Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Vav · Mishná 11 de 11

Encerrando o Perek Vav: Miriam a Tarmodita e a impureza depois do primeiro sangue

מַעֲשֶׂה בְמִרְיָם הַתַּרְמוֹדִית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Vav, a mishná examina o caso de um nazireu que se impurifica depois que apenas um dos três sangues sacrificiais já havia sido aspergido, registrando a divergência entre Rabi Eliezer e os sábios sobre o alcance dessa impureza tardia.

Aquele sobre quem um dos sangues foi aspergido e se impurificou — Rabi Eliezer diz: anula tudo. E os sábios dizem: deve trazer os demais sacrifícios e se purificar.A mishná anterior já havia estabelecido, segundo Rabi Shimon, que a aspersão de um único sangue já libera o nazireu para beber vinho; mas o que ocorre se, exatamente nesse intervalo — depois de um sangue aspergido, mas antes da conclusão de todo o procedimento — o nazireu se impurifica por contato com um morto? Rabi Eliezer, consistente com sua posição de que as restrições só cessam depois de completado todo o procedimento, sustenta que essa impureza anula retroativamente tudo o que já foi feito, exigindo recomeço completo do nazireado. Os sábios discordam: para eles, uma vez que ao menos um sangue já foi aspergido, o essencial do procedimento já está em curso, e a impureza posterior apenas exige que o nazireu, depois de se purificar da nova impureza, traga os sacrifícios restantes que ainda faltavam — sem anular o que já havia sido validamente realizado.

מִי שֶׁנִּזְרַק עָלָיו אֶחָד מִן הַדָּמִים וְנִטְמָא, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, סוֹתֵר אֶת הַכֹּל. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, יָבִיא שְׁאָר קָרְבְּנוֹתָיו וְיִטְהָר.
A mishná encerra o Perek Vav relatando o caso histórico que decidiu essa disputa a favor dos sábios: Miriam a Tarmodita, cuja aspersão coincidiu com a notícia da morte de sua filha, tornando-se o precedente que os sábios invocaram para confirmar sua posição.

Disseram-lhe: houve um caso com Miriam a Tarmodita, sobre quem um dos sangues foi aspergido, e vieram e lhe disseram sobre sua filha, que estava em perigo de vida, e ela foi e a encontrou morta, e disseram os sábios: deve trazer os demais sacrifícios e se purificar.Para sustentar sua posição contra Rabi Eliezer, os sábios invocam um precedente histórico real: o caso de Miriam a Tarmodita, uma mulher nazireia de origem em Tarmod, sobre quem já havia sido aspergido um dos três sangues de seus sacrifícios finais, quando lhe chegou a notícia de que sua filha estava gravemente enferma. Ao correr para junto dela, encontrou-a já morta, e por esse contato contraiu impureza. Diante desse caso concreto, os sábios decidiram que ela deveria simplesmente se purificar da nova impureza e trazer os sacrifícios restantes que ainda faltavam, sem anular o que já havia sido validamente cumprido — precedente que a mishná registra ao encerrar o Perek Vav, o maior capítulo do tratado sobre as três proibições centrais do nazireado.

אָמְרוּ לוֹ, מַעֲשֶׂה בְמִרְיָם הַתַּרְמוֹדִית שֶׁנִּזְרַק עָלֶיהָ אֶחָד מִן הַדָּמִים, וּבָאוּ וְאָמְרוּ לָהּ עַל בִּתָּהּ שֶׁהָיְתָה מְסֻכֶּנֶת, וְהָלְכָה וּמְצָאתָהּ שֶׁמֵּתָה, וְאָמְרוּ חֲכָמִים, תָּבִיא שְׁאָר קָרְבְּנוֹתֶיהָ וְתִטְהָר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A base da divergência remonta à mesma expressão "depois" já discutida na mishná anterior, cuja extensão determina também os limites da anulação por impureza.

