Morreu o pai, não se esvazia a autoridade para o marido. Morreu o marido, esvazia-se a autoridade para o pai. Nisto, o poder do pai é maior do que o poder do marido. Em outra coisa, o poder do marido é maior do que o poder do pai, que o marido anula na maioridade dela, e o pai não anula na maioridade dela. — A mishná explica por que a morte de cada titular tem efeito diferente: o poder do marido sobre os votos da esposa nunca foi um poder independente enquanto ela era naará — ele sempre agiu em parceria com o pai, um poder "emprestado" pela situação de noivado. Por isso, quando o marido morre, não sobra poder dele para transferir a ninguém: o que resta é apenas o poder original do pai, que volta a agir sozinho, como fazia antes do noivado. Já o poder do pai é o poder primário, de base, que nunca dependeu do marido; por isso, quando o pai morre, não há poder paterno "residual" a passar ao marido — a parceria simplesmente se desfaz, e o marido, que nunca teve autoridade para anular sozinho, continua sem tê-la. A mishná fecha com uma comparação mais ampla dos dois poderes: em um ponto, o pai é mais forte (sua morte não cede lugar ao marido); em outro ponto, o marido é mais forte — pois o poder do marido de anular os votos da esposa continua vigente mesmo depois que ela atinge a maioridade plena (bagrut) e sai de todo controle paterno, ao passo que o poder do pai termina exatamente nesse momento.
O mesmo versículo que fixa o poder do pai sobre a filha o limita explicitamente à sua "juventude" — a fase da naará — sem mencionar limite equivalente para o marido, o que a Guemará lê como a base para a diferença entre os dois poderes na maioridade.
A Torá menciona o poder do marido sobre a esposa sem qualquer restrição de idade ou estágio de vida — "entre um homem e sua mulher" —, mas restringe explicitamente o poder do pai à fase "em sua juventude" (bi'ne'ureha). Dessa assimetria textual a Guemará deriva a regra da mishná: o poder do marido, uma vez que ela se torna sua esposa comprometida, persiste mesmo além da naarut, alcançando a bagrut; já o poder do pai está textualmente amarrado à fase da juventude, e por isso cessa no exato momento em que ela atinge a maioridade, independentemente do que aconteça com seu noivado ou casamento.
Rambam, no Perush HaMishná, remete à discussão em Ketubot sobre as fases da vida da mulher (ketaná, naará, bogueret), e explica por que o texto bíblico "em sua juventude, na casa de seu pai" limita estritamente o poder paterno.
Rambam explica que o poder do marido sobre a anulação dos votos da esposa, em situação normal, só começa depois da entrada plena no casamento (chupá). Mas, no caso especial em que o marido morre ainda durante o noivado e ela permanece naará na casa do pai, a autoridade plena volta a ficar nas mãos do pai, exatamente pela leitura do versículo "em sua juventude, na casa de seu pai" — um limite que, segundo Rambam, aplica-se apenas ao pai. O marido, uma vez estabelecido seu poder pelo casamento, o mantém "para sempre" — ou seja, mesmo além da naarut da esposa —, enquanto o pai só o exerce durante a janela da naarut.
Rashi explica na Guemará por que a parceria do marido é sempre secundária à do pai; Rambam e Bartenura detalham a base bíblica de cada um dos dois pontos da comparação final.
Rashi fixa o eixo da assimetria: o marido, durante o noivado, nunca teve poder de anular sozinho — sempre agiu em parceria com o pai. Por isso, quando ele morre, não há poder "próprio" dele que se transfira; simplesmente cessa a parceria, e o pai retoma sua autoridade plena e original. Sobre a comparação final da mishná, Rashi remete a Massechet Ketubot: quando chega o momento em que o noivo já deveria ter casado e não casou, ela passa a comer de seu sustento e mesmo de terumá em certos casos, porque se entende que toda mulher que faz votos o faz já contando com a vontade de seu futuro marido — e é essa mesma lógica de vínculo antecipado que permite ao marido anular seus votos até na maioridade. O pai, ao contrário, está limitado pelo próprio texto do versículo — "em sua juventude" — que exclui expressamente a bagrut.
Rambam remete o leitor ao final do terceiro perek de Ketubot, onde as fases etárias da mulher — ketaná (menor), naará (jovem) e bogueret (adulta) — são delimitadas com precisão em anos e meses, uma discussão que ele mesmo diz ter esgotado ali "sem deixar dúvida alguma". A regra desta mishná depende diretamente dessa cronologia: enquanto ela permanece dentro da janela da naarut, mesmo tendo perdido o noivo, o pai retoma o controle total sobre a anulação de seus votos.
Bartenura resume os dois lados da regra de forma direta: a morte do pai não beneficia o marido porque o poder de anular sozinho, sem parceria, só nasce com o casamento pleno — e o noivo, mesmo com o pai morto, ainda não está casado. Já a morte do marido devolve integralmente a autoridade ao pai, que a exerce "todos os dias de sua naarut" — ou seja, até o limite exato marcado pelo versículo, "em sua juventude, na casa de seu pai", sem um dia a mais.