Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Alef · Mishná 7

"As folhas e os brotos e a água de videiras e o florescer"

הֶעָלִים, וְהַלּוּלָבִים, וּמֵי גְּפָנִים, וּסְמָדַר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná muda de tema: depois de tratar de identidade e continuidade do plantio, passa a examinar o que conta como "fruto" para efeitos de orlá — partes da árvore que não são fruto propriamente dito ficam permitidas em orlá, em neta revai e ao nazireu, mas continuam proibidas quando a árvore é uma asherá (idólatra)

As folhas, e os brotos tenros (os ramos macios que crescem nas pontas dos galhos duros), e a água de videiras (o líquido que escorre das videiras quando se cortam os ramos, em Nissan), e o florescer (semadar, a flor da qual ainda sairá a uva verde), são permitidos em orlá, e em neta revai, e ao nazireu (não sendo considerados "fruto" propriamente dito, escapam das três proibições que recaem especificamente sobre frutos), e proibidos numa asherá (árvore usada para culto idólatra: qualquer parte dela, mesmo as que não são fruto, fica proibida, pois a proibição de objeto de idolatria abrange a árvore inteira). Rabi Yosei diz: o florescer é proibido, pois é fruto (discordando dos sábios anônimos, considera que o semadar já é, tecnicamente, um estágio do fruto). Rabi Eliezer diz: quem coalha [queijo] com a seiva de orlá, é proibido (a resina ou seiva extraída de uma árvore de orlá, usada para coalhar leite, transmite a proibição ao queijo resultante). Disse Rabi Yehoshua: ouvi explicitamente que quem coalha com a seiva das folhas e com a seiva das raízes, é permitido; com a seiva dos frutos verdes [pagim], é proibido, pois são fruto (Rabi Yehoshua transmite uma distinção mais precisa: a seiva de partes não-frutíferas é permitida, mas a seiva extraída dos frutos ainda verdes já é considerada fruto e proibida).

הֶעָלִים, וְהַלּוּלָבִים, וּמֵי גְּפָנִים, וּסְמָדַר, מֻתָּרִים בָּעָרְלָה וּבָרְבָעִי וּבַנָּזִיר, וַאֲסוּרִים בָּאֲשֵׁרָה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, הַסְּמָדַר אָסוּר, מִפְּנֵי שֶׁהוּא פְּרִי. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, הַמַּעֲמִיד בִּשְׂרָף הָעָרְלָה, אָסוּר. אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, שָׁמַעְתִּי בְּפֵרוּשׁ, שֶׁהַמַּעֲמִיד בִּשְׂרָף הֶעָלִים וּבִשְׂרָף הָעִקָּרִים, מֻתָּר, בִּשְׂרָף הַפַּגִּים, אָסוּר, מִפְּנֵי שֶׁהֵם פְּרִי:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

O próprio texto de Vayikrá 19:23 limita a proibição de orlá especificamente "ao seu fruto" — e é dessa expressão que a mishná deriva a distinção entre partes frutíferas e não-frutíferas da árvore.

Vayikrá (Levítico) 19:23
וְכִי תָבֹאוּ אֶל הָאָרֶץ וּנְטַעְתֶּם כָּל עֵץ מַאֲכָל, וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ.
"E quando entrardes na terra e plantardes toda árvore frutífera, considerareis incircunciso o seu fruto" — a expressão "o seu fruto" [et piryo] limita a proibição especificamente ao fruto da árvore, e não a toda a árvore em si. Folhas, brotos tenros, a água que escorre da videira cortada, e o florescer (que ainda não é o fruto, mas a flor da qual o fruto sairá) não se enquadram na categoria "fruto", e por isso ficam fora da proibição de orlá — ao contrário de uma asherá (árvore de idolatria), cuja proibição bíblica (Devarim 7:25-26, 13:18) recai sobre a árvore inteira, sem se limitar ao fruto.

