Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Vav · Mishná 8 de 10

Tâmaras e uvas de inverno: o nome que carrega a origem

הַנּוֹדֵר מִן הַתְּמָרִים, מֻתָּר בִּדְבַשׁ תְּמָרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná traz um novo tipo de disputa: Rabi Yehuda ben Beteira propõe uma regra geral que contradiz aparentemente o próprio caso citado pela mishná — quando o nome da origem permanece explícito no nome do derivado, isso deveria bastar para incluí-lo no voto — mas os sábios discordam.

O votado das tâmaras está permitido no mel de tâmaras. Das uvas de inverno, está permitido no vinagre de uvas de inverno. Rabi Yehuda ben Beteira diz: tudo cujo nome de sua origem é chamado sobre ele, e dele se vota, fica proibido também no que dele sai. E os sábios permitem.A mishná apresenta dois casos concretos em que frutos não plenamente comestíveis por si — tâmaras que se transformam em mel concentrado, uvas azedas de fim de estação que só servem para vinagre — deixam o votado livre para consumir seu produto derivado, ainda que o nome do fruto original permaneça explícito dentro do próprio nome do produto: "mel de tâmaras", "vinagre de uvas de inverno". Rabi Yehuda ben Beteira formula então uma regra geral que pareceria contradizer justamente esses dois casos: sempre que o nome do produto derivado carrega explicitamente o nome de sua origem — como nestes exemplos —, isso prova que a identidade do fruto original persiste no derivado, e por isso o voto deveria alcançá-lo também. Os sábios rejeitam essa regra geral e mantêm a permissão nos dois casos citados, entendendo que o critério decisivo não é a presença do nome, mas a linguagem viva e corrente das pessoas ao usar cada expressão.

הַנּוֹדֵר מִן הַתְּמָרִים, מֻתָּר בִּדְבַשׁ תְּמָרִים. מִסִּתְוָנִיּוֹת, מֻתָּר בְּחֹמֶץ סִתְוָנִיּוֹת. רַבִּי יְהוּדָה בֶן בְּתֵירָא אוֹמֵר, כָּל שֶׁשֵּׁם תּוֹלַדְתּוֹ קְרוּיָה עָלָיו וְנוֹדֵר הֵימֶנּוּ, אָסוּר אַף בַּיּוֹצֵא הֵימֶנּוּ. וַחֲכָמִים מַתִּירִין:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O "mel" das sete espécies da terra de Israel é entendido pela tradição como o mel de tâmaras — o mesmo produto desta mishná —, mostrando que já a própria Torá reconhece o mel de tâmaras como categoria autônoma, distinta do fruto cru.

Devarim (Deuteronômio) 8:8
אֶרֶץ זֵית שֶׁמֶן וּדְבָשׁ
Terra de olival de azeite e mel.

A tradição interpreta o "mel" mencionado entre as sete espécies da terra de Israel não como mel de abelha, mas como o mel concentrado extraído das tâmaras — de modo que a própria Torá, ao listar as bênçãos da terra, já trata o produto derivado da tâmara como uma dádiva nomeada e independente, ao lado do trigo, da uva e da romã, e não como simples subproduto do fruto original. É esse reconhecimento bíblico de autonomia que sustenta a posição dos sábios contra Rabi Yehuda ben Beteira: o mel de tâmaras já era, para a própria linguagem sagrada, uma categoria de valor e nome próprios, independente de a palavra "tâmaras" continuar presente em sua designação composta — e a mesma lógica se estende ao vinagre extraído das uvas azedas de inverno, produto que a linguagem corrente trata como coisa distinta do fruto que lhe deu origem, ainda que o nome preserve o vínculo etimológico.

