Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Vav · Mishná 10 de 11

Quando o sacrifício se revela impróprio: o que acontece com a tosquia já feita

גִּלַּח עַל הַזֶּבַח וְנִמְצָא פָסוּל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná examina três cenários em que a tosquia do nazireu ocorre sobre um sacrifício que, por algum motivo, se revela impróprio ou foi oferecido sem a designação correta — invalidando tanto a tosquia quanto os demais sacrifícios trazidos depois dela.

Tosquiou sobre o sacrifício e este se revelou impróprio, sua tosquia é inválida, e seus sacrifícios não lhe são contados. Tosquiou sobre a oferenda pelo pecado sem a designação correta, e depois trouxe seus sacrifícios com a designação correta, sua tosquia é inválida, e seus sacrifícios não lhe são contados. Tosquiou sobre a oferenda de ascensão ou sobre a de paz sem a designação correta, e depois trouxe seus sacrifícios com a designação correta, sua tosquia é inválida, e seus sacrifícios não lhe são contados.A validade da tosquia final do nazireado depende diretamente da validade do sacrifício sobre o qual ela ocorreu. Se, por exemplo, o sangue do animal foi derramado antes de aspergido, ou o animal saiu do pátio do Templo, ou foi contaminado, o sacrifício se torna impróprio, e a tosquia realizada sobre ele é retroativamente invalidada — como se o nazireu tivesse sido tosquiado por bandidos, anulando os dias já cumpridos. O mesmo ocorre se o sacrifício foi abatido com a intenção mental voltada para outro propósito que não o do próprio sacrifício do nazireu: mesmo que, depois, ele traga os demais sacrifícios corretamente designados, a tosquia já realizada permanece inválida, e nenhum dos sacrifícios lhe é contado como cumprimento da obrigação.

גִּלַּח עַל הַזֶּבַח וְנִמְצָא פָסוּל, תִּגְלַחְתּוֹ פְסוּלָה, וּזְבָחָיו לֹא עָלוּ לוֹ. גִּלַּח עַל הַחַטָּאת שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ וְאַחַר כָּךְ הֵבִיא קָרְבְּנוֹתָיו לִשְׁמָן, תִּגְלַחְתּוֹ פְסוּלָה, וּזְבָחָיו לֹא עָלוּ לוֹ. גִּלַּח עַל הָעוֹלָה אוֹ עַל הַשְּׁלָמִים שֶׁלֹּא לִשְׁמָן וְאַחַר כָּךְ הֵבִיא קָרְבְּנוֹתָיו לִשְׁמָן, תִּגְלַחְתּוֹ פְסוּלָה, וּזְבָחָיו לֹא עָלוּ לוֹ.
A mishná registra a divergência de Rabi Shimon sobre o alcance dessa invalidação, e conclui com a regra de que, se a tosquia ocorreu genuinamente sobre os três sacrifícios simultaneamente e ao menos um deles se revela válido, a tosquia permanece válida.

Rabi Shimon diz: apenas aquele sacrifício não lhe é contado, mas os demais sacrifícios lhe são contados. E se tosquiou sobre os três e um deles se revelou válido, sua tosquia é válida, e deve trazer os demais sacrifícios.Rabi Shimon discorda da regra geral de invalidação total, sustentando que apenas o sacrifício especificamente impróprio deixa de ser contado, mas os demais sacrifícios, trazidos posteriormente com a designação correta, ainda cumprem sua função — sem que a tosquia inteira seja invalidada por causa de um único sacrifício defeituoso. A mishná fecha com uma regra que vale mesmo segundo a opinião majoritária: se o nazireu tosquiou já tendo os três sacrifícios reunidos, sem que a tosquia dependesse de um deles em particular, e depois se descobre que ao menos um dos três era de fato válido, a tosquia inteira permanece válida, restando-lhe apenas trazer os demais sacrifícios que faltam.

רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אוֹתוֹ הַזֶּבַח לֹא עָלָה לוֹ, אֲבָל שְׁאָר זְבָחִים עָלוּ לוֹ. וְאִם גִּלַּח עַל שְׁלָשְׁתָּן וְנִמְצָא אֶחָד מֵהֶן כָּשֵׁר, תִּגְלַחְתּוֹ כְשֵׁרָה, וְיָבִיא שְׁאָר הַזְּבָחִים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A ligação entre a validade da tosquia e a validade do sacrifício sobre o qual ela ocorre deriva do próprio versículo, que apresenta a tosquia como parte integrante do procedimento sacrificial.

