Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Alef · Mishná 4 de 4

"Korban que comerei": a ordem das palavras que muda tudo

קוֹנָם פִּי הַמְדַבֵּר עִמָּךְ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Alef, a mishná trata de votos formulados com os próprios nomes dos sacrifícios (korban, olá, minchá etc.), da disputa sobre a ordem exata das palavras "korban" e "para korban", e do voto que recai sobre a boca, a mão e o pé de quem fala.

Quem diz: korban, olá, minchá, chatat, todá, shelamim, que eu não coma para ti — está proibido. Rabi Yehuda permite. O korban, como o korban, korban que comerei para ti — está proibido. Para korban, não comerei para ti — Rabi Meir proíbe. Quem diz a seu companheiro: konam seja minha boca que fala contigo, minha mão que trabalha contigo, meu pé que caminha contigo — está proibido.A mishná abre com quem nomeia diretamente um dos sacrifícios — korban (termo genérico), olá (holocausto), minchá (oferenda de farinha), chatat (oferenda pelo pecado), todá (oferenda de agradecimento) ou shelamim (oferenda pacífica) — seguido de "que eu não coma para ti": para o primeiro taná, isso proíbe, pois equivale a dizer que a comida do outro se torna, para ele, como aquele sacrifício. Rabi Yehuda discorda e permite, entendendo essa fórmula como um juramento pela vida do sacrifício, e não como um voto de fato. A segunda parte trata de uma sutileza de ordem das palavras: dizer "o korban", "como o korban" ou "korban que comerei para ti" (com o verbo "comer" no final) proíbe segundo todos; mas dizer "para korban, não comerei para ti" (invertendo a ordem, com a negação antes do verbo) gera disputa — Rabi Meir entende que mesmo essa ordem invertida ainda proíbe, lendo a frase como "para ser korban aquilo que eu não comer, por isso não comerei para ti". A mishná fecha com um caso diferente: quem consagra por voto (konam) sua própria boca, mão ou pé em relação ao outro — proibindo-se a si mesmo de falar, trabalhar ou caminhar com ele — também formulou um voto válido, apesar de o voto recair sobre uma parte do próprio corpo do falante, e não sobre um objeto externo.

הָאוֹמֵר, קָרְבָּן, עוֹלָה, מִנְחָה, חַטָּאת, תּוֹדָה, שְׁלָמִים שֶׁאֵינִי אוֹכֵל לָךְ, אָסוּר. רַבִּי יְהוּדָה מַתִּיר. הַקָּרְבָּן, כְּקָרְבָּן, קָרְבָּן שֶׁאֹכַל לָךְ, אָסוּר. לְקָרְבָּן לֹא אֹכַל לָךְ, רַבִּי מֵאִיר אוֹסֵר. הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ, קוֹנָם פִּי הַמְדַבֵּר עִמָּךְ, יָדִי עוֹשָׂה עִמָּךְ, רַגְלִי מְהַלֶּכֶת עִמָּךְ, אָסוּר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Assim como na mishná de abertura do perek, o voto sobre partes do próprio corpo — boca, mão e pé — encontra seu fundamento no princípio geral do voto que "sai da boca" de quem o profere.

Devarim (Deuteronômio) 23:24
מוֹצָא שְׂפָתֶיךָ תִּשְׁמֹר וְעָשִׂיתָ כַּאֲשֶׁר נָדַרְתָּ לַה' אֱלֹהֶיךָ נְדָבָה, אֲשֶׁר דִּבַּרְתָּ בְּפִיךָ
Aquilo que saiu de teus lábios, guardarás e farás, conforme votaste ao Eterno teu Deus, oferenda voluntária, que falaste com tua boca.

O versículo enfatiza duas vezes o órgão da fala — "o que saiu de teus lábios" e "que falaste com tua boca" — estabelecendo que a obrigação do voto nasce precisamente do ato de falar, seja qual for seu conteúdo. É esse mesmo princípio que permite à mishná validar o voto que recai sobre a própria boca do falante: já que é exatamente "o que sai da boca" que a Torá considera vinculante, faz sentido que a pessoa possa proibir, por meio de sua fala, o uso futuro dessa mesma boca — e, por extensão lógica, de sua mão e de seu pé — em relação ao outro.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Mishné Torá, confirma a lei quanto à ordem das palavras "korban" e explica por que o voto pode recair sobre a boca, a mão e o pé apesar da regra geral de que votos não incidem sobre algo "sem substância".

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Nedarim 1:19
וְכֵן אִם אָמַר הַקָרְבָּן שֶׁאֹכַל לְךָ קָרְבָּן שֶׁאֹכַל לְךָ כְּקָרְבָּן שֶׁאֹכַל לְךָ הֲרֵי זֶה אָסוּר. אֲבָל הָאוֹמֵר הַקָּרְבָּן לֹא אֹכַל לְךָ אוֹ כְּקָרְבָּן לֹא אֹכַל לְךָ אוֹ לְקָרְבָּן לֹא אֹכַל לְךָ... כָּל אֵלּוּ מֻתָּרִים, שֶׁאֵין מַשְׁמַע דְּבָרִים אֵלּוּ אֶלָּא שֶׁנִּשְׁבַּע בְּקָרְבָּן

Rambam confirma que a lei não segue Rabi Meir: quando a negação "não comerei" vem antes da palavra "korban" (como em "para korban, não comerei para ti"), a fórmula é lida como um juramento pela vida do sacrifício — que não tem validade nenhuma, pois não se jura "por" um sacrifício — e não como um voto de fato; a comida permanece permitida. Já quando "korban" vem imediatamente ligado ao ato de comer ("korban que comerei para ti"), todos concordam que o voto é pleno e válido. Sobre o voto que recai sobre a boca, a mão e o pé, Rambam explica no Perush HaMishná que, embora a regra geral seja que "votos não incidem sobre algo sem substância" (e a fala em si, ou o ato abstrato de trabalhar ou caminhar, não têm substância física), a boca, a mão e o pé são órgãos físicos reais — e por isso o voto formulado precisamente sobre eles ("konam seja minha boca") é válido, ao contrário de um voto formulado sobre o ato abstrato em si ("konam que eu não fale").

