Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Vav · Mishná 4 de 10

Peixe, peixes: a graduação do voto sobre o pescado

דָּג דָּגִים שֶׁאֵינִי טוֹעֵם, אָסוּר בָּהֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa ao pescado e estabelece três círculos concêntricos de proibição, do mais amplo — peixe e peixes juntos — ao mais estreito — o molho de peixe picado —, cada formulação capturando um conjunto diferente de derivados.

Peixe, peixes que eu não provo, fica proibido neles, sejam grandes sejam pequenos, sejam salgados sejam insossos, sejam vivos sejam cozidos, e permitido no molho de peixe picado e na salmoura. O votado da salga fica proibido no molho de peixe picado, e permitido na salmoura e no muriás. O votado do molho de peixe picado fica proibido na salmoura e no muriás.A mishná ensina que, ao repetir "peixe, peixes" — a forma singular seguida da plural —, o votado engloba absolutamente todo tipo de pescado, sem distinção de tamanho, tempero ou estado de preparo, mas ainda assim permanece livre para consumir o molho feito de peixe picado e triturado e a salmoura, pois esses subprodutos já perderam sua identidade de "peixe" na linguagem corrente e ganharam nome próprio. O votado que usa o termo mais específico "salga" — o peixe em conserva já deteriorado — inclui em sua proibição o molho de peixe picado, que dele deriva mais diretamente, mas ainda permanece livre na salmoura e no muriás, líquidos mais distantes; e quem vota justamente do molho de peixe picado — o termo mais estreito de todos — fica proibido apenas nos líquidos que dele decorrem, numa cadeia decrescente de especificidade que a mishná percorre passo a passo.

דָּג דָּגִים שֶׁאֵינִי טוֹעֵם, אָסוּר בָּהֶן, בֵּין גְּדוֹלִים בֵּין קְטַנִּים, בֵּין מְלוּחִין בֵּין טְפֵלִין, בֵּין חַיִּין בֵּין מְבֻשָּׁלִין, וּמֻתָּר בְּטָרִית טְרוּפָה וּבְצִיר. הַנּוֹדֵר מִן הַצַּחֲנָה, אָסוּר בְּטָרִית טְרוּפָה, וּמֻתָּר בְּצִיר וּבְמֻרְיָס. הַנּוֹדֵר מִטָּרִית טְרוּפָה, אָסוּר בְּצִיר וּבְמֻרְיָס:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A saudade do pescado abundante do Egito, expressa no deserto, é o momento em que a Torá nomeia o peixe como alimento cotidiano por excelência, base do vocabulário que a mishná agora refina em suas nuances técnicas.

Bamidbar (Números) 11:5
זָכַרְנוּ אֶת הַדָּגָה אֲשֶׁר נֹאכַל בְּמִצְרַיִם חִנָּם
Lembramo-nos do pescado que comíamos no Egito de graça.

O povo no deserto não distingue tipos de peixe ao recordar sua alimentação egípcia — usa o termo coletivo "דָּגָה", pescado em geral, que a própria Torá emprega como categoria ampla e indiferenciada, abrangendo qualquer espécie e qualquer preparo. É precisamente esse uso coletivo e indiscriminado do vocabulário do peixe que a mishná assume como ponto de partida ao explicar que "peixe, peixes" — a repetição do singular com o plural — produz o efeito mais amplo possível, cobrindo grandes e pequenos, salgados e insossos, vivos e cozidos, sem exceção. Mas a mesma Torá que emprega esse termo genérico e abrangente também reconhece, em outros contextos, produtos derivados do peixe com identidade própria — como o preparo dos peixes na travessia do deserto —, abrindo espaço para que a linguagem rabínica reconheça, como faz esta mishná, subprodutos do pescado — molho picado, salmoura, muriás — que já não carregam mais o nome "peixe" e por isso escapam ao voto mais amplo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Sem citação direta correspondente na Mishné Torá, Rambam explica no Perush HaMishná a regra gramatical de que a repetição do substantivo no singular seguido do plural indica totalidade absoluta.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 6:4
דַּע כִּי בִּלְשׁוֹנֵנוּ כְּשֶׁיִּתְחַבֵּר שֵׁם הָאֶחָד עִם הָרַבִּים הֲרֵי זֶה מוֹרֶה עַל הַכְּלָל וְעַל הַפְלָגָה בְּרִבּוּי, כְּגוֹן הֶבֶל הֲבָלִים שִׁיר הַשִּׁירִים

