Nazireu que tosquiou e depois lhe foi dado a saber que era impuro — se é impureza conhecida, anula; e se é impureza do abismo, não anula. — A mishná examina uma situação em que a certeza chega tarde demais: um nazireu completou normalmente seu voto, trouxe seus sacrifícios e realizou a tosquia final de pureza — e só depois disso descobre que, em algum momento durante os dias do nazireado, ele de fato havia entrado em contato com uma fonte de impureza sem saber. O efeito dessa descoberta tardia depende crucialmente do tipo de impureza envolvida: se se tratava de uma impureza que, em princípio, poderia ter sido percebida ou descoberta por alguém — mesmo que ele pessoalmente não a tenha notado no momento —, essa impureza anula retroativamente todos os dias já contados, exigindo recomeço completo do nazireado. Mas se se tratava da categoria especial chamada tumat hatehom, "impureza do abismo" — um cadáver ou fonte de impureza tão completamente oculta que absolutamente ninguém no mundo poderia tê-la conhecido —, essa impureza específica, por halachá recebida no Sinai, não anula os dias já cumpridos, mesmo tendo ocorrido de fato.
Se antes que tosquiasse — de um jeito ou de outro, anula. — A mishná esclarece que a leniência concedida à impureza do abismo é limitada a um momento processual muito específico: ela só se aplica quando a descoberta chega depois que o nazireu já completou a tosquia de pureza — ponto em que ele está numa posição jurídica consolidada de nazireu puro, que a halachá recebida protege da anulação retroativa por essa categoria peculiar de impureza. Mas se a descoberta chega antes da tosquia, enquanto ele ainda está formalmente em processo, não há proteção alguma: tanto a impureza conhecida quanto a do abismo produzem exatamente o mesmo efeito de anulação total dos dias já contados.
Como assim? Desceu para imergir numa caverna, e encontrou-se um morto flutuando na boca da caverna — impuro. Encontrou-se submerso no fundo da caverna — desceu para se refrescar, puro; para se purificar de impureza de morto, impuro, pois a presunção de impuro é impuro, e a presunção de puro é puro, porque há fundamento razoável para o caso. — A mishná ilustra com um exemplo vívido e concreto o funcionamento prático dessas categorias. Alguém desce a uma caverna cheia de água para se imergir, e ali se descobre um cadáver flutuando na abertura da caverna, exatamente no ponto por onde a pessoa entrou e saiu: essa impureza é considerada "conhecida", pois um corpo flutuando na superfície, no ponto de acesso, é algo que poderia razoavelmente ter sido notado — e portanto impurifica, anulando os dias se a descoberta vier depois. Mas se o cadáver é encontrado submerso no fundo da caverna, invisível a quem estava mergulhando na superfície, o resultado depende do propósito original da descida: se a pessoa desceu apenas para se refrescar da água — ou seja, não estava previamente numa condição de impureza, mas de presumível pureza —, permanece pura, pois esse é um caso clássico de tumat hatehom, impossível de ter sido percebida. Mas se ela desceu especificamente para se purificar de uma impureza de morto anterior — ou seja, já estava numa condição presumida de impureza antes de descer —, ela permanece impura mesmo depois do mergulho, pois a presunção anterior de impureza não se desfaz por um mergulho cuja eficácia purificadora é posta em dúvida pela mesma incerteza. A mishná resume o princípio com a expressão técnica "rachamayim la-davar" — há "pernas", isto é, fundamento razoável e um ponto de apoio factual — para tratar cada situação de acordo com sua presunção anterior, em vez de tratá-la como uma incerteza nova e desprovida de contexto.
A categoria da impureza do abismo, sem base textual explícita, é ela mesma uma halachá recebida no Sinai, aplicada dentro do quadro geral de anulação por impureza previsto na Torá.
Rambam observa que a categoria de tumat hatehom não tem base textual explícita na Torá — trata-se, como esclarece a própria Guemará, de uma halachá recebida no Sinai ("guemara guemirei lehu"), que estabelece uma exceção pontual dentro do princípio geral, previsto no versículo acima, de que a impureza contraída durante o nazireado anula os dias já cumpridos. Essa exceção protege especificamente o nazireu que já completou corretamente seu processo de purificação — a tosquia de pureza — de ser retroativamente prejudicado por uma impureza que, por definição, ninguém no mundo poderia ter descoberto a tempo.
Rambam, no Perush HaMishná, define tecnicamente a impureza do abismo e explica por que o caso da caverna ilustra perfeitamente o princípio da presunção (chazaká).
Rambam define a impureza do abismo como aquela oculta a tal ponto que absolutamente ninguém, em lugar nenhum, poderia ter tido conhecimento dela — e confirma que essa própria categoria é halachá recebida no Sinai, sem base dedutiva. Sobre a expressão final "rachamayim la-davar", Rambam explica que ela evita um problema lógico mais amplo: se cada situação nova fosse tratada como incerteza pura, sem levar em conta a presunção anterior, o raciocínio se estenderia indefinidamente sem chegar a conclusão alguma; por isso, o princípio correto é manter cada caso na presunção (chazaká) que já tinha antes de surgir a nova dúvida, até que surja prova clara o bastante para revertê-la.
Perush de Rashi sobre a Guemará, além de Rambam e Bartenura.
Rashi precisa que a tosquia mencionada na mishná é especificamente a tosquia de pureza, realizada no trigésimo primeiro dia do nazireado padrão — ou seja, a mishná trata do momento exato em que o processo já se completou formalmente, marco que determina se a impureza do abismo, quando descoberta depois, terá ou não efeito de anulação.
Rashi cita a discussão da Guemará que traz precisamente esta cláusula da mishná como prova textual num debate sobre os limites exatos da regra: o fato de a mishná dizer explicitamente "de um jeito ou de outro" — sem distinguir entre os dois tipos de impureza quando a descoberta ocorre antes da tosquia — confirma que, nesse estágio processual, não há distinção alguma entre impureza conhecida e impureza do abismo; ambas anulam igualmente.
Bartenura precisa os dois cenários da caverna: quem desceu para se imergir de uma impureza comum, não relacionada a um morto (como a impureza de um réptil), e encontrou o cadáver flutuando exatamente onde entrou, torna-se impuro por impureza de morto — categoria conhecida, pois estava num local visível. Já quem simplesmente desceu para se refrescar na água, sem qualquer impureza anterior de morto, permanece puro mesmo que exista um cadáver submerso no fundo, precisamente porque sua presunção anterior era de pureza plena, e nenhuma indicação visível deveria tê-lo alertado.