Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Alef · Mishná 5

"Árvore que foi arrancada e tem nela um mergulhão"

אִילָן שֶׁנֶּעֱקַר וּבוֹ בְרֵכָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata da técnica agrícola de mergulhia (haavracá): enterrar um galho ainda ligado à árvore-mãe, que enraíza separadamente; quando a árvore original é arrancada, o galho enterrado assume seu papel; trata também do mergulhão sucessivo e da opinião de Rabi Meir sobre a força de sucção do broto

Árvore que foi arrancada, e nela há um mergulhão (um galho ainda ligado à árvore, enterrado no solo em outro ponto, formando raízes próprias enquanto ainda recebe seiva da árvore-mãe), e ela [a árvore-mãe] vive dele (passa a se sustentar através do mergulhão, depois de arrancada de seu local original), a [árvore] velha volta a ser como o mergulhão (juridicamente, a árvore-mãe e o mergulhão se tornam uma só unidade, contando os anos de orlá a partir do momento em que a árvore-mãe passou a depender do mergulhão). Se mergulhou [um novo galho] ano após ano, e [o galho anterior] foi cortado (desligado da árvore-mãe depois de já ter enraizado), conta-se a partir do momento em que foi cortado (cada mergulhão sucessivo recomeça sua própria contagem de orlá apenas quando se desliga definitivamente da árvore original). O entrelaçamento de videiras, e entrelaçamento sobre entrelaçamento (uma técnica em que se estica um ramo comprido de uma videira até outra videira vizinha, entrelaçando-o com ela), mesmo que os tenha entrelaçado [ainda ligados] na terra, é permitido (ficam isentos de orlá, enquanto permanecerem ligados à videira original). Rabi Meir diz: no lugar onde sua força é boa, é permitido; e no lugar onde sua força é ruim, é proibido (distinguindo conforme o ramo entrelaçado ainda depende nutricionalmente da videira-mãe ou já se sustenta por si mesmo). E assim também o mergulhão que foi cortado e está cheio de frutos: se acrescentou em duzentos [uma parte em duzentas] (se o crescimento posterior ao corte representa menos de um duzentos avos do total), é proibido (o pequeno acréscimo posterior ao corte não anula o restante, que já era permitido).

אִילָן שֶׁנֶּעֱקַר וּבוֹ בְרֵכָה, וְהוּא חָיֶּה מִמֶּנָּה, חָזְרָה הַזְּקֵנָה לִהְיוֹת כַּבְּרֵכָה. הִבְרִיכָהּ שָׁנָה אַחַר שָׁנָה, וְנִפְסְקָה, מוֹנֶה מִשָּׁעָה שֶׁנִּפְסְקָה. סִפּוּק הַגְּפָנִים, וְסִפּוּק עַל גַּבֵּי סִפּוּק, אַף עַל פִּי שֶׁהִבְרִיכָן בָּאָרֶץ, מֻתָּר. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, מָקוֹם שֶׁכֹּחָהּ יָפֶה, מֻתָּר, וְמָקוֹם שֶׁכֹּחָהּ רָע, אָסוּר. וְכֵן בְּרֵכָה שֶׁנִּפְסְקָה וְהִיא מְלֵאָה פֵרוֹת, אִם הוֹסִיף בְּמָאתַיִם, אָסוּר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A técnica da mergulhia levanta uma questão especial sobre o próprio conceito de "plantio" no versículo fundador do tratado: enquanto o galho permanece ligado à árvore-mãe, ele não é, tecnicamente, uma nova plantação.

Vayikrá (Levítico) 19:23
וְכִי תָבֹאוּ אֶל הָאָרֶץ וּנְטַעְתֶּם כָּל עֵץ מַאֲכָל, וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ.
"E quando entrardes na terra e plantardes toda árvore frutífera, considerareis seu fruto como incircunciso" — a mishná esclarece que o galho mergulhado (enterrado enquanto ainda ligado à árvore-mãe) não constitui um "plantio" separado enquanto mantiver essa ligação, pois continua recebendo nutrição da árvore original e não depende exclusivamente das raízes que forma no novo local. Somente quando o vínculo é cortado — e o galho passa a depender só de suas próprias raízes — é que se considera iniciado um novo plantio para fins de orlá.

Por que a proporção de "duzentos" aparece aqui, no caso dos frutos do mergulhão cortado? O princípio de que um produto proibido, misturado a uma quantidade muito maior de produto permitido, pode ser anulado por essa maioria (bitul) é central em várias leis alimentares judaicas, e a proporção de "um em duzentos" é uma das medidas clássicas de anulação usadas para orlá e casos análogos, desenvolvida com mais detalhe na mishná seguinte (1:6). Aqui, ela é aplicada aos frutos que já haviam crescido no mergulhão antes do corte (permitidos, pois cresceram enquanto ligado à árvore-mãe) e ao crescimento adicional depois do corte (proibido, pois já é considerado orlá de um novo plantio) — se esse acréscimo posterior for menor que a proporção de anulação, o total permanece proibido, pois ainda não atingiu a maioria necessária para ser anulado.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam trata da mergulhia (haavracá) em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 10, halachot 14-18, com maior detalhe do que o resumo da mishná.

