Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Bet · Mishná 11

"Fermento comum e de trumá que caíram numa massa"

שְׂאֹר שֶׁל חֻלִּין וְשֶׁל תְּרוּמָה שֶׁנָּפְלוּ לְתוֹךְ עִסָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata do caso complementar às duas anteriores: dois fermentos, um comum e um de trumá, cada um isoladamente insuficiente para fermentar, mas cuja soma é suficiente. Rabi Eliezer atribui o efeito ao último fermento a cair; os Sábios respondem com o princípio de "zeh vezeh gorem" — quando duas causas, uma proibida e uma permitida, juntas produzem o efeito, o resultado é permitido

Fermento de alimento comum e de trumá que caíram dentro de uma massa, não havendo neste o suficiente para fermentar, nem naquele o suficiente para fermentar (nenhum dos dois fermentos, isoladamente, teria capacidade de fazer a massa fermentar), se juntaram e fermentaram (mas juntos, os dois fermentos somados efetivamente fizeram a massa fermentar), Rabi Eliezer diz: sigo o último (Rabi Eliezer resolve o caso atribuindo o efeito exclusivamente ao fermento que caiu por último: se foi o de trumá que caiu por último, a massa é proibida — ele "completou" o processo; se foi o comum, a massa é permitida). E os Sábios dizem: seja caindo o proibido no início, seja no fim, nunca proíbe, a menos que haja nele, sozinho, o suficiente para fermentar (os Sábios rejeitam o critério de ordem cronológica de Rabi Eliezer: para eles, o que importa é apenas se o fermento proibido, isoladamente, teria capacidade de fermentar a massa; como neste caso ele não tinha essa capacidade sozinho, a massa permanece permitida, independentemente da ordem em que os fermentos caíram).

שְׂאֹר שֶׁל חֻלִּין וְשֶׁל תְּרוּמָה שֶׁנָּפְלוּ לְתוֹךְ עִסָּה, לֹא בָּזֶה כְדֵי לְחַמֵּץ וְלֹא בָּזֶה כְדֵי לְחַמֵּץ, נִצְטָרְפוּ וְחִמְּצוּ, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אַחַר הָאַחֲרוֹן אֲנִי בָא. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, בֵּין שֶׁנָּפַל אִסּוּר בַּתְּחִלָּה, בֵּין בַּסּוֹף, לְעוֹלָם אֵינוֹ אוֹסֵר עַד שֶׁיְּהֵא בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A disputa entre Rabi Eliezer e os Sábios introduz um princípio rabínico central — "zeh vezeh gorem" (isto e aquilo causam) — que também apareceu em 1:9 no contexto do enxerto de galho de orlá.

Vayikrá (Levítico) 19:23
וְכִי תָבֹאוּ אֶל הָאָרֶץ וּנְטַעְתֶּם כָּל עֵץ מַאֲכָל, וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ, שָׁלֹשׁ שָׁנִים יִהְיֶה לָכֶם עֲרֵלִים, לֹא יֵאָכֵל.
A fonte de orlá, e por extensão de trumá. Esta mishná não deriva diretamente desta fonte, mas retoma um princípio já visto em Orlá 1:9 — "zeh vezeh gorem mutar" [isto e aquilo, quando ambos causam juntos um resultado, o resultado é permitido] — aplicado agora não a um processo de enxerto, mas a um processo de fermentação com duas causas parciais concorrentes.

Por que os Sábios recusam o critério de "seguir o último" de Rabi Eliezer, e como isso se conecta ao princípio já visto em 1:9? Em Orlá 1:9, os comentadores explicaram que quando um resultado depende da combinação de duas causas — uma proibida e uma permitida —, nenhuma delas isoladamente é responsável pelo resultado final; o produto que emerge da combinação de ambas não herda a proibição de nenhuma delas. Os Sábios aplicam exatamente esta lógica aqui: como nenhum dos dois fermentos, isoladamente, teria causado a fermentação, o resultado (a massa fermentada) é visto como produto de "isto e aquilo" — uma causa mista — e por isso permanece permitido. Rabi Eliezer discorda porque, para ele, o fermento que "completa" o processo (o último a cair) é que efetivamente causa a transformação final, tornando-se, assim, o responsável exclusivo pelo resultado.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam decide a halachá como os Sábios, contra Rabi Eliezer, seguindo o mesmo princípio de "zeh vezeh gorem mutar" já codificado em Hilchot Maachalot Assurot 15 e aplicado aqui de forma consistente.

