Seder Tehorot · Massechet Ohalot · Perek Zayin · Mishná 6 de 6

A vida dela precede a vida dele

הָאִשָּׁה שֶׁהִיא מַקְשָׁה לֵילֵד, מְחַתְּכִין אֶת הַוָּלָד בְּמֵעֶיהָ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fecha o Perek Zayin com a lei fundamental sobre a mulher com parto difícil: enquanto o filho não nasceu, a vida dela precede a vida dele; mas, uma vez que a maior parte dele já saiu, não se toca nele, pois não se afasta uma vida por causa de outra vida

A mulher que tem dificuldade para dar à luz: corta-se a criança em suas entranhas e tira-se ela membro por membro, porque a vida dela precede a vida dele. Se a maior parte dele já saiu, não se toca nele, pois não se afasta uma vida por causa de outra vida.

Esta sexta e última mishná do Perek Zayin encerra o capítulo com uma das leis mais decisivas de toda a massechet: o princípio que rege o conflito entre a vida da mãe e a vida do filho no momento do parto. Enquanto a criança ainda não emergiu do corpo da mãe, ela não é considerada uma pessoa independente para este efeito, e sua presença que ameaça a vida da mãe é tratada como a causa direta do perigo que ela enfrenta; por isso, se o parto está posto em risco de morte para a mãe, é permitido — e mesmo necessário — cortar a criança em suas entranhas e retirá-la membro por membro, pois a vida da mãe precede a vida dele. Mas, a partir do momento em que a maior parte do corpo da criança já saiu para o ar do mundo — e, segundo Bartenura, isso se conta a partir da saída da maior parte da cabeça, isto é, da testa —, a criança passa a ser considerada uma pessoa nascida e plena, com vida própria e igual à da mãe; a partir desse ponto, não se toca mais nela, ainda que sua sobrevivência ponha em risco a vida da mãe, pois não se afasta uma vida para salvar outra vida — ninguém tem o direito de decidir qual das duas vidas, já ambas nascidas, deve prevalecer sobre a outra.

הָאִשָּׁה שֶׁהִיא מַקְשָׁה לֵילֵד, מְחַתְּכִין אֶת הַוָּלָד בְּמֵעֶיהָ וּמוֹצִיאִין אוֹתוֹ אֵבָרִים אֵבָרִים, מִפְּנֵי שֶׁחַיֶּיהָ קוֹדְמִין לְחַיָּיו. יָצָא רֻבּוֹ, אֵין נוֹגְעִין בּוֹ, שֶׁאֵין דּוֹחִין נֶפֶשׁ מִפְּנֵי נָפֶשׁ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Ohalot 7:6
זֶה כֻּלּוֹ פָּשׁוּט אֵין צָרִיךְ בֵּאוּר

Tudo isto é simples e não necessita explicação.

Bartenura · Ohalot 7:6
יָצָא רֻבּוֹ. שֶׁל וָלָד…

Sobre “se a maior parte dele já saiu”: da criança. E, desde que saia a maior parte de sua cabeça, isto é, desde que saia sua testa, não se toca mais nela.

Sobre “não se afasta uma vida”: a criança.

Sobre “por causa de uma vida”: a mãe.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Ohalot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste capítulo.
אֵין דּוֹחִין נֶפֶשׁ מִפְּנֵי נָפֶשׁ

Com esta sexta mishná, encerra-se o Perek Zayin de Massechet Ohalot, dedicado a um novo conjunto de casos sobre a impureza na espessura das paredes, as inclinações das tendas, a casa com muitas portas, e as leis do parto e do nascimento.

O capítulo abriu (7:1) com a impureza alojada na própria espessura de uma parede, e quantos sótãos sobrepostos ela impurifica, o caso do sótão único sobre duas casas, a parede dupla (kotel shanit) e o monumento tapado (nefesh atumah), com as cabanas apoiadas nele e a divergência de Rabi Yehudá. A mishná 7:2, a mais longa do capítulo, tratou das inclinações das tendas equiparadas às próprias tendas, os vasos debaixo e dentro da inclinação, a diferença entre tocar por dentro e por fora, a parte da tenda estendida sobre o chão, e a tenda armada no sótão sobre a clarabóia, com a divergência de Rabi Yosei e Rabi Shimon. A mishná 7:3 passou ao morto na casa com muitas portas, todas impuras até que uma seja aberta ou até que se pense em retirar o corpo por ela, com a divergência de Bet Shamai e Bet Hilel sobre o momento da intenção, e a porta tapada que se decide reabrir. As três últimas mishnayot voltaram-se para as leis do parto: a mulher com dificuldade para dar à luz, levada de uma casa para outra, com a primeira casa impura por dúvida e a segunda com certeza, e a ressalva de Rabi Yehudá sobre ser carregada ou caminhar (7:4); o parto de gêmeos, com o primeiro morto e o segundo vivo, ou o primeiro vivo e o segundo morto, e a divergência de Rabi Meir entre um único saco amniótico e dois (7:5); e, por fim, esta mishná (7:6), que fechou o capítulo com o princípio fundamental de que a vida da mãe precede a vida do filho enquanto ele não nasceu, mas que, uma vez nascida a maior parte de seu corpo, não se afasta uma vida por causa de outra.

O estudo de Massechet Ohalot prossegue agora para o Perek Chet, que continuará a explorar, ao longo dos onze perakim que ainda restam, as inúmeras ramificações da impureza transmitida por ohel.