Por que Rabi Yosei discorda especificamente sobre o semadar (florescer), e não sobre as folhas ou brotos? A distinção botânica é sutil: folhas e brotos claramente nunca se tornam fruto — permanecem partes vegetativas da árvore. Mas o semadar é o estágio inicial do próprio fruto — a flor que, biologicamente, já contém o embrião do futuro cacho de uvas. Os sábios anônimos ainda o consideram "pré-fruto", não sujeito à proibição; Rabi Yosei, mais rigoroso, já o trata como fruto em sentido pleno, sujeito à proibição de orlá desde esse estágio inicial. A halachá segue os sábios anônimos: o semadar é permitido.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta lei em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 9, halachá 13, no encerramento do capítulo dedicado principalmente ao neta revai, antes de passar às leis específicas de orlá no capítulo 10.

Rambam · Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 9:13
הֶעָלִין וְהַלּוּלָבִין וּמֵי גְּפָנִים וְהַסְּמָדַר מֻתָּרִין בְּעָרְלָה וּבִרְבָעִי.
As folhas, e os brotos tenros, e a água das videiras, e o florescer, são permitidos em orlá e em neta revai (o Rambam decide a halachá seguindo os sábios anônimos contra Rabi Yosei, confirmando que essas partes vegetativas — incluindo o florescer — não se enquadram na categoria "fruto" para as proibições de orlá e do quarto ano).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 1:7
לוּלָבִים הֵם הָעֲנָפִים הָרַכִּים הַיּוֹצְאִים בְּרָאשֵׁי הַבַּדִּים הַקָּשִׁים, וְהֵם רַכִּים מְאֹד. וּמֵי גְפָנִים, הַמַּיִם הַיּוֹצְאִים מִן הַגְּפָנִים כְּשֶׁפּוֹצְעִין וְחוֹתְכִין הַגֶּפֶן אוֹ הַזְּמוֹרוֹת בִּימֵי נִיסָן. וּסְמָדַר הוּא הַפֶּרַח שֶׁמִּמֶּנּוּ יִהְיֶה הַפְּרִי, אֲבָל בַּבֹּסֶר אֵין חוֹלֵק שֶׁהוּא אָסוּר.

"Brotos tenros" [lulavim] são os ramos macios que saem nas pontas dos galhos duros, e são muito macios. "E água de videiras": a água que sai das videiras quando se rompem e cortam a videira ou os ramos nos dias de Nissan. E o florescer [semadar] é a flor da qual sairá o fruto (ainda não é o fruto em si, apenas seu precursor), mas quanto ao bóser [a uva verde já formada, posterior ao florescer], não há quem discorde de que é proibido (o Rambam esclarece a sequência de estágios: flor → florescer permitido → uva verde já proibida, pois já é fruto reconhecível).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 1:7
מֻתָּרִים בָּעָרְלָה. דִּכְתִיב (ויקרא יט) וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ, וְהַנֵּי לָאו פְּרִי נִינְהוּ. וַאֲסוּרִים בָּאֲשֵׁרָה. דִּכְתִיב (דברים יג) וְלֹא יִדְבַּק בְּיָדְךָ מְאוּמָה מִן הַחֵרֶם, וַאֲשֵׁרָה הוּא אִילָן הַנֶּעֱבָד. בִּשְׂרָף הַפַּגִּים. שָׂרָף הַנּוֹטֵף מִן הַפֵּרוֹת שֶׁלֹּא בָשְׁלוּ כָּל צָרְכָּן. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ.

"São permitidos em orlá": pois está escrito (Vayikrá 19) "e considerareis incircunciso o seu fruto" — e estes não são fruto. "E proibidos numa asherá": pois está escrito (Devarim 13) "e não se apegará em tua mão nada do que é consagrado à destruição" — e a asherá é a árvore que é objeto de culto [idólatra] (cuja proibição abrange a árvore inteira, não apenas seu fruto). "Com a seiva dos frutos verdes [pagim]": a seiva que escorre dos frutos que ainda não amadureceram completamente. E a halachá é como Rabi Yehoshua (a distinção entre a seiva de folhas e raízes, permitida, e a seiva dos frutos verdes, proibida, é a que prevalece na prática).

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.