Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Chet · Mishná 3 de 7

A regra geral: tempo fixo e tempo variável

עַד הַקָּצִיר, עַד הַבָּצִיר, עַד הַמָּסִיק, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁיַּגִּיעַ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa das festas de data fixa no calendário para as épocas agrícolas, cuja chegada varia de ano para ano e de região para região, e formula a regra geral que organiza toda a disputa do capítulo entre tempos fixos e tempos variáveis.

"Até a colheita", "até a vindima", "até a coleta de azeitonas" — não fica proibido senão até que cheguem. Esta é a regra geral: tudo cujo tempo é fixo, e disse "até que chegue" — fica proibido até que chegue; disse "até que seja" — fica proibido até que saia. E tudo cujo tempo não é fixo, seja que disse "até que seja", seja que disse "até que chegue" — não fica proibido senão até que chegue. — A mishná revela que a disputa entre Rabi Meir e Rabi Yossi na mishná anterior dependia de o Pessach ter data fixa e conhecida no calendário — e por isso "antes do Pessach" podia, em princípio, se estender até a saída da festa. Mas colheita, vindima e coleta de azeitonas não têm data fixa: variam segundo o clima, a região e o ano, e ninguém formula um voto pretendendo prender-se a uma incerteza tão grande e imprecisa. Por isso, qualquer que seja a formulação usada — "até que chegue" ou "até que seja" —, o resultado prático é sempre o mesmo: a proibição cessa assim que a época variável simplesmente começa, sem se estender por sua duração inteira, porque ninguém tem em mente prolongar seu voto por um período cujo fim nem sequer pode prever.

עַד הַקָּצִיר, עַד הַבָּצִיר, עַד הַמָּסִיק, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁיַּגִּיעַ. זֶה הַכְּלָל, כֹּל שֶׁזְּמַנּוֹ קָבוּעַ וְאָמַר עַד שֶׁיַּגִּיעַ, אָסוּר עַד שֶׁיַּגִּיעַ. אָמַר עַד שֶׁיְּהֵא, אָסוּר עַד שֶׁיֵּצֵא. וְכֹל שֶׁאֵין זְמַנּוֹ קָבוּעַ, בֵּין אָמַר עַד שֶׁיְּהֵא, בֵּין אָמַר עַד שֶׁיַּגִּיעַ, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁיַּגִּיעַ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Os três marcos agrícolas da mishná — colheita, vindima e coleta de azeitonas — são as mesmas três colheitas que a Torá associa às três festas de peregrinação, ainda que sem lhes fixar uma data exata no calendário solar.

Shemot (Êxodo) 23:16
וְחַג הַקָּצִיר בִּכּוּרֵי מַעֲשֶׂיךָ אֲשֶׁר תִּזְרַע בַּשָּׂדֶה, וְחַג הָאָסִף בְּצֵאת הַשָּׁנָה בְּאָסְפְּךָ אֶת מַעֲשֶׂיךָ מִן הַשָּׂדֶה
E a festa da colheita, dos primeiros frutos do teu trabalho que semeaste no campo; e a festa da colheita final, na saída do ano, quando recolheres do campo o trabalho de tuas mãos.

A Torá liga a festa de Shavuot à "chag hakatzir" (a festa da colheita) e a Sucot à "chag ha'assif" (a festa da colheita final, quando se recolhe do campo os frutos e as azeitonas), mas em nenhum lugar fixa uma data exata para o início da colheita de grãos, da vindima das uvas ou da coleta das azeitonas — apenas amarra essas datas às próprias festas, que sim têm dia fixo. É exatamente essa ausência de data fixa para o início do trabalho agrícola em si — em contraste com a data fixa da festa que o celebra — que a mishná usa como critério para toda a regra geral: onde a Torá fixa o dia, a linguagem "até que seja" se estende até a saída; onde a Torá amarra apenas o resultado do trabalho agrícola à celebração, sem fixar quando esse trabalho começa, a proibição sempre cessa assim que a época chega.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, já apresentado na mishná anterior, fixa os três termos agrícolas com precisão; Bartenura completa explicando a lógica da regra geral.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 8:2 (sobre 8:3)
עַד הַקָּצִיר עַד הַבָּצִיר עַד הַמָּסִיק אֵינוֹ אָסוּר כוּ': קָצִיר קְצִיר חִטִּים, וּבָצִיר בְּצִירַת הָעֲנָבִים, וּמָסִיק חֲבִיטַת הַזֵּיתִים

Rambam, no mesmo comentário que abrange a mishná anterior, define os três termos técnicos: katzir é a colheita do trigo, batzir é a vindima das uvas, e massik é a coleta das azeitonas por meio de vara — chavitá, "bater" os ramos para derrubar os frutos. Nenhum desses três marcos tem, segundo Rambam, uma data absoluta e uniforme, o que é precisamente a base da regra geral formulada pela mishná.