Rambam · Perush HaMishná, Orlá 2:11 (síntese halachica)
אַחַר הָאַחֲרוֹן אֲנִי בָא. עִנְיָנוֹ כַּאֲשֶׁר אַגִּיד לְךָ, וְהוּא שֶׁאִם נָפַל שְׂאוֹר שֶׁל תְּרוּמָה בַּסּוֹף אָסוּר... וְהָעִקָּר הָאֲמִתִּי אֶצְלֵנוּ בְּכָל זֶה, זֶה וָזֶה גּוֹרֵם מֻתָּר, וּלְפִיכָךְ אֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר.
"Sigo o último": seu sentido é, como te direi, que se caiu o fermento de trumá por último, é proibido (a explicação da posição de Rabi Eliezer). Mas o princípio verdadeiro conosco em tudo isto é que "isto e aquilo causam" é permitido; e por isso a halachá não é como Rabi Eliezer (o Rambam conclui com a formulação explícita do princípio geral que rege toda esta família de disputas: sempre que duas causas — uma proibida e uma permitida — combinam-se para produzir um único efeito, sem que nenhuma delas isoladamente fosse suficiente, o resultado é halachicamente permitido, e a halachá segue os Sábios).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná e o princípio de "zeh vezeh gorem".

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 2:11
אַחַר הָאַחֲרוֹן אֲנִי בָא. עִנְיָנוֹ כַּאֲשֶׁר אַגִּיד לְךָ, וְהוּא שֶׁאִם נָפַל שְׂאוֹר שֶׁל תְּרוּמָה בַּסּוֹף אָסוּר, אַף עַל פִּי שֶׁאֵין בָּהּ כְּדֵי לְחַמֵּץ, וְאִם נָפַל שְׂאוֹר שֶׁל חֻלִּין בַּסּוֹף מֻתָּר... אֲבָל אִם לֹא הֵסִיר אוֹתוֹ הַכֹּל אָסוּר לְדַעַת רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, לְפִי שֶׁהוּא סוֹבֵר זֶה וָזֶה גּוֹרֵם אָסוּר.

"Sigo o último": seu sentido, como te direi, é que se caiu fermento de trumá por último, é proibido, ainda que não haja nele o suficiente para fermentar sozinho; e se caiu fermento de alimento comum por último, é permitido (a lógica de Rabi Eliezer: o último elemento a entrar em contato com a massa é considerado o agente final da transformação, e por isso determina sozinho o status halachico do resultado)... Mas se não removeu [o fermento anterior], tudo é proibido segundo Rabi Eliezer, pois ele entende que "isto e aquilo causam" é proibido (o Rambam esclarece uma nuance: mesmo para Rabi Eliezer, sua posição depende de o primeiro fermento ter sido removido antes do segundo cair; se ambos permanecem simultaneamente ativos, mesmo Rabi Eliezer concorda que se trata de uma causa mista, mas ele — ao contrário dos Sábios — considera essa causa mista proibida, não permitida).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 2:11
אַחַר הָאַחֲרוֹן אֲנִי בָא. אִם הַשְּׂאֹר שֶׁל תְּרוּמָה נָפַל בָּאַחֲרוֹנָה, הָעִסָּה כֻּלָּהּ נַעֲשֵׂית מְדֻמָּע, וְאִם שֶׁל חֻלִּין נָפַל בָּאַחֲרוֹנָה, הַכֹּל מֻתָּר... לְעוֹלָם אֵינוֹ אוֹסֵר עַד שֶׁיְּהֵא בּוֹ כְּדֵי לְחַמֵּץ. דְּזֶה וָזֶה גּוֹרֵם מֻתָּר. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

"Sigo o último": se o fermento de trumá caiu por último, toda a massa se torna medumá [proibida]; e se o de alimento comum caiu por último, tudo é permitido (a formulação clara da posição de Rabi Eliezer, na leitura do Bartenura). [Sobre a posição dos Sábios] "Nunca proíbe, a menos que haja nele o suficiente para fermentar": pois "isto e aquilo causam" é permitido. E a halachá é como os Sábios (o Bartenura confirma a decisão final, citando explicitamente o princípio de "zeh vezeh gorem mutar" como o fundamento da posição vencedora).

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.