Seder Tehorot · Massechet Negaim · Perek Chet · Mishná 10 de 10

Quem ganha e quem perde ao mostrar sua praga ao sacerdote

יֵשׁ מַרְאֶה נִגְעוֹ לַכֹּהֵן וְנִשְׂכָּר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o Perek Chet com dois casos espelhados, em que a ordem entre o exame sacerdotal e o florescimento total decide, de forma oposta, entre a pureza e a impureza

Há quem mostre sua praga ao sacerdote e ganhe, e há quem mostre e perca. Como assim? Quem estava certificado, e se foram os sinais de sua impureza, e não teve tempo de mostrá-la ao sacerdote antes que florescesse em todo ele, é puro — pois, se a tivesse mostrado ao sacerdote, estaria impuro. Uma mancha em que não havia nada, e não houve tempo de mostrá-la ao sacerdote antes que florescesse em todo ele, é impuro — pois, se a tivesse mostrado ao sacerdote, estaria puro.

A mishná que fecha o Perek Chet reúne, num par de casos deliberadamente espelhados, o fio condutor de todo o capítulo: o momento exato em que a tzaraat floresce sobre o corpo inteiro, em relação ao momento do exame sacerdotal, decide entre pureza e impureza — às vezes a favor de quem se apressa a mostrar sua praga, às vezes contra. No primeiro caso, um homem já certificado impuro vê desaparecerem os sinais que o certificaram; se, antes que tivesse oportunidade de mostrá-la ao sacerdote para ser formalmente isentado, a tzaraat floresce sobre todo o seu corpo, ele é puro de imediato — um florescer a partir da impureza, como na mishná 1. Mas, se ele a tivesse mostrado ao sacerdote a tempo, o sacerdote o teria isentado formalmente; e um florescimento posterior a essa isenção seria, então, um florescer a partir da pureza — impuro. No segundo caso, o espelho exato: uma mancha comum, ainda sem nenhum sinal de impureza, que normalmente exigiria apenas enclausuramento; mas, antes que ele possa mostrá-la ao sacerdote, ela floresce sobre todo o corpo — e, por nunca ter sido examinada nem declarada impura, trata-se de um florescer a partir da pureza, e ele é impuro. Mas, se a tivesse mostrado a tempo, o sacerdote o teria enclausurado — e o enclausurado é impuro —, de modo que o florescimento posterior teria sido, então, um florescer a partir da impureza, e puro. Em ambos os casos, portanto, mostrar a praga ao sacerdote no momento certo determina, paradoxalmente, o resultado oposto ao que ocorreria se ele simplesmente deixasse o tempo passar.

יֵשׁ מַרְאֶה נִגְעוֹ לַכֹּהֵן וְנִשְׂכָּר, וְיֵשׁ מַרְאֶה וּמַפְסִיד. כֵּיצַד. מִי שֶׁהָיָה מֻחְלָט, וְהָלְכוּ לָהֶן סִימָנֵי טֻמְאָה, לֹא הִסְפִּיק לְהַרְאוֹתָהּ לַכֹּהֵן עַד שֶׁפָּרְחָה בְכֻלּוֹ, טָהוֹר. שֶׁאִלּוּ הֶרְאָה לַכֹּהֵן, הָיָה טָמֵא. בַּהֶרֶת וְאֵין בָּהּ כְּלוּם, לֹא הִסְפִּיק לְהַרְאוֹתָהּ לַכֹּהֵן עַד שֶׁפָּרְחָה בְכֻלּוֹ, טָמֵא. שֶׁאִלּוּ הֶרְאָה לַכֹּהֵן, הָיָה טָהוֹר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Negaim 8:10
בהלכה ראשונה אם ראה הכהן כאשר הלכו סימני טומאה היה פוטר אותו…

