Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Tet · Mishná 4 de 10

Abrindo pelos versículos da Torá: não vingar, não odiar, amar ao próximo

וְעוֹד אָמַר רַבִּי מֵאִיר פּוֹתְחִין לוֹ מִן הַכָּתוּב שֶׁבַּתּוֹרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de sua posição intermediária sobre o nolad, Rabi Meir apresenta uma terceira leniência, agora aceita por todos: abrir o voto citando diretamente os versículos da Torá que proíbem vingança, rancor e ódio, e ordenam o amor ao próximo — versículos que se aplicam com particular força a votos motivados por briga entre amigos.

E ainda disse Rabi Meir: abre-se para ele a partir do que está escrito na Torá, e dizem-lhe: "Se soubesses que estás transgredindo Não te vingarás e não guardarás rancor (Vayikrá 19), e Não odiarás teu irmão em teu coração (ali mesmo), e Amarás a teu próximo como a ti mesmo (ali mesmo), e Que teu irmão viva contigo (ali, 25) — pois talvez ele empobreça e não possas sustentá-lo" — e disse, "Se eu soubesse que era assim, eu não teria feito o voto" — eis que este fica permitido.Diferente das aberturas anteriores, baseadas em honra ou em circunstâncias factuais, esta abertura é puramente moral e bíblica: o sábio expõe ao votante que seu voto de vedar proveito a um amigo — nascido tipicamente de uma briga — o coloca em transgressão direta de quatro mandamentos centrais sobre a relação entre irmãos de Israel. Se o votante reconhece que, sabendo disso, jamais teria jurado, o voto é anulado. Esta é a única abertura das quatro apresentadas por Rabi Eliezer e Rabi Meir que os sábios não contestam.

וְעוֹד אָמַר רַבִּי מֵאִיר פּוֹתְחִין לוֹ מִן הַכָּתוּב שֶׁבַּתּוֹרָה וְאוֹמְרִים לוֹ, אִלּוּ הָיִיתָ יוֹדֵעַ שֶׁאַתָּה עוֹבֵר עַל לֹא תִקֹּם וְעַל לֹא תִטֹּר (ויקרא יט), וְעַל לֹא תִשְׂנָא אֶת אָחִיךָ בִּלְבָבֶךָ (שם), וְאָהַבְתָּ לְרֵעֲךָ כָּמוֹךָ (שם), וְחֵי אָחִיךָ עִמָּךְ (שם כה), שֶׁמָּא יֵעָנִי וְאֵין אַתָּה יָכוֹל לְפַרְנְסוֹ. אָמַר, אִלּוּ הָיִיתִי יוֹדֵעַ שֶׁהוּא כֵן, לֹא הָיִיתִי נוֹדֵר, הֲרֵי זֶה מֻתָּר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Esta mishná é única no Perek Tet por citar seus próprios versículos-fonte dentro do texto mishnaico, reunindo quatro mandamentos consecutivos de Vayikrá sobre a relação entre irmãos de Israel.

Vayikrá (Levítico) 19:17-18
לֹא תִשְׂנָא אֶת אָחִיךָ בִּלְבָבֶךָ... לֹא תִקֹּם וְלֹא תִטֹּר אֶת בְּנֵי עַמֶּךָ, וְאָהַבְתָּ לְרֵעֲךָ כָּמוֹךָ, אֲנִי ה׳
Não odiarás a teu irmão em teu coração... Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo; e amarás a teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Eterno.

A própria mishná cita esses versículos explicitamente como a fonte da abertura de Rabi Meir, junto com Vayikrá 25:36, "que teu irmão viva contigo" — o versículo que fundamenta o dever de sustentar o irmão empobrecido. A força retórica desta abertura está em mostrar ao votante que seu voto — normalmente nascido de uma disputa pessoal — não é apenas uma decisão privada sobre seus próprios bens, mas uma transgressão ativa de quatro mandamentos positivos e negativos que regem a fraternidade entre israelitas, o que torna esta a única das quatro aberturas do capítulo aceita sem disputa entre os sábios.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, confirma que esta abertura é halachá vigente, mas ainda exige a consulta formal a um sábio e a presença do amigo vedado.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 9:4
מַה שֶּׁאָמַר רַבִּי מֵאִיר הֲרֵי זֶה מֻתָּר אַחַר הַשְּׁאֵלָה לְחָכָם וְהִיא הֲלָכָה, אֶלָּא עַל כָּל פָּנִים צָרִיךְ שְׁאֵלָה לְחָכָם וְהַתָּרָה, וְכֵן צָרִיךְ שֶׁיִּהְיֶה נִמְצָא שָׁם זֶה הָאִישׁ שֶׁנִּשְׁבַּע שֶׁלֹּא יֵהָנֶה מִמֶּנּוּ