Bartenura · Nedarim 8:3
אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁיַּגִּיעַ. הוֹאִיל וְאֵין לְקָצִיר וּבָצִיר זְמַן קָבוּעַ, לֹא שְׁנָא אָמַר עַד שֶׁיְּהֵא לֹא שְׁנָא אָמַר עַד שֶׁיַּגִּיעַ, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁיַּגִּיעַ, שֶׁכָּל דָּבָר שֶׁאֵין זְמַנּוֹ קָצוּב אֵין בְּדַעַת הַנּוֹדֵר לְהַכְנִיס עַצְמוֹ בְאִסּוּר זְמַן שֶׁאֵין יָדוּעַ לוֹ

Bartenura explica o fundamento psicológico da regra: como colheita e vindima não têm um tempo fixado, nenhuma pessoa razoável pretende, ao formular seu voto, prender-se a uma proibição cuja duração ela nem sequer consegue prever ou calcular. Por isso, tanto faz que ela diga "até que seja" ou "até que chegue" — o resultado é sempre a leitura mais branda: a proibição cessa assim que a época em questão simplesmente começa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, no Talmud, situa esta mishná logo após a sugiá que discute se a opinião invertida de Rabi Meir e Rabi Yossi poderia se aplicar aqui; Rambam e Bartenura fecham a leitura da regra geral.

Rashi · רש"י
Nedarim 61b
מַתְנִי' אָמַר קוֹנָם שֶׁאֵינִי טוֹעֵם יַיִן עַד הַבָּצִיר, עַד הַמָּסִיק, לְקִיטָה שֶׁל זֵיתִים: וְכָל שֶׁאֵין זְמַנּוֹ קָבוּעַ, כְּגוֹן קָצִיר וּבָצִיר, דְּזִמְנִין הָווּ בַּחֲרִיפֵי וְזִמְנִין הָווּ בַּאֲפִילֵי

Rashi explica massik como a lecuita das azeitonas por batida dos ramos, e observa que colheita e vindima "às vezes são cedo, às vezes são tardias" — ou seja, dependem inteiramente das condições de cada ano agrícola, sem um dia fixo e conhecido de antemão como acontece com as festas. É essa variabilidade real, confirmada pela experiência, que sustenta a regra geral formulada pela mishná.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 8:2 (sobre 8:3)
קָצִיר קְצִיר חִטִּים, וּבָצִיר בְּצִירַת הָעֲנָבִים, וּמָסִיק חֲבִיטַת הַזֵּיתִים

Rambam fixa a tradução técnica exata dos três termos agrícolas, base indispensável para compreender tanto esta mishná quanto a seguinte, que refina ainda mais a definição de "colheita" segundo a localidade — se predominam trigo ou cevada, se o voto foi feito no monte ou no vale.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 8:3
עַד הַקָּצִיר. שֶׁל חִטִּים וּשְׂעֹרִים: עַד הַבָּצִיר. שֶׁל עֲנָבִים: עַד הַמָּסִיק. שֶׁל זֵיתִים: אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁיַּגִּיעַ. הוֹאִיל וְאֵין לְקָצִיר וּבָצִיר זְמַן קָבוּעַ, כְּדִמְפָרֵשׁ וְאָזֵיל, לֹא שְׁנָא אָמַר עַד שֶׁיְּהֵא לֹא שְׁנָא אָמַר עַד שֶׁיַּגִּיעַ, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁיַּגִּיעַ

Bartenura resume os três marcos — trigo e cevada para a colheita, uvas para a vindima, azeitonas para a coleta — e reafirma o princípio central: como nenhum desses tempos é fixo e previsível, a linguagem do nazireu nunca é lida como pretendendo se estender por uma duração incerta; ela é sempre lida da forma mais restrita possível, cessando assim que a época chega.