O costume dos sábios era, antes que sua filha saísse de junto dele, dizer-lhe: todos os votos que fizeste em minha casa, eis que estão anulados. E, semelhantemente, o marido, antes que ela entrasse em sua autoridade, dizia-lhe: todos os votos que fizeste antes que entrasses em minha autoridade, eis que estão anulados — porque, uma vez que ela entra em sua autoridade, ele não pode mais anular. — A mishná revela uma prática cautelar consagrada entre os estudiosos: sabendo que o poder de anular votos está estritamente limitado ao dia em que se toma conhecimento deles, e que, uma vez consumada a mudança de autoridade — a filha deixando a casa do pai para o casamento, ou entrando plenamente na autoridade do marido —, todo voto anterior que não tenha sido anulado a tempo se torna permanentemente inalcançável, os sábios adotaram o costume de fazer uma declaração ampla e antecipada, cobrindo todos os votos possíveis, mesmo os que não conheciam especificamente. Assim, o pai, no momento em que a filha estava prestes a deixar sua casa, declarava nulos todos os votos que ela tivesse feito enquanto morava com ele; e o noivo, no momento em que ela estava prestes a entrar plenamente em seu lar, fazia declaração equivalente, cobrindo o período do noivado. A razão dada pela própria mishná é decisiva: o marido perde definitivamente o poder de anular votos anteriores ao momento em que ela entra em sua autoridade plena — por isso, essa declaração precisa ser feita exatamente antes desse momento, nunca depois.
A Guemará debate se o marido pode anular sem sequer ter ouvido especificamente cada voto, apoiando-se na expressão bíblica "e ouvir seu marido" para discutir se essa "audição" é condição estrita ou se basta a declaração geral e antecipada que a mishná descreve.
O versículo condiciona a ratificação (e, por simetria, a anulação) do marido ao fato de ele "ouvir" o voto — o que sugere, à primeira vista, que ele precisaria conhecer especificamente cada voto para poder agir sobre ele. A Guemará debate se essa exigência de "ouvir" é estrita — de modo que uma declaração geral e antecipada, sem conhecimento específico de nenhum voto em particular, não teria efeito — ou se a palavra "ouvir" no versículo é lida de forma mais ampla, incluindo a situação em que o marido, sabendo que sua esposa fez ou fará votos indeterminados, declara-os todos anulados de antemão. A prática relatada pela mishná pressupõe esta segunda leitura, ainda que a Guemará explique sua verdadeira eficácia como um mecanismo mais sutil, detalhado pelos comentadores abaixo.
Rambam, no Perush HaMishná, esclarece o ponto central discutido na Guemará: a declaração antecipada do marido não é, tecnicamente, uma anulação "sem audição", mas uma anulação condicionada, que só se ativa quando ele de fato vier a ouvir sobre cada voto específico.
Rambam observa que esta mishná é a base para se concluir que o marido pode anular mesmo "sem audição" — isto é, sem ter ouvido o conteúdo específico de cada voto — porque a mishná mostra que ele declara nulos todos os votos anteriores em bloco, sem sequer saber quais foram feitos. Rambam remete à explicação mais detalhada dada pela própria Guemará sobre como esse mecanismo funciona tecnicamente: a declaração antecipada só toma efeito no momento em que ele de fato vem a saber de cada voto individual, funcionando como uma anulação previamente preparada, mas ativada apenas quando a condição de conhecimento se cumpre.
Rashi detalha o mecanismo técnico da anulação antecipada e por que ela só se ativa quando o marido vem a saber do voto; Rambam e Bartenura confirmam que esta mishná é a fonte central para a regra de que o marido pode anular "sem audição" prévia específica.
Rashi explica o mecanismo com precisão: quando o marido declara antecipadamente "todos os votos que fizeste, eis que estão anulados", isso não constitui uma anulação imediata e completa — pois ele ainda não sabe do que se trata. Em vez disso, a declaração funciona como uma anulação "programada", que só se torna efetiva no momento em que ele efetivamente vem a saber de um voto específico, contanto que isso aconteça enquanto ela ainda está sob sua autoridade. Rashi também nota a razão prática de a mishná mencionar esse costume: alertar o leitor de que, mesmo tendo feito a declaração geral, é sábio "investigar de novo" — voltar a perguntar sobre a filha ou esposa, para garantir que nenhum voto específico passe despercebido e acabe se tornando um obstáculo (mich'shol) não resolvido.
Rambam reafirma que esta mishná é a base textual para a regra de que o marido não precisa ter ouvido especificamente cada voto para poder anulá-lo — a declaração geral antecipada é suficiente, desde que, como explicado pela Guemará, ela se ative de fato apenas quando a informação sobre o voto específico chegar até ele, e enquanto a jovem ainda estiver sob sua autoridade.
Bartenura explica o motivo pelo qual essa declaração precisa vir exatamente antes da entrada na autoridade do marido: uma vez que ela "entra em sua autoridade" (o casamento pleno se consuma), ele não tem mais poder algum de anular votos anteriores a esse momento — "o marido não anula os precedentes" (bakodmin). O único momento em que ele ainda pode agir sobre esses votos anteriores é imediatamente antes dessa transição, e é exatamente por isso que a mishná descreve a prática dos sábios como algo feito "antes que ela entrasse em sua autoridade". Bartenura confirma que esta mishná é a fonte de que o marido pode anular sem audição específica prévia de cada voto individual.