Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Vav · Mishná 5 de 10

Leite e soro: o disputado voto de Rabi Yossi

הַנּוֹדֵר מִן הֶחָלָב, מֻתָּר בַּקּוּם. וְרַבִּי יוֹסֵי אוֹסֵר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa aos laticínios, opondo leite e soro numa relação assimétrica contestada por Rabi Yossi, e fecha com a opinião de Aba Shaul sobre o queijo, que rompe a lógica de permissão dos derivados adotada até aqui.

O votado do leite está permitido no soro. E Rabi Yossi proíbe. Do soro, está permitido no leite. Aba Shaul diz: o votado do queijo fica proibido nele, seja salgado seja insosso.A mishná registra uma relação de mão única, segundo os sábios: quem vota do leite continua livre para beber o soro que dele resulta, pois na linguagem corrente o soro já não é reconhecido como "leite" — mas Rabi Yossi discorda, sustentando que o soro carrega ainda vestígios reais de leite e por isso permanece dentro da proibição. Já a direção contrária é consensual: quem vota do soro específico continua livre para beber leite integral, pois o termo "soro" nunca inclui o leite em sua totalidade. Aba Shaul acrescenta uma terceira categoria, o queijo, que não segue a lógica de nenhum dos casos anteriores: quem vota do queijo fica proibido nele em qualquer de suas formas, salgado ou sem sal, pois — diferentemente do soro — a palavra "queijo" na boca do povo não aponta para um tipo específico e restrito, mas engloba naturalmente toda variedade do produto.

הַנּוֹדֵר מִן הֶחָלָב, מֻתָּר בַּקּוּם. וְרַבִּי יוֹסֵי אוֹסֵר. מִן הַקּוּם, מֻתָּר בֶּחָלָב. אַבָּא שָׁאוּל אוֹמֵר, הַנּוֹדֵר מִן הַגְּבִינָה, אָסוּר בָּהּ בֵּין מְלוּחָה בֵּין טְפֵלָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A hospitalidade de Avraham aos três visitantes, servindo manteiga e leite, é o primeiro momento em que a Torá nomeia os derivados do leite como alimentos distintos e valiosos por si mesmos.

Bereshit (Gênesis) 18:8
וַיִּקַּח חֶמְאָה וְחָלָב וּבֶן הַבָּקָר אֲשֶׁר עָשָׂה, וַיִּתֵּן לִפְנֵיהֶם
E tomou manteiga e leite, e o novilho que preparara, e pôs diante deles.

Avraham serve aos visitantes "manteiga e leite" como dois itens distintos e nomeados separadamente, ainda que a manteiga derive do próprio leite — reconhecendo, já no texto da Torá, que um derivado do leite pode ganhar identidade e nome próprios, autônomos em relação à substância de que se origina. É esse mesmo princípio — de que um derivado pode se soltar do nome de sua origem — que fundamenta a posição dos sábios sobre o soro: assim como a manteiga de Avraham não é chamada simplesmente "leite" mas recebe nome próprio, o soro que escorre do leite coalhado também ganha, na linguagem corrente, identidade independente, liberando o votado do leite para consumi-lo. Rabi Yossi, ao discordar, sustenta que essa autonomia linguística tem limites: o soro, ao contrário da manteiga plenamente separada, ainda carrega leite residual visível e por isso não se desprende totalmente do nome original.

Halachot · הֲלָכוֹת

Sem citação direta correspondente na Mishné Torá, Rambam decide no Perush HaMishná a favor de Aba Shaul quanto ao queijo, encerrando a disputa com uma regra prática clara.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 6:5
קוּם נִקְרָא הַמַּיִם הַיּוֹצְאִין מִן הַגְּבִינָה, וּבַמַּעֲרָב אָנוּ קוֹרִין אוֹתָהּ מיס"א, וְהֲלָכָה כְּאַבָּא שָׁאוּל

Rambam explica que "קוּם" é o nome técnico para a água que escorre do queijo em formação — chamada, no Ocidente islâmico onde Rambam escrevia, pelo termo local "meisa" — e confirma expressamente que a halachá segue Aba Shaul quanto ao queijo: o votado do queijo fica proibido em qualquer variedade dele, salgada ou insossa, pois o termo "queijo" não se restringe, na linguagem popular, a nenhuma forma específica. Rambam não decide explicitamente, nesta passagem, a favor dos sábios ou de Rabi Yossi quanto ao soro, deixando a controvérsia registrada tal como a mishná a apresenta.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará (Nedarim 51b e 52b), explica a base da disputa sobre o soro como uma questão de variação regional de linguagem; Bartenura detalha o motivo da opinião de Aba Shaul sobre o queijo.

Rashi · רש"י
Nedarim 51b, 52b
מַתְנִי' מִן הַקּוּם — מִשּׁוּם גַּאֲוָה, הַיְנוּ נַסְיוֹבֵי דְחַלְבָּא, דְּקוּם אֵינוֹ בִּכְלַל חָלָב... לָא קַשְׁיָא: מָר כִּי אַתְרֵיהּ וּמָר כִּי אַתְרֵיהּ, בְּאַתְרָא דְרַבָּנַן קָרוּ לַחֲלָב

Rashi identifica o "קוּם" com o soro do leite — as águas que escorrem no processo de coalhamento do queijo — e explica que, na visão dos sábios, ele não pertence à categoria "leite" na linguagem corrente. A Guemará, ao confrontar essa posição com outras fontes que parecem contradizê-la, resolve a tensão com o princípio de que cada sábio fala segundo o costume de sua própria região: em certos lugares chamava-se "kum" a coisas que noutros lugares se chamavam de modo diferente, de forma que a disputa entre os sábios e Rabi Yossi reflete, em parte, uma diferença real de uso local e não apenas uma discordância conceitual abstrata.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 6:5
וְהֲלָכָה כְּאַבָּא שָׁאוּל

Rambam decide, de forma sucinta mas explícita, que a halachá segue Aba Shaul quanto ao queijo — decisão relevante porque a posição de Aba Shaul não é a única citada e a mishná não indica, por si só, qual das opiniões prevalece. A brevidade da decisão de Rambam aqui contrasta com a extensão da controvérsia gerada na Guemará em torno do soro, sinal de que o caso do queijo era, para ele, jurisprudencialmente mais simples de resolver.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 6:5
אַבָּא שָׁאוּל אוֹמֵר כוּ' בֵּין מְלוּחָה בֵּין טְפֵלָה. דְּלֹא תֵימָא הַגְּבִינָה הַמְיֻחֶדֶת שֶׁבַּגְּבִינָה מַשְׁמַע וְאֵין דֶּרֶךְ לְאָכְלָהּ בְּלֹא מֶלַח. וַהֲלָכָה כְּאַבָּא שָׁאוּל

Bartenura explica por que Aba Shaul precisa esclarecer que o queijo fica proibido tanto salgado quanto insosso: sem essa precisão, poder-se-ia pensar que "queijo" na boca do votado se refere apenas ao tipo mais comum e costumeiro de se comer — o salgado, já que raramente se consome queijo totalmente sem sal —, deixando o insosso fora da proibição por analogia ao padrão de "pickle" e "salgado" vistos nas mishnayot anteriores. Aba Shaul rejeita essa analogia: para o queijo, ao contrário desses outros termos, o nome cobre o produto inteiro, em qualquer tempero, e Bartenura confirma que assim decide a halachá.