Rambam confirma que a posição de Rabi Meir é halachá vigente, mas esclarece que a permissão só se concretiza depois da consulta formal a um sábio e da hatará propriamente dita — a mera afirmação "eu não teria jurado" não basta por si só. Rambam acrescenta uma condição processual importante, citada do próprio caso de Moshé: quando o voto veda proveito de outra pessoa especificamente, a anulação só pode ocorrer na presença dessa pessoa, e não à revelia dela.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica a lógica dos quatro versículos citados; Bartenura detalha a fonte da regra de que a hatará exige a presença do amigo vedado, extraída do próprio Moshé em Midian.

Rashi · רש"י
Nedarim 65b
מַתְנִיתִין עַל לֹא תִקֹּם וְלֹא תִטֹּר. שֶׁאִם בִּקַּשְׁתָּ מִמֶּנּוּ כְּלִי וְלֹא הִשְׁאִילְךָ, וְהִדַּרְתּוֹ הֲנָאָתְךָ, אוֹ שֶׁעָשָׂה לְךָ דָּבָר שֶׁלֹּא כַהוֹגֶן וּמִתּוֹךְ שִׂנְאָה הִדַּרְתּוֹ, וְהַתּוֹרָה אָמְרָה לֹא תִשְׂנָא אֶת אָחִיךָ בִּלְבָבֶךָ, הַתּוֹרָה הִזְקִיקַתּוּ לְפַרְנְסוֹ וּלְאָהֳבוֹ וּלְהַחֲיוֹתוֹ

Rashi identifica o cenário típico por trás desta mishná: alguém pediu um objeto emprestado e foi recusado, ou sofreu algum desrespeito, e por rancor fez um voto vedando proveito mútuo. A Torá, ao proibir vingança e rancor e ao ordenar o amor ao próximo, obriga justamente o oposto do que o voto pretende — sustentar, amar e manter vivo esse mesmo amigo. Sobre "talvez ele empobreça", Rashi explica que o sábio aponta ao votante a consequência prática mais grave: se seu amigo um dia cair na pobreza, o próprio voto o impedirá de cumprir o mandamento de sustentá-lo.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 9:4
צָרִיךְ שֶׁיִּהְיֶה נִמְצָא שָׁם זֶה הָאִישׁ שֶׁנִּשְׁבַּע שֶׁלֹּא יֵהָנֶה מִמֶּנּוּ, לְפִי מַה שֶּׁאָמְרוּ הַמֻּדָּר הֲנָאָה מֵחֲבֵרוֹ אֵין מַתִּירִין לוֹ אֶלָּא בְּפָנָיו. וְהֵבִיא רְאָיָה עַל זֶה מִמַּה שֶּׁנֶּאֱמַר לֵךְ שׁוּב מִצְרַיִם

Rambam traz a fonte talmúdica da exigência de presença: o próprio Moshé, que havia jurado a Yitró não retornar ao Egito, só pôde ser liberado desse voto quando Deus lhe disse "vai, retorna ao Egito" — entendido pelos sábios como "em Midian juraste, em Midian anula teu voto", ou seja, na presença simbólica daquele perante quem o voto foi feito. Esse princípio se estende a qualquer voto que vede proveito a outra pessoa: a anulação exige a presença dela.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 9:4
אִלּוּ הָיִיתִי יוֹדֵעַ שֶׁכֵּן הוּא לֹא הָיִיתִי נוֹדֵר הֲרֵי זֶה מֻתָּר. אַחַר שֶׁיַּתִּירֶנּוּ הֶחָכָם, וְכָל הַמֻּדָּר הֲנָאָה מֵחֲבֵרוֹ כְּשֶׁמַּתִּירִין לוֹ אֵין מַתִּירִין אֶלָּא בִּפְנֵי חֲבֵרוֹ, דִּכְתִיב וַיֹּאמֶר ה׳ אֶל מֹשֶׁה בְּמִדְיָן לֵךְ שׁוּב, אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה בְּמִדְיָן נָדַרְתָּ בְּמִדְיָן לֵךְ וְהַתֵּר אֶת נִדְרְךָ

Bartenura confirma que a fórmula final "eis que este fica permitido" pressupõe a hatará formal do sábio, e reforça a regra derivada do episódio de Moshé em Midian: como Moshé havia jurado diante de Yitró que não retornaria ao Egito por medo daqueles que buscavam sua vida, o Criador ordenou que ele voltasse precisamente ao território simbólico do voto para que ali fosse anulado — modelo que rege todo voto de vedação de proveito a outrem, sempre exigindo sua presença.