Bemidbar (Números) 6:12
וְהַיָּמִים הָרִאשֹׁנִים יִפְּלוּ כִּי טָמֵא נִזְרוֹ
E os dias anteriores cairão, pois seu nazireado se contaminou.

Rabi Eliezer, fiel à sua posição de que as restrições do nazireado só cessam depois de concluído todo o procedimento sacrificial, aplica o princípio da anulação total mesmo a uma impureza ocorrida no meio do procedimento, tratando-a como se tivesse ocorrido antes de qualquer sacrifício; os sábios, seguindo a posição de que a aspersão de um único sangue já basta para iniciar a liberação, limitam a anulação apenas aos sacrifícios ainda pendentes.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o raciocínio de Rabi Eliezer e confirma que a halachá segue os sábios, apoiada no precedente de Miriam a Tarmodita.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 6:11
כבר נקדם לך בפרק השלישי שר' אליעזר סובר שנזיר שנטמא אחר מלאת סותר ז' ימים ומה שאמר בכאן סותר את הכל אינו רוצה לומר מימי הנזירות ואמנם רוצה לומר בטול כל הקרבנות וסתירת כולם... ואין הלכה כרבי אליעזר

Rambam esclarece que, quando Rabi Eliezer diz que a impureza "anula tudo", ele não se refere aos dias já cumpridos do nazireado em si, mas especificamente à invalidação de todos os sacrifícios, exigindo que sejam trazidos novamente por completo. Rambam confirma que a halachá segue os sábios, apoiada expressamente no precedente histórico de Miriam a Tarmodita, cujo caso concreto os próprios sábios da mishná invocam como prova decisiva.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura, encerrando o Perek Vav.

Rashi · רש״י
Nazir 47a, s.v. מתני' במרים התרמודית
מַתְנִיתִין בְּמִרְיָם הַתַּרְמוֹדִית - מִתַּרְמוֹד שֵׁם מָקוֹם: שֶׁהִיא מְסֻכֶּנֶת וְהָלְכָה וּמְצָאתָהּ שֶׁמֵּתָה - וְנִטְמֵאת עָלֶיהָ, וְאָמְרוּ חֲכָמִים כוּ׳

Rashi esclarece que Tarmod é o nome de um lugar de origem de Miriam, e confirma a sequência dos eventos do caso: a notícia da doença grave da filha, a corrida ao seu encontro, a descoberta de que já havia morrido, e a impureza contraída por esse contato — precedente sobre o qual os sábios basearam sua decisão.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 6:11
וממה שצריך שתדעהו מאמר התוספתא נזיר שכלו ימיו אסור לגלח ולשתות יין וליטמא למתים ואם גלח ושתה ונטמא סופג את המ'

Rambam acrescenta, com base na Tosefta, um ponto relacionado: mesmo o nazireu cujos dias já se completaram continua proibido de tosquiar, beber vinho ou se impurificar até que efetivamente realize a tosquia de pureza; se o fizer antes disso, ainda é punido com açoites, pois as restrições de seu voto permanecem em vigor até a conclusão formal do procedimento — reforçando a lógica por trás de toda a disputa desta mishná sobre o momento exato da liberação.

Bartenura · רע״ב
Nazir 6:11
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר סוֹתֵר אֶת הַכֹּל. לֹא כָּל הַיָּמִים קָאָמַר, אֶלָּא סוֹתֵר כָּל הַקָּרְבָּנוֹת... מִרְיָם הַתַּרְמוֹדִית. מִתַּרְמוֹד הָיְתָה. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים

Bartenura confirma a leitura de Rambam sobre o alcance da expressão de Rabi Eliezer — refere-se à anulação dos sacrifícios, não dos dias do nazireado —, identifica Tarmod como o lugar de origem de Miriam, e conclui, encerrando o Perek Vav, que a halachá segue os sábios, cuja posição foi validada pelo precedente histórico registrado na própria mishná.