Seder Tehorot · Massechet Ohalot · Perek Chet · Mishná 6 de 6

Os dois jarros selados na casa

שְׁתֵּי חָבִיּוֹת וּבָהֶן כִּשְׁנֵי חֲצָיֵי זֵיתִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fecha o Perek Chet com o caso de dois jarros, cada um com meia-azeitona de cadáver, selados com tampa bem ajustada dentro de uma casa: os jarros permanecem puros, mas a casa fica impura, pois os dois meios de azeitona se somam; se um deles for aberto, ele e a casa ficam impuros, mas o outro permanece puro — e o mesmo vale para dois quartos que se abrem para a casa

Dois jarros, e neles há como que dois meios de azeitona, cercados com tampa bem ajustada e colocados dentro da casa: eles permanecem puros, e a casa fica impura. Se um deles foi aberto, ele e a casa ficam impuros, e o outro permanece puro. E o mesmo vale para dois quartos que se abrem para a casa.

Esta sexta e última mishná do Perek Chet encerra o capítulo com um caso que ilustra, de modo preciso, os limites da proteção de tzamid patil — a tampa bem ajustada que, segundo a Torá (Bemidbar 19:15), protege o que está dentro de um vaso selado contra a impureza que já está presente na casa onde ele se encontra. Aqui, dois jarros de cerâmica, cada um contendo meia porção de cadáver do tamanho de meia azeitona — portanto, abaixo da medida mínima de um azeitona inteiro que impurificaria por si só —, estão selados com tampa bem ajustada e colocados dentro de uma mesma casa. Enquanto ambos permanecem fechados, cada jarro protege seu próprio conteúdo: nenhum dos dois se torna impuro, pois a impureza do meio-azeitona do jarro vizinho não consegue penetrar através da tampa selada. Mas a casa como um todo não goza dessa mesma proteção: como os dois meios-azeitona, somados, completam a medida de um azeitona inteiro, e essa soma ocorre no espaço comum da casa que os contém a ambos, a casa inteira se torna impura, ainda que nenhum de seus dois jarros o seja. Se, porém, um dos jarros for aberto, ele perde a proteção do tzamid patil e se torna impuro junto com a casa, mas o outro jarro, ainda selado, permanece puro — pois cada jarro é julgado por sua própria condição de fechamento. A mishná fecha comparando este caso a dois quartos fechados que se abrem para uma mesma casa: também aqui, os meios-azeitona de cada quarto se somam para impurificar a casa comum, ainda que os quartos, enquanto fechados, permaneçam eles próprios protegidos.

שְׁתֵּי חָבִיּוֹת וּבָהֶן כִּשְׁנֵי חֲצָיֵי זֵיתִים, מֻקָּפוֹת צָמִיד פָּתִיל וּמֻנָּחוֹת בְּתוֹךְ הַבַּיִת, הֵן טְהוֹרוֹת, וְהַבַּיִת טָמֵא. נִפְתְּחָה אַחַת מֵהֶן, הִיא וְהַבַּיִת טְמֵאִים וַחֲבֶרְתָּהּ טְהוֹרָה. וְכֵן שְׁנֵי חֲדָרִים שֶׁהֵן פְּתוּחִין לַבָּיִת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Ohalot 8:6
כְּבָר קָדַם לְךָ שֶׁחֲצִי שִׁעוּר לֹא יְטַמֵּא…

Já se estabeleceu anteriormente que meia medida não impurifica, e já se estabeleceu também que, quando há numa casa um azeitona de cadáver — seja ele cortado em pedaços, seja um corpo único —, a casa fica impura, e tudo o que está nela se impurifica, a menos que esteja cercado com tampa bem ajustada, conforme sua condição. E já explicamos, no oitavo capítulo de Massechet Kelim, que, quando a impureza está debaixo de uma tampa bem ajustada, ela mesmo assim impurifica a casa, ainda que a tampa a proteja da impureza. Tendo em mente estes princípios, o caso dos dois jarros desta mishná fica claro.

Já quanto ao que se diz sobre os dois quartos, é um lugar de dúvida que passo a explicar: assim como, nesses dois jarros, meio-azeitona de um jarro se soma ao meio-azeitona do outro jarro para impurificar o que está fora deles — mas não para impurificar o vaso que contém o meio-azeitona —, assim também é a regra de um quarto dentro da casa: se havia meia medida no quarto e meia medida na casa, soma-se a meia medida do quarto à meia medida da casa para impurificar a casa que está fora do quarto, mas não para impurificar o quarto, tal como dissemos aqui: “a casa é impura e o jarro é puro”.

