Estavam caminhando no caminho, e este não tem o que comer; dá ao outro como presente, e aquele está permitido nele. Se não há com eles outra pessoa, deixa sobre a pedra ou sobre a cerca e diz: eis que estão hefker para todo aquele que os desejar; e aquele toma e come. E Rabi Yossi proíbe. — A mishná final do capítulo trata de uma situação sem a solução do mercador ou dos trabalhadores da mishná anterior — dois viajantes sozinhos numa estrada, sem terceiros por perto. A primeira solução é simples: o votante dá diretamente ao votado, mas não como pagamento ou favor pessoal — como um presente puro e simples ("le-shum mataná"), que uma vez doado sai completamente da posse do doador e passa a pertencer ao recebedor sem vínculo algum com o voto original; por isso está permitido. Mas essa solução exige uma dádiva verdadeira e completa, algo que nem sempre é psicologicamente viável entre os dois. A segunda solução, para quando não há sequer uma terceira pessoa que possa testemunhar ou intermediar, é ainda mais indireta: o votante coloca a comida sobre uma pedra ou uma cerca — um lugar neutro, fora de sua posse direta — e declara publicamente que a torna hefker, sem dono algum, disponível a qualquer pessoa do mundo que a queira; o votado então a toma não do votante, mas do mundo, como qualquer transeunte tomaria um objeto abandonado. Rabi Yossi, porém, discorda dessa segunda solução: em sua opinião, quando não há absolutamente ninguém além do próprio votado capaz de vir a tomar posse daquele hefker, a declaração se assemelha demais, na prática, a uma doação direta e específica para aquela pessoa — e por isso permanece proibida, como se fosse presente disfarçado.
O conceito de hefker — tornar algo sem dono, acessível a qualquer pessoa — que fundamenta a segunda solução da mishná, tem sua raiz bíblica no próprio mandamento da shemitá, discutido também na quinta mishná deste capítulo.
O verbo "a abandonarás" (וּנְטַשְׁתָּהּ) é a fonte textual do próprio conceito de hefker — tornar algo disponível a qualquer pessoa, sem dono determinado — que a mishná aplica aqui, fora do contexto agrícola da shemitá, como mecanismo genérico para permitir que o votado obtenha comida sem recebê-la diretamente do votante. É precisamente sobre a mecânica exata desse abandono — se ele se completa no momento da declaração ou apenas quando alguém efetivamente toma posse do item — que gira o debate entre os sábios e Rabi Yossi: os sábios entendem que a declaração de hefker já produz efeito pleno e imediato, tornando irrelevante quem, de fato, venha a recolher o item; Rabi Yossi exige que exista, ao menos em potencial, um terceiro que poderia legitimamente vir a tomá-lo, sob pena de a declaração equivaler a uma doação direta disfarçada.
Rambam, no Perush HaMishná, decide a controvérsia entre Rabi Yossi e os sábios, e explica o raciocínio de Rabi Yossi sobre a semelhança entre esse hefker restrito e uma doação disfarçada.
Rambam explica sucintamente o raciocínio de Rabi Yossi: como não há uma terceira pessoa presente que poderia, em tese, vir a tomar posse daquilo que foi declarado hefker, o ato acaba sendo, na prática, indistinguível de uma doação direta e específica ao votado — e por isso, para ele, permanece proibido, exatamente como qualquer outro presente disfarçado seria. Rambam, porém, decide expressamente que a halachá não segue Rabi Yossi: prevalece a opinião dos sábios, segundo a qual a declaração de hefker é eficaz e completa por si mesma, independentemente de haver ou não outra pessoa capaz de recolher o item.
Rashi, na Guemará (Nedarim 43b-45a), desenvolve a base do debate sobre se o hefker vale desde a declaração ou apenas quando chega às mãos de quem o recolhe; Bartenura resume a posição final, contrária a Rabi Yossi.
Rashi situa o debate desta mishná dentro de uma discussão mais ampla da Guemará sobre a natureza do hefker: se ele se torna efetivo no exato momento da declaração — posição dos sábios, segundo a qual o hefker vale "le-altar", imediatamente — ou apenas quando algum item chega, de fato, à posse de outra pessoa — posição atribuída a Rabi Yossi. Rashi conecta o raciocínio de Rabi Yossi ao caso paralelo de "matenat Beit Choron" (uma doação condicional discutida noutro contexto), mostrando que o mesmo princípio de que "só se completa a doação quando alguém realmente a recebe" está por trás de sua objeção aqui: sem um terceiro presente, capaz de tomar posse do item, a declaração de hefker permanece incompleta e equivale, na prática, a uma doação direta ao único que ali está.
Rambam reafirma sua decisão final: a lei segue os sábios, e não Rabi Yossi — a declaração de hefker sobre a pedra ou a cerca é eficaz por si mesma, independentemente de haver outra pessoa presente. Com esse encerramento, Rambam fecha o Perek Dalet reafirmando o princípio geral que atravessou todo o capítulo: sempre que o votante evita colocar algo diretamente nas mãos do votado — seja por meio de um mandamento independente, de uma dívida quitada, de um intermediário pago, ou de uma declaração pública de hefker —, o voto permanece intacto e o votado não fica condenado à fome ou à ruína.
Bartenura confirma a decisão contra Rabi Yossi e acrescenta uma ressalva importante: os sábios permitiram esse mecanismo de hefker especificamente no caso de necessidade real — quando o votado não tem o que comer —, mas não o autorizaram como estratagema geral para contornar votos em qualquer outra circunstância. O mecanismo desta mishná final, portanto, não é uma brecha ampla no sistema dos votos, mas uma solução pontual e humanitária para uma situação concreta de fome no caminho, coerente com o espírito de todo o Perek Dalet, que buscou, do início ao fim, equilibrar o rigor da palavra do voto com a preservação da dignidade e da subsistência de quem está sob ele.