Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Vav · Mishná 9 de 10

Vinho de maçãs, óleo de gergelim: o nome emprestado

הַנּוֹדֵר מִן הַיַּיִן, מֻתָּר בְּיֵין תַּפּוּחִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná reúne seis casos sob um único princípio explicativo: quando um alimento empresta o nome de outro apenas por semelhança de sabor ou processo, sem ser realmente dele derivado, o voto sobre o original não alcança o homônimo.

O votado do vinho está permitido no vinho de maçãs. Do azeite, está permitido no óleo de gergelim. Do mel, está permitido no mel de tâmaras. Do vinagre, está permitido no vinagre de uvas de inverno. Dos alhos-porós, está permitido nos alhos-porós selvagens. Da verdura, está permitido nas verduras do campo, porque este é um nome emprestado.A mishná ensina um princípio distinto do visto até agora: nos seis pares citados, o segundo termo não é um verdadeiro derivado do primeiro, mas um produto diferente que recebeu seu nome apenas por analogia de sabor, cor ou uso — "vinho" de maçãs não vem da uva, "óleo" de gergelim não vem da azeitona, "mel" de tâmaras (aqui tratado como categoria à parte do próprio fruto) e "vinagre" de uvas de inverno já vistos, e alhos-porós selvagens e verduras do campo, que só recebem seus nomes por acréscimo qualificador. Justamente por serem nomes "emprestados" — compostos que precisam de um qualificador extra para se tornarem completos, como "verdura do campo" em vez de simplesmente "verdura" —, esses produtos não são capturados pelo voto sobre o termo simples e original, pois a linguagem corrente já os trata como categorias vizinhas, e não como o próprio item votado.

הַנּוֹדֵר מִן הַיַּיִן, מֻתָּר בְּיֵין תַּפּוּחִים. מִן הַשֶּׁמֶן, מֻתָּר בְּשֶׁמֶן שֻׁמְשְׁמִין. מִן הַדְּבַשׁ, מֻתָּר בִּדְבַשׁ תְּמָרִים. מִן הַחֹמֶץ, מֻתָּר בְּחֹמֶץ סִתְוָנִיּוֹת. מִן הַכְּרֵשִׁין, מֻתָּר בְּקַפְלוֹטוֹת. מִן הַיָּרָק, מֻתָּר בְּיַרְקוֹת הַשָּׂדֶה, מִפְּנֵי שֶׁהוּא שֵׁם לְוָאי:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O momento em que Adam nomeia cada animal e cada coisa, fixando para sempre sua designação própria, é a raiz de todo o princípio linguístico que estas mishnayot exploram: o nome determina a identidade, e nomes diferentes indicam identidades diferentes.

Bereshit (Gênesis) 2:19
וַיָּבֵא אֶל הָאָדָם לִרְאוֹת מַה יִּקְרָא לוֹ, וְכֹל אֲשֶׁר יִקְרָא לוֹ הָאָדָם נֶפֶשׁ חַיָּה הוּא שְׁמוֹ
E os trouxe ao homem, para ver como lhes chamaria; e tudo quanto o homem chamou a cada ser vivente, esse ficou sendo seu nome.

A Torá atribui a Adam a autoridade fundacional de nomear cada criatura — e o nome que ele escolhe se torna, dali em diante, a identidade permanente daquele ser, mostrando que a designação verbal não é acidental, mas constitutiva da categoria a que a coisa pertence. Esse mesmo poder fundacional do nome é o que a mishná explora ao tratar de "vinho de maçãs" e "mel de tâmaras": tais expressões, mesmo usando palavras emprestadas de outras categorias por semelhança, criam — como Adam criou para os animais — identidades próprias e independentes na linguagem humana, de modo que quem vota contra o "vinho" original não alcança o "vinho de maçãs", precisamente porque este último já é, na fala corrente, uma coisa nomeada à parte, tal como cada criatura nomeada por Adam permaneceu distinta de todas as outras apesar de eventuais semelhanças de forma ou função.