E a redação da Tosefta sobre este assunto é a seguinte: se havia três casas, uma dentro da outra e outra dentro da outra, com meio-azeitona na interna ou na do meio, e meio-azeitona na externa — a externa é impura, e a interna e a do meio são puras. Com meio-azeitona na interna e meio-azeitona na do meio — a interna é pura, e a externa e a do meio são impuras. E assim já se explicou tudo o que mencionamos.

Bartenura · Ohalot 8:6
כִּשְׁנֵי חֲצָאֵי זֵיתִים. חֲצִי זַיִת בְּזוֹ וַחֲצִי בְזוֹ…

Sobre “como que dois meios de azeitona”: meio-azeitona neste jarro e meio no outro.

Sobre “a casa fica impura”: pois a tampa bem ajustada não salva a impureza que está debaixo dela de impurificar a casa; e, ainda que estejam em dois jarros, sendo ambos dentro da casa, eles se somam para completar a medida e impurificar a casa. Mas os jarros permanecem puros, pois a impureza do meio-azeitona que está no jarro vizinho não entra dentro do outro, uma vez que está cercado com tampa bem ajustada.

Sobre “e o mesmo vale para dois quartos que se abrem para a casa”: com suas portas trancadas, e meio-azeitona neste quarto e meio-azeitona naquele quarto: a casa fica impura, pois a impureza, no fim, sai; e os quartos permanecem puros, pois não é costume a impureza entrar.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Ohalot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste capítulo.
הֵן טְהוֹרוֹת וְהַבַּיִת טָמֵא

Com esta sexta mishná, encerra-se o Perek Chet de Massechet Ohalot, dedicado a uma classificação sistemática de todos os objetos do mundo diante da impureza de ohel, organizados em quatro categorias exaustivas.

O capítulo abriu (8:1) enunciando as quatro categorias — o que traz e bloqueia, o que traz e não bloqueia, o que bloqueia e não traz, o que não faz nenhuma das duas coisas — e apresentou a primeira lista: vasos grandes o bastante para conter quarenta seá, coberturas armadas como tendas, rebanhos e ninhos de animais parados, o abrigo entre as espigas, plantas de folhas largas e alimentos puros, com a exceção de Rabi Yochanan ben Nuri quanto ao bolo de figos secos. A mishná 8:2 continuou essa mesma lista com as saliências, sacadas, pombais e demais projeções de um muro ou rocha, exigindo que consigam sustentar uma camada de argamassa — fina, segundo Rabi Meir, ou mediana, segundo os sábios, cuja opinião prevalece. A mishná 8:3 passou à segunda categoria, retomando os mesmos vasos e coberturas da primeira mishná, agora pequenos demais ou não armados como tenda, e acrescentou o gado e os animais selvagens mortos, os alimentos já habilitados a receber impureza, e o moinho manual. A mishná 8:4, a mais breve do capítulo, tratou da terceira categoria: a teia ainda estendida no tear, as cordas da cama, os cestos de estrume e as grades das janelas, que bloqueiam sem trazer, por ainda não serem vasos acabados. A mishná 8:5 fechou o círculo das quatro categorias com o que não traz nem bloqueia — sementes e verduras ligadas ao solo, granizo, neve, gelo e sal, o que salta ou voa, o manto que esvoaça e o barco que flutua livremente —, mostrando como a fixação de um desses objetos, amarrando o barco ou prendendo o manto com uma pedra, basta para que ele passe a trazer a impureza, com a ressalva de Rabi Yosei sobre a cabine do barco. E, por fim, esta mishná (8:6) encerrou o capítulo com o caso dos dois jarros selados com tampa bem ajustada, cujos dois meios-azeitona se somam para impurificar a casa que os contém, ainda que cada jarro, enquanto fechado, permaneça puro por si mesmo — princípio estendido também a dois quartos fechados que se abrem para uma mesma casa.

O estudo de Massechet Ohalot prossegue agora para o Perek Tet, que continuará a explorar, ao longo dos dez perakim que ainda restam, as inúmeras ramificações da impureza transmitida por ohel.