O votado do leite está permitido no soro. E Rabi Yossi proíbe. Do soro, está permitido no leite. Aba Shaul diz: o votado do queijo fica proibido nele, seja salgado seja insosso. — A mishná registra uma relação de mão única, segundo os sábios: quem vota do leite continua livre para beber o soro que dele resulta, pois na linguagem corrente o soro já não é reconhecido como "leite" — mas Rabi Yossi discorda, sustentando que o soro carrega ainda vestígios reais de leite e por isso permanece dentro da proibição. Já a direção contrária é consensual: quem vota do soro específico continua livre para beber leite integral, pois o termo "soro" nunca inclui o leite em sua totalidade. Aba Shaul acrescenta uma terceira categoria, o queijo, que não segue a lógica de nenhum dos casos anteriores: quem vota do queijo fica proibido nele em qualquer de suas formas, salgado ou sem sal, pois — diferentemente do soro — a palavra "queijo" na boca do povo não aponta para um tipo específico e restrito, mas engloba naturalmente toda variedade do produto.
A hospitalidade de Avraham aos três visitantes, servindo manteiga e leite, é o primeiro momento em que a Torá nomeia os derivados do leite como alimentos distintos e valiosos por si mesmos.
Avraham serve aos visitantes "manteiga e leite" como dois itens distintos e nomeados separadamente, ainda que a manteiga derive do próprio leite — reconhecendo, já no texto da Torá, que um derivado do leite pode ganhar identidade e nome próprios, autônomos em relação à substância de que se origina. É esse mesmo princípio — de que um derivado pode se soltar do nome de sua origem — que fundamenta a posição dos sábios sobre o soro: assim como a manteiga de Avraham não é chamada simplesmente "leite" mas recebe nome próprio, o soro que escorre do leite coalhado também ganha, na linguagem corrente, identidade independente, liberando o votado do leite para consumi-lo. Rabi Yossi, ao discordar, sustenta que essa autonomia linguística tem limites: o soro, ao contrário da manteiga plenamente separada, ainda carrega leite residual visível e por isso não se desprende totalmente do nome original.
Sem citação direta correspondente na Mishné Torá, Rambam decide no Perush HaMishná a favor de Aba Shaul quanto ao queijo, encerrando a disputa com uma regra prática clara.
Rambam explica que "קוּם" é o nome técnico para a água que escorre do queijo em formação — chamada, no Ocidente islâmico onde Rambam escrevia, pelo termo local "meisa" — e confirma expressamente que a halachá segue Aba Shaul quanto ao queijo: o votado do queijo fica proibido em qualquer variedade dele, salgada ou insossa, pois o termo "queijo" não se restringe, na linguagem popular, a nenhuma forma específica. Rambam não decide explicitamente, nesta passagem, a favor dos sábios ou de Rabi Yossi quanto ao soro, deixando a controvérsia registrada tal como a mishná a apresenta.
Rashi, na Guemará (Nedarim 51b e 52b), explica a base da disputa sobre o soro como uma questão de variação regional de linguagem; Bartenura detalha o motivo da opinião de Aba Shaul sobre o queijo.
Rashi identifica o "קוּם" com o soro do leite — as águas que escorrem no processo de coalhamento do queijo — e explica que, na visão dos sábios, ele não pertence à categoria "leite" na linguagem corrente. A Guemará, ao confrontar essa posição com outras fontes que parecem contradizê-la, resolve a tensão com o princípio de que cada sábio fala segundo o costume de sua própria região: em certos lugares chamava-se "kum" a coisas que noutros lugares se chamavam de modo diferente, de forma que a disputa entre os sábios e Rabi Yossi reflete, em parte, uma diferença real de uso local e não apenas uma discordância conceitual abstrata.
Rambam decide, de forma sucinta mas explícita, que a halachá segue Aba Shaul quanto ao queijo — decisão relevante porque a posição de Aba Shaul não é a única citada e a mishná não indica, por si só, qual das opiniões prevalece. A brevidade da decisão de Rambam aqui contrasta com a extensão da controvérsia gerada na Guemará em torno do soro, sinal de que o caso do queijo era, para ele, jurisprudencialmente mais simples de resolver.
Bartenura explica por que Aba Shaul precisa esclarecer que o queijo fica proibido tanto salgado quanto insosso: sem essa precisão, poder-se-ia pensar que "queijo" na boca do votado se refere apenas ao tipo mais comum e costumeiro de se comer — o salgado, já que raramente se consome queijo totalmente sem sal —, deixando o insosso fora da proibição por analogia ao padrão de "pickle" e "salgado" vistos nas mishnayot anteriores. Aba Shaul rejeita essa analogia: para o queijo, ao contrário desses outros termos, o nome cobre o produto inteiro, em qualquer tempero, e Bartenura confirma que assim decide a halachá.