Rambam · Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 10:14, 17
אֶחָד הַנּוֹטֵעַ וְאֶחָד הַמַּבְרִיךְ וְאֶחָד הַמַּרְכִּיב חַיָּב... אִילָן שֶׁהִבְרִיךְ מִמֶּנּוּ בַּד בָּאָרֶץ, וְאַחַר כָּךְ נֶעֱקַר הָאִילָן כֻּלּוֹ, וַהֲרֵי הוּא חַי מִן הַבַּד שֶׁהִבְרִיךְ, מוֹנֶה מִשָּׁעָה שֶׁנֶּעֱקַר הָאִילָן.
Tanto quem planta quanto quem faz mergulhia [haavracá] quanto quem enxerta ficam obrigados (as três técnicas — plantio direto, mergulhia e enxerto — geram, em princípio, a obrigação de orlá, quando o novo broto é finalmente cortado da fonte original). Árvore da qual se fez mergulhia de um galho na terra, e depois a árvore inteira foi arrancada, e eis que ela vive do galho que foi mergulhado — conta-se a partir do momento em que a árvore [original] foi arrancada (a contagem de orlá para essa unidade combinada — árvore-mãe agora dependente do mergulhão — começa no momento em que a árvore-mãe perde sua ligação direta com o solo original e passa a depender inteiramente do galho enterrado).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 1:5
כְּשֶׁלּוֹקְחִין עַנְפֵי הָאִילָן וּמוֹתְחִין אוֹתָם בַּקַּרְקַע וְטוֹמְנִין אוֹתָן בֶּעָפָר, אוֹתָם הָעֲנָפִים מוֹצִיאִים פְּרִי בְּלִי סָפֵק, וְיֵשׁ לָהֶם שָׁרָשִׁים בָּאָרֶץ, וְעִקָּרָם דְּבֵקִים בָּאִילָן הָרִאשׁוֹן. אוֹתָם הָעֲנָפִים שֶׁהִשְׁרִישׁוּ בָּאָרֶץ נִקְרָאִין בְּרֵכָה, וְהָאִילָן הָרִאשׁוֹן נִקְרָא זְקֵנָה.

Quando se tomam ramos da árvore e os esticam até a terra e os enterram sob a terra, esses ramos certamente produzem fruto, e têm raízes na terra, mas sua base ainda está ligada à árvore original. Esses ramos que criaram raízes na terra são chamados de "mergulhão" [bricá], e a árvore original é chamada de "velha" [zkená] (a terminologia técnica que a mishná usa ao longo de todo o caso, e que o Rambam esclarece aqui para o leitor).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 1:5
סִפּוּק גְּפָנִים. דֶּרֶךְ עוֹבְדֵי אֲדָמָה שֶׁלּוֹקְחִים זְמוֹרָה אֲרֻכָּה מִגֶּפֶן זוֹ וּמוֹשְׁכִים אוֹתָהּ לַגֶּפֶן שֶׁבְּצִדָּהּ וּמַרְכִּיבִין הַזְּמוֹרָה בַּגֶּפֶן, וְזֶהוּ הַנִּקְרָא סִפּוּק, וּפָטוּר מִן הָעָרְלָה. מָקוֹם שֶׁכֹּחָהּ יָפֶה מֻתָּר. אִם הַזְּמוֹרָה שֶׁהִבְרִיכוּהָ בַּגֶּפֶן כֹּחָהּ יָפֶה וְיוֹנְקָה מִן הַגֶּפֶן אֲשֶׁר מִמֶּנָּה לֻקָּחָה, מֻתָּר וּפְטוּרָה מִן הָעָרְלָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר.

"Entrelaçamento de videiras": costume dos agricultores de pegar um ramo comprido de uma videira e esticá-lo até a videira vizinha, entrelaçando o ramo na [outra] videira — e isto se chama "entrelaçamento" [sipuk], e fica isento de orlá. "No lugar onde sua força é boa, é permitido": se o ramo que entrelaçaram na videira tem boa força e suga [nutrientes] da videira da qual foi tomado, é permitido e isento de orlá. E não é lei como Rabi Meir (a halachá segue os sábios anônimos, que não fazem essa distinção entre "lugares de força boa ou ruim", tratando o entrelaçamento como permitido enquanto durar a ligação física com a videira original).

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.