Na primeira halachá: se o sacerdote o tivesse visto quando se foram os sinais de sua impureza, teria isentado-o; e quando a tzaraat floresce em todo o seu corpo depois disso, ele é impuro, segundo o que já estabeleci, que quem se torna todo branco a partir da isenção é impuro. E na segunda halachá: no momento em que havia nele a mancha e não havia nela nada, e o sacerdote não a viu, ele o teria enclausurado, conforme o que já precede nisto; e quando a tzaraat floresce em seu corpo depois disso, ele é puro, segundo o que se esclareceu, que quem se torna todo branco a partir do enclausuramento é puro. E quando ele mesmo se deixou, até que floresceu em todo ele, é impuro, conforme o que precede, que quem vem todo branco será enclausurado — e sabe-se que todo enclausurado é impuro.

Bartenura · Negaim 8:10
מִי שֶׁהָיָה מֻחְלָט. בְּשֵׂעָר לָבָן אוֹ בְמִחְיָה אוֹ בְּפִשְׂיוֹן…

Sobre “quem estava certificado”: por pelo branco, por carne viva ou por alastramento.

Sobre “não teve tempo de mostrar ao sacerdote”: pois os sinais de impureza se foram.

Sobre “pois, se a tivesse mostrado ao sacerdote”: quando se foram os sinais de impureza, ele o teria purificado; e se depois disso florescesse, estaria impuro, pois seria florescer a partir do puro. Mas agora é florescer a partir do impuro, e é puro.

Sobre “mancha em que não havia nada”: não havia nela nenhum dos sinais de impureza.

Sobre “até que floresceu em todo ele, é impuro”: isto é, precisa de enclausuramento, como quem veio todo branco no início. E se, desde o início, antes de florescer, a tivesse mostrado ao sacerdote, ele o teria enclausurado; e ao fim da semana, quando florescesse, seria florescer a partir do enclausuramento, e puro.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Negaim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste capítulo.
הֲדַרָן עֲלָךְ הַפּוֹרֵחַ מִן הַטָּמֵא

Com esta décima mishná, encerra-se o Perek Chet de Massechet Negaim — um capítulo inteiramente dedicado ao florescimento total da tzaraat (hafach kuló lavan) e às suas duas direções opostas. Abriu estabelecendo o princípio central: quem floresce a partir da impureza é puro, mas quem floresce a partir da pureza é impuro, com o retorno das pontas dos membros revertendo cada veredicto por trajetórias diferentes (8:1). Em seguida, aplicou esse princípio ao caso clássico de uma mancha do tamanho de um grão com carne viva de uma lentilha, com a disputa entre Rabi Yehoshua e os sábios sobre o pelo branco renascido (8:2), e estendeu-o ao pelo branco e ao alastramento, fixando a regra de que apenas o florescimento total, não o parcial, purifica (8:3) — regra que a mishná seguinte formulou como princípio geral (8:4). Tratou depois dos lugares do corpo aptos e inaptos a receber a mancha, e de como essa aptidão, no momento certo, decide se eles impedem o florescimento total (8:5); de duas manchas independentes, de pares de órgãos que parecem uma só mancha quando colados, e do bohak, sinal de impureza no início mas não no fim, com a disputa entre Rabi Meir e os sábios (8:6). Voltou-se então para quem chega perante o sacerdote já todo branco, com a lista dos sinais que revertem sua certificação (8:7), e esclareceu a diferença entre o florescimento gradual e o súbito, além das obrigações rituais distintas entre quem se purifica do enclausuramento e da certificação (8:8). Tratou de um caso híbrido — todo branco desde o início, mas já com carne viva —, com a disputa entre Rabi Yishmael e Rabi Elazar ben Azaria sobre a categoria que rege sua purificação (8:9); e fechou com dois casos espelhados, em que a ordem entre o exame sacerdotal e o florescimento total decide, de forma oposta, entre a pureza e a impureza (8:10).

O estudo da Mishná prossegue agora para o Perek Tet de Massechet Negaim, que continuará a examinar as regras da tzaraat e o processo de exame sacerdotal.