Halachot · הֲלָכוֹת

Sem citação direta correspondente na Mishné Torá, Rambam decide no Perush HaMishná a favor dos sábios contra Rabi Yehuda ben Beteira, explicando a razão de fundo da controvérsia.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 6:8
חֲכָמִים אוֹמְרִים אֲפִלּוּ הָיָה הַדָּבָר שֶׁנִּשְׁבַּע עָלָיו אֵינוֹ רָאוּי לַאֲכִילָה כְּלָל... עִם כָּל זֶה מֻתָּר בַּיּוֹצֵא מִמֶּנּוּ... וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים

Rambam explica que os sábios sustentam uma posição ainda mais ampla do que a simples permissão vista na mishná: mesmo quando o próprio fruto votado não é apto para consumo direto — como as uvas de inverno, azedas e intragáveis por si —, o votado continua livre para seu derivado processado, pois seria razoável supor que sua intenção original nunca incluiu aquilo que ele nem poderia comer cru. Rambam confirma explicitamente que a halachá segue os sábios, e não Rabi Yehuda ben Beteira, cuja regra sobre a permanência do nome de origem não é adotada na prática.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará (Nedarim 53a), explica a base da distinção entre os sábios e Rabi Shimon ben Elazar sobre "o que não costuma ser comido"; Bartenura detalha as duas interpretações possíveis da posição dos sábios.

Rashi · רש"י
Nedarim 53a
מַתְנִי' מִן הַסִּתְוָנִיּוֹת — הַיְנוּ עֲנָבִים קָשִׁים שֶׁמַּנִּיחָן בַּכֶּרֶם כָּל יְמֵי הַסְּתָו וְעוֹשִׂין מֵהֶן חֹמֶץ... כֹּל שֶׁאֵין דַּרְכּוֹ לֶאֱכוֹל — כְּגוֹן סִתְוָנִיּוֹת דְּדֶרֶךְ הַיּוֹצֵא מִמֶּנּוּ לֶאֱכוֹל וְהֵן עַצְמָן אֵין דַּרְכָּן לֶאֱכוֹל

Rashi identifica as "sitvaniyot" como uvas duras deixadas propositalmente na vinha durante todo o período do inverno, azedas demais para comer, das quais se produz vinagre. Rashi expõe a discussão da Guemará que amplia a mishná: Rabi Shimon ben Elazar formula um princípio ainda mais preciso — quando o próprio fruto não costuma ser comido, mas seu produto derivado costuma, o voto sobre o fruto não alcança o derivado, exatamente o caso das uvas de inverno, cujo destino natural sempre foi virar vinagre e nunca ser comidas em sua forma crua.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 6:8
תַּנָּא קַמָּא אוֹמֵר הַנּוֹדֵר מִן הַתְּמָרִים מֻתָּר בִּדְבַשׁ תְּמָרִים לְפִי שֶׁהַתְּמָרִים רְאוּיִין לַאֲכִילָה וְנֹאמַר שֶׁהוּא לֹא נִתְכַּוֵּן אֶלָּא לְעַצְמָן

Rambam distingue os dois casos da mishná: as tâmaras são plenamente comestíveis por si, então quando o votado as menciona, presume-se que teve em mente apenas o fruto tal como é, liberando seu mel concentrado por uma razão simples de intenção. Já as uvas de inverno não são comestíveis por si — e por essa razão os sábios ampliam ainda mais a permissão, presumindo que a real intenção do votado, ao mencionar um fruto que ninguém come cru, só poderia ter sido seu produto processado, o que tornaria paradoxalmente lógico proibir justamente o vinagre; mas os sábios preferem, mesmo assim, permitir ambos, por entenderem que o voto sobre o fruto não se estende automaticamente ao que dele sai.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 6:8
וַחֲכָמִים מַתִּירִין. אִיכָּא בֵּין תַּנָּא קַמָּא לַחֲכָמִים... פֵּרוּשׁ אַחֵר, וַחֲכָמִים מַתִּירִין חֹמֶץ הַסִּתְוָנִיּוֹת כְּמוֹ דְבַשׁ תְּמָרִים

Bartenura apresenta duas leituras possíveis da posição dos sábios: segundo a primeira, eles concordam com o tanna kama que o vinagre é o que realmente estava em mente do votado ao mencionar uvas de inverno, e por isso permitem apenas o vinagre, não as uvas em si; segundo a segunda leitura, mais ampla, os sábios sustentam que tanto no caso comestível — as tâmaras — quanto no caso não comestível — as uvas de inverno — o votado do fruto nunca fica proibido em seu produto derivado, e a regra vale de modo uniforme para ambos os casos, contra a distinção mais elaborada de Rabi Shimon ben Elazar.