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam, no Perush HaMishná, explica por que a formulação exata "minha boca", e não "que eu não fale", é o que sustenta a validade do voto; Bartenura detalha a disputa sobre a ordem das palavras; Rashi, sobre a Guemará, discute a mesma sugia.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 1:4
וְאִם אָמַר קוֹנָם שֶׁאֵינִי מְדַבֵּר עִמָּךְ אוֹ שֶׁאֵינִי עוֹשֶׂה עִמָּךְ אוֹ שֶׁאֵינִי מְהַלֵּךְ עִמָּךְ אֵינוֹ אָסוּר עָלָיו זֶה... אֲבָל אִם אָמַר יֵאָסֵר פִּי לְדִבּוּרוֹ וְיָדִי לְמַעֲשֵׂהוּ וְרַגְלִי לַהֲלוֹכוֹ אָז יָחוּל עֲלֵיהֶן הַנֶּדֶר... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה וְלֹא כְּרַבִּי מֵאִיר

Rambam explica com clareza por que a mishná escolheu deliberadamente a formulação "minha boca que fala contigo" e não "que eu não falarei contigo": o voto recai sobre um objeto de "substância" (mamash) — o órgão físico — e não sobre a ação abstrata em si, que por si só não seria suficiente para um voto válido, pois a regra é que "votos não incidem senão sobre algo com substância". Rambam ilustra ainda o caso oposto: se a pessoa disser "sempre que eu falar contigo, que haja sobre mim um korban", isso tem validade como uma espécie de juramento condicional, ainda que não incida diretamente sobre um objeto físico — pois esse tipo de formulação, adverte Rambam, é "um dos lugares mais sujeitos a erro" e exige atenção redobrada para compreendê-lo corretamente. Rambam conclui que a lei não segue nem Rabi Yehuda (quanto à permissão dos nomes de sacrifício) nem Rabi Meir (quanto à ordem invertida de "korban").

Bartenura · רע"ב
Nedarim 1:4
קוֹנָם פִּי מְדַבֵּר עִמָּךְ. וְאַף עַל גַּב דְּאֵין נְדָרִים חָלִים עַל דָּבָר שֶׁאֵין בּוֹ מַמָּשׁ, וְדִבּוּר אֵין בּוֹ מַמָּשׁ, מִכָּל מָקוֹם כְּשֶׁאָמַר קוֹנָם פִּי מְדַבֵּר עִמָּךְ אָסַר הַפֶּה מִלְּדַבֵּר, וְהַפֶּה דָּבָר שֶׁיֵּשׁ בּוֹ מַמָּשׁ הוּא

Bartenura confirma a mesma lógica: embora votos não incidam sobre algo "sem substância" — e a fala, sendo um ato e não um objeto, não tem substância —, quando a pessoa diz "konam seja minha boca que fala contigo", ela não está proibindo diretamente o ato de falar, mas proibindo o órgão físico, a boca, de ser usado para falar com o outro; e a boca é, sem dúvida, algo com substância real. Bartenura explica ainda a lógica da mishná sobre "korban": a palavra "hakorban" foi necessária mesmo depois de já se saber que "korban" sozinho proíbe, pois sem ela poder-se-ia pensar que a pessoa está jurando "pela vida do sacrifício" — daí a necessidade de esclarecer que, com o artigo definido, a intenção de voto pleno fica inequívoca.

Rashi · רש"י
Nedarim 13a-14a
סְתָמָא תַּנָּא כְּרַבִּי מֵאִיר דְּלֹא שָׁנֵי לֵיהּ בֵּין אִמְּרָא לְאִמְּרָא כְּאִמְּרָא, דְּאָסַר הֵיכָא דְּאָמַר יְרוּשָׁלַיִם כְּמַאן דְּאָמַר כִּירוּשָׁלַיִם, וּלְהָכִי אָסוּר הֵיכָא דְּאָמַר קָרְבָּן כְּהֵיכָא דְּאָמַר כְּקָרְבָּן

Rashi liga esta mishná à discussão da Guemará sobre a mishná anterior (1:3), mostrando que a mesma lógica estrutural conecta ambas: assim como "Jerusalém" sem prefixo comparativo é tratado como equivalente a "como Jerusalém" pela opinião que não distingue entre as duas formulações, também "korban" sozinho é tratado como equivalente a "como korban" — ambos proíbem igualmente. A Guemará atribui essa leitura unificadora, segundo Rashi, à posição de Rabi Meir, que não vê diferença de substância entre a menção direta e a comparação. Rashi discute ainda por que a mishná precisou repetir "hakorban", "kekorban" e "korban" como três formulações separadas, cada uma reforçando que, apesar de pequenas variações de estilo, todas mantêm a força plena de proibição quando ligadas ao ato de comer.