Rambam explica a regra gramatical por trás da frase "peixe, peixes": em hebraico, quando o mesmo substantivo se combina na forma singular seguida da plural, o efeito é indicar totalidade e superlativo, o mesmo padrão encontrado em expressões como "vaidade de vaidades" e "cântico dos cânticos" — construções que apontam para o grau máximo ou mais abrangente daquilo que designam. Assim, "peixe, peixes que eu não provo" inclui, segundo Rambam, absolutamente todos os tipos de peixe, qualquer que seja seu tamanho ou modo de preparo, sem exceção alguma.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará (Nedarim 51b), explica cada termo técnico do pescado e a lógica hierárquica dos três círculos de proibição; Bartenura detalha a distinção entre salga, molho picado, salmoura e muriás.

Rashi · רש"י
Nedarim 51b
מַתְנִי' דָּג דָּגִים שֶׁאֲנִי טוֹעֵם — דָּג מַשְׁמַע גָּדוֹל, דָּגִים מַשְׁמַע קְטַנִּים... וּמֻתָּר בְּטָרִית טְרוּפָה — דָּג שֶׁשְּׁמוֹ טָרִית וּמוֹכְרִין אוֹתוֹ בַּחֲתִיכוֹת שֶׁלֹּא נָדַר אֶלָּא מִדָּג הַנִּמְכָּר שָׁלֵם

Rashi explica que, na linguagem popular do Talmud, "דָּג" no singular já sugeria peixe grande, e "דָּגִים" no plural sugeria peixes pequenos — de modo que a combinação dos dois termos, ao ser votada junto, veda ambos os extremos de tamanho sem deixar brecha. O molho de peixe picado permanece permitido porque tem nome próprio e comercial — "טָרִית" — vendido em pedaços cortados, distinto do peixe inteiro que o votado tinha em mente ao formular o voto original com o nome simples "peixe". Rashi acrescenta que a salmoura e o muriás, feitos do líquido e da gordura que escorrem dos peixes salgados, permanecem permitidos ao votado de "peixe, peixes" porque, sem a substância real do peixe neles, já não carregam seu nome.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 6:4
וְטָרִית טְרוּפָה מִין מִן הַדָּגִים מְחֻתָּךְ לַחֲתִיכוֹת קְטַנּוֹת... וְצִיר רְצוֹנוֹ לוֹמַר הַמַּיִם הַיּוֹצְאִין מִן הַדָּגִים הַמְּלוּחִים, וּמֻרְיָס... פְּעָמִים נַעֲשֶׂה מִן הַדָּגִים

Rambam define cada termo com precisão: o molho de peixe picado é feito de um tipo de peixe cortado em pedaços pequenos; a salmoura é a água que escorre dos peixes salgados; o muriás — termo que Rambam identifica com a palavra árabe al-tumari — é às vezes feito também dos próprios peixes, num processo distinto. E "צַחֲנָה", a salga, designa o peixe em conserva já deteriorado e com cheiro forte, derivado da raiz que descreve o mau odor que sobe. Rambam mostra assim que os quatro termos formam uma escala clara, do peixe inteiro ao seu subproduto mais distante e diluído.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 6:4
וּמֻתָּר בְּצִיר וּבְמֻרְיָס. הוֹאִיל וְאֵין עִקַּר מַמָּשׁוּת הַדָּג מֻבְלָע בָּהֶם... הַנּוֹדֵר מִטָּרִית טְרוּפָה אָסוּר בְּצִיר וּבְמֻרְיָס. דְּכֵיוָן דְּהִזְכִּיר טְרוּפָה, מִכָּל דָּבָר שֶׁמְּעֹרָב בּוֹ מִין דָּג מַשְׁמַע

Bartenura explica o critério de fundo: a salmoura e o muriás permanecem permitidos ao votado geral porque não contêm a substância real do peixe, apenas seu resíduo líquido; mas quando o votado especifica "molho de peixe picado", ele já está falando de algo misturado — a própria palavra "trufá", triturado, sugere mistura —, e por isso sua proibição se estende a tudo que contenha qualquer traço de peixe misturado nele. Bartenura fecha assim a hierarquia da mishná: quanto mais específico e "misturado" o termo escolhido pelo votado, maior o círculo de derivados que ele arrasta consigo para dentro da proibição.