe a todos? A resposta está na natureza específica de "isto e aquilo causam": como nenhum dos dois elementos, isoladamente, era suficiente para fermentar a massa, o resultado (a fermentação) não pode ser atribuído exclusivamente a nenhum deles — é um produto genuinamente combinado. Como a massa fermentada "herda" as duas identidades combinadas, ela também herda as duas permissões parciais: como a trumá, sozinha, seria permitida aos cohanim, e como o kilei hakerem contribuiu apenas parcialmente (sem ser, por si só, suficiente), a lógica de "isto e aquilo causam" aqui não resulta em permissão total (como em 2:11, onde ambos os elementos eram tratados igualmente), mas numa permissão parcial e proporcional à identidade de cada contribuinte.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica este caso em Hilchot Maachalot Assurot 16:13.

Rambam · Hilchot Maachalot Assurot 16:13
שְׂאוֹר שֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם וְשֶׁל תְּרוּמָה שֶׁנָּפְלוּ לְתוֹךְ הָעִסָּה, לֹא בָּזֶה כְּדֵי לְחַמֵּץ וְלֹא בָּזֶה כְּדֵי לְחַמֵּץ, וּבִשְׁנֵיהֶם כְּשֶׁיִּצְטָרְפוּ יֵשׁ בָּהֶם כְּדֵי לְחַמֵּץ, אוֹתָהּ עִסָּה אֲסוּרָה לְיִשְׂרָאֵל וּמֻתֶּרֶת לַכֹּהֲנִים.
Fermento de kilei hakerem e de trumá que caíram numa massa, sem que houvesse em nenhum deles isoladamente o suficiente para fermentar, mas nos dois juntos, quando se somam, há o suficiente para fermentar — essa massa é proibida para o Israel [não-cohen] e permitida aos cohanim (o Rambam codifica exatamente a formulação da mishná, confirmando a decisão contra Rabi Shimon: o resultado da combinação segue a identidade dupla dos dois elementos que a formaram).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 2:14
אָסוּר לְזָרִים. לְפִי שֶׁאִסּוּר תְּרוּמָה עֲלֵיהֶם, וְכֵן שְׂאוֹר שֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם, וּכְבָר נִגְמַר הֶחָמוּץ מִדָּבָר הָאָסוּר עֲלֵיהֶם. אֲבָל לַכֹּהֲנִים הוּא לָהֶם כְּמוֹ שְׂאוֹר שֶׁל חֻלִּין וְשֶׁל תְּרוּמָה שֶׁנָּפְלוּ לְתוֹךְ עִסָּה שֶׁל יִשְׂרָאֵל.

"Proibido aos não-cohanim": porque a proibição de trumá recai sobre eles, e do mesmo modo o fermento de kilei hakerem, e já se completou a fermentação a partir de algo proibido para eles (o Rambam explica: para o não-cohen, tanto a trumá quanto o kilei hakerem são fontes de proibição — por isso, do ponto de vista dele, a fermentação foi "causada" por dois elementos, ambos proibidos para ele). Mas para os cohanim, é para eles como fermento de alimento comum e de trumá que caíram numa massa de um Israel [alimento comum + trumá, que para o cohen ambos são permitidos] (do ponto de vista do cohen, a trumá não é proibida — por isso, para ele, apenas o kilei hakerem seria o elemento proibido, mas como este sozinho era insuficiente para fermentar, aplica-se a lógica de "isto e aquilo causam" na sua forma permissiva, tornando a massa permitida para ele).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 2:14
אָסוּר לְזָרִים. רַבָּנָן לְטַעֲמַיְהוּ דְּאָמְרֵי לְעֵיל תְּבָלִין מִשְּׁנַיִם וּשְׁלֹשָׁה שֵׁמוֹת מִצְטָרְפִין לֶאֱסֹר הַדָּבָר הַנִּתְבָּל. וּמֻתָּר לַכֹּהֲנִים. דִּתְרוּמָה שַׁרְיָא לְהוּ, וְאֵין בְּכִלְאֵי הַכֶּרֶם כְּדֵי לְהַחֲמִיץ. רַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר לְזָרִים. לְטַעֲמֵיהּ, דְּאָמַר שְׁנַיִם אוֹ שְׁלֹשָׁה שֵׁמוֹת מִמִּין אֶחָד אֵין מִצְטָרְפִין.

"Proibido aos não-cohanim": os Sábios seguem sua própria lógica, já expressa acima [2:10], de que temperos [ou fermentos] de dois ou três nomes se somam para proibir a coisa temperada (o Bartenura conecta explicitamente esta mishná à posição já estabelecida em 2:10 sobre soma de "nomes diferentes"). "E permitido aos cohanim": pois a trumá lhes é permitida, e não há no kilei hakerem, sozinho, o suficiente para fermentar (a explicação direta do resultado: como, do ponto de vista do cohen, apenas o kilei hakerem seria relevante, e ele sozinho é insuficiente, a massa permanece permitida para ele). "Rabi Shimon permite aos não-cohanim": seguindo sua lógica de que dois ou três nomes de um único tipo não se somam.

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.