Halachot · הֲלָכוֹת

Sem citação direta correspondente na Mishné Torá, Rambam explica no Perush HaMishná o conceito técnico de "nome emprestado" que fundamenta toda a mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 6:9
שֵׁם לְוַאי שֵׁם מְחֻבָּר, רְצוֹנוֹ לוֹמַר שֶׁזֶּה לֹא יִוָּדַע אֶלָּא בְּמַה שֶּׁנִּתְחַבֵּר בּוֹ, וְהוּא אַמְנָם נִשְׁבָּע בְּדָבָר שֶׁנּוֹדָע בְּזֶה הַשֵּׁם בְּלֹא שֵׁם מְחֻבָּר

Rambam explica o conceito técnico de "שֵׁם לְוַאי" — nome emprestado ou acessório — como todo nome que só se torna reconhecível quando combinado com outra palavra qualificadora; sozinho, ele não identifica nada de específico. Por isso, quando o votado usa apenas o termo simples e independente — "vinho", "azeite", "verdura" — sem qualquer qualificador, presume-se que sua intenção recai exclusivamente sobre a coisa conhecida por esse nome simples, e não sobre variantes que só existem enquanto combinações de dois termos, como "vinho de maçãs" ou "verdura do campo".

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará (Nedarim 53a), explica por que o vinho de maçãs e o óleo de gergelim não pertencem à categoria original; Bartenura detalha o caso especial da verdura do campo, relevante inclusive para o ano sabático.

Rashi · רש"י
Nedarim 53a
מַתְנִי' מִן הַשֶּׁמֶן — מַשְׁמַע שֶׁמֶן זַיִת, לְהָכִי מֻתָּר בְּשֶׁמֶן שֻׁמְשְׁמִין... אָסוּר בִּירָקוֹת הַגִּנָּה... וּמֻתָּר בִּירָקוֹת הַשָּׂדֶה, שֶׁעֲלֵיהֶן סוֹמְכִין בַּשְּׁבִיעִית

Rashi confirma que "óleo", sem qualificação, significa na linguagem corrente exclusivamente o azeite de oliva, o único óleo verdadeiramente comum na terra de Israel — por isso o óleo de gergelim, produzido de uma planta totalmente diferente, escapa ao voto original apesar de compartilhar o mesmo termo genérico "óleo". Sobre a verdura, Rashi explica que a distinção entre verdura de horta e verdura do campo ganha relevância especial no ano sabático: como as hortas cultivadas ficam então abandonadas, o povo passa a se alimentar principalmente das verduras que crescem espontaneamente no campo, tornando este ano a exceção em que "verdura" sem qualificador poderia, na prática, apontar justamente para a verdura do campo.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 6:9
וְשׁוּמְשְׁמִין נִקְרָא בְּעַרְבִי אלסמס, וּכְרֵשִׁין כְּרָתִי, וְקַפְלוֹטוֹת שֵׁם הַכְּרָתִין שֶׁבְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל

Rambam identifica cada termo técnico: o gergelim, conhecido em árabe como "al-simsim"; o alho-poró comum, cultivado; e as "kaflotot", nome dado ao alho-poró selvagem que cresce especificamente na terra de Israel, distinto da variedade cultivada apesar do parentesco botânico. Rambam mostra assim que, mesmo quando duas plantas pertencem à mesma família natural, a linguagem popular pode ainda assim tratá-las como categorias distintas para efeito de voto, desde que cada uma tenha nome próprio reconhecido — reforçando que o critério final é sempre o uso linguístico, não a taxonomia botânica.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 6:9
שֶׁהוּא שֵׁם לְוָאי. הַבָּא לוֹמַר יַרְקוֹת שָׂדֶה צָרִיךְ לְחַבֵּר שֵׁם לַיָּרָק... אֲבָל בַּשְּׁבִיעִית... יְרָקוֹת סְתָם בִּשְׁבִיעִית הָווּ יַרְקוֹת שָׂדֶה

Bartenura explica que "verdura do campo" é um nome que, nos anos comuns, só existe como combinação de duas palavras — nunca sozinho —, o que confirma seu estatuto de "nome emprestado" e o mantém fora do voto simples "verdura". Mas Bartenura ressalva, seguindo Rashi, que essa regra vale apenas nos seis anos comuns do ciclo sabático: no ano da shemitá propriamente dito, como as hortas ficam abandonadas e o povo se sustenta principalmente das verduras espontâneas do campo, a própria palavra "verdura" sem qualificador passa a significar, na prática cotidiana daquele ano, a verdura do campo — inversão que mostra, mais uma vez, como o critério de "nome emprestado" depende inteiramente do uso vivo da língua em cada momento.