Eis que eu sou cherem sobre ti — o votado está proibido. Eis que tu és cherem sobre mim — o votante está proibido. Eis que eu sobre ti e tu sobre mim — ambos estão proibidos. E ambos estão permitidos em coisa dos que subiram da Babilônia, e proibidos em coisa da própria cidade. — A palavra cherem — consagração absoluta, a mesma usada para objetos irrevogavelmente dedicados — funciona aqui como mais uma das expressões que valem como voto, na linha dos kinuyim já estudados no Perek Alef. A mishná distingue com precisão a direção gramatical de cada fórmula: quando alguém diz "eu sou cherem sobre ti", é ele mesmo, o votante, quem se torna, por assim dizer, o objeto proibido — e por isso é o outro, o votado, quem fica impedido de ter proveito dele. Quando alguém diz "tu és cherem sobre mim", é o companheiro que se torna o objeto proibido, e por isso é o próprio votante quem fica proibido de ter proveito do outro. Quando as duas fórmulas se combinam — "eu sobre ti e tu sobre mim" —, ambos ficam mutuamente proibidos, como no caso dos sócios das mishnayot anteriores. A mishná então introduz uma distinção territorial importante: bens que pertencem a todos os que subiram de Babilônia para a Terra de Israel — patrimônio comum e amplo de todo o povo — continuam permitidos mesmo entre os dois votados, pois a porção individual de cada um neles é tão diluída que não configura proveito relevante; já bens específicos da própria cidade — de uso mais concentrado e direto — permanecem proibidos.
A palavra cherem, usada aqui como fórmula de voto entre pessoas, tem sua origem bíblica na consagração absoluta de bens ao Templo, que os torna irrevogavelmente indisponíveis para uso comum.
O cherem bíblico é a forma mais absoluta de consagração: um bem declarado cherem sai completamente do domínio de seu antigo dono, tornando-se propriedade sagrada, indisponível para venda ou resgate, "não se venderá, nem se resgatará". Quando a mishná aplica essa mesma palavra a uma pessoa — "eu sou cherem sobre ti" —, ela transfere para o âmbito interpessoal a mesma força de irrevogabilidade absoluta: quem é declarado cherem se torna, para efeitos do voto, tão inacessível ao proveito do outro quanto um objeto consagrado ao Templo é inacessível a qualquer uso comum. A precisão da mishná em determinar exatamente quem fica proibido conforme a direção gramatical da fórmula reflete essa mesma lógica: assim como o cherem bíblico recai sobre o objeto declarado, e não sobre quem o declara, aqui também é a pessoa apontada como "cherem" que se torna, na prática, o objeto vedado ao proveito do outro.
Rambam, no Perush HaMishná, explica com detalhe o mecanismo do "escrever a parte para o nasi", pelo qual os votados conseguem contornar a proibição sobre os bens comunitários da própria cidade.
Rambam explica o estratagema legítimo pelo qual os dois votados conseguem voltar a usar os bens comunitários da própria cidade, dos quais o voto de cherem os proibira: cada um deles escreve sua parte proporcional nesses bens comuns — a praça, o banho, a sinagoga — como doação ao nasi, o líder comunitário. A partir desse momento, o que cada votado usa desses locais deixa de ser a parte de seu companheiro e passa a ser a parte do nasi e a de outros membros da comunidade, de modo que nenhum dos dois volta a ter proveito do bem específico do outro — apenas do bem comum de terceiros, o que o voto nunca proibiu.
Rashi, na Guemará (Nedarim 47b), abre a discussão sobre o significado exato da fórmula "הריני עליך חרם"; Bartenura detalha o alcance de "dever de olei Bavel".
Rashi explica que "הריני עליך חרם" significa, na prática, "os meus bens sejam sobre ti como cherem" — uma forma abreviada de consagrar seus próprios pertences contra o proveito do outro. Por isso, é o votado — aquele contra quem os bens foram consagrados — quem fica proibido de deles usufruir; o próprio votante, que apenas consagrou o que já era seu, permanece livre para usar seus bens normalmente, pois não proibiu a si mesmo coisa alguma, apenas impediu que o outro tirasse proveito deles.
Rambam explica que "coisa dos que subiram da Babilônia" designa bens em que todo o povo de Israel tem uma parcela de propriedade, ainda que mínima — como um poço no meio do caminho de subida a Jerusalém, cuja construção foi financiada por doações de todo o povo. Como a parte individual de qualquer pessoa nesse tipo de bem é ínfima, o proveito que um votado obtém dela não é considerado um proveito real vindo do companheiro específico, e por isso permanece permitido mesmo sob o cherem. Já os bens da própria cidade pertencem apenas aos moradores locais, entre os quais a parte de cada um é proporcionalmente maior e mais direta — por isso permanecem proibidos, a menos que se aplique o estratagema de escrever a parte ao nasi.
Bartenura ilustra "coisa dos que subiram da Babilônia" com o exemplo de um poço construído no meio do caminho para os peregrinos que subiam da Babilônia à Terra de Israel nas festas de peregrinação: como todo o povo de Israel tinha direito igual e simultâneo sobre aquele poço, ele se equipara, para este fim, a algo praticamente hefker — sem dono específico o bastante para que seu uso configure proveito vindo de qualquer pessoa em particular, e por isso permanece permitido mesmo sob o voto de cherem entre os dois companheiros.