Bemidbar (Números) 6:18
וְגִלַּח הַנָּזִיר פֶּתַח אֹהֶל מוֹעֵד אֶת רֹאשׁ נִזְרוֹ... וְנָתַן עַל הָאֵשׁ אֲשֶׁר תַּחַת זֶבַח הַשְּׁלָמִים
E o nazireu tosquiará, à entrada da tenda do encontro, a cabeça de seu nazireado... e o colocará sobre o fogo que está sob o sacrifício de paz.

Ao vincular explicitamente a tosquia ao próprio ato sacrificial — tosquiando "sobre" um zévach específico, cujo fogo recebe o cabelo —, o texto bíblico estabelece uma dependência estrutural entre os dois atos, de modo que a invalidade do sacrifício necessariamente compromete a validade da tosquia realizada sobre ele. É essa dependência que a mishná explora nos diferentes cenários de sacrifícios impróprios ou mal designados.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o conceito de "shelo lishmah" — abate com intenção voltada para outro propósito — que invalida a tosquia.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 6:10
כבר בארנו בפסחים ואנו נשלים לפרש זה בתחילת זבחים שאחד מן הדברים המפסידין הקדשים הוא שיחשב בהם בשעת השחיטה הפך מה שהוא הזבח וזה הענין הוא שאומרין עליו שלא לשמן. ואין הלכה כר"ש

Rambam explica que um dos fatores que invalida sacrifícios consagrados é o abate realizado com a intenção mental voltada para um propósito diferente daquele que o sacrifício deveria cumprir — o que a Guemará chama de "shelo lishmá", sem a designação correta. Esse é precisamente o defeito descrito nos cenários da mishná: o sacrifício foi abatido pensando-se em outro propósito, invalidando-o e, por extensão, a tosquia realizada sobre ele. Rambam decide que a halachá não segue Rabi Shimon, mantendo a regra de invalidação mais abrangente.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Nazir 46b, s.v. מתני' גילח
מַתְנִיתִין גִּלַּח - עַל אֶחָד מִזְּבָחָיו וְנִמְצָא פָסוּל תִּגְלַחְתּוֹ פְּסוּלָה - וְסוֹתֵר שְׁלֹשִׁים, וּזְבָחָיו שֶׁהִפְרִישׁ עַכְשָׁו לֹא עָלוּ וְצָרִיךְ לְהָבִיא אֲחֵרִים

Rashi esclarece a consequência prática da tosquia inválida: como se o próprio corte de cabelo tivesse sido feito por bandidos, o nazireu precisa recomeçar a contagem de trinta dias, e os sacrifícios que já havia separado não servem — precisará separar novos animais para trazer ao final desse novo período.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 6:10
כבר נקדם לך מה שאמר אם גלח על אחת משלשתן יצא

Rambam remete à regra final da mishná anterior, já ensinada, de que tosquiar sobre qualquer uma das três oferendas basta para cumprir a obrigação — regra que explica por que, no último caso desta mishná, quando um dos três sacrifícios se revela válido, a tosquia inteira permanece válida.

Bartenura · רע״ב
Nazir 6:10
וְנִמְצָא פָסוּל. כְּגוֹן שֶׁנִּשְׁפַּךְ דָּמוֹ, אוֹ יָצָא אוֹ נִטְמָא... תִּגְלַחְתּוֹ פְסוּלָה. הוֹאִיל וְנִפְסַל הַזֶּבַח שֶׁגִּלַּח עָלָיו, הֲוָה לֵיהּ כְּגִלְּחוּהוּ לִסְטִים... תִּגְלַחְתּוֹ כְשֵׁרָה. לְדִבְרֵי הַכֹּל

Bartenura exemplifica os modos pelos quais um sacrifício se torna impróprio — o sangue foi derramado, o animal saiu do pátio, ou foi contaminado — e confirma que, nesses casos, a tosquia se equipara à tosquia forçada por bandidos, exigindo recomeço da contagem. E nota que a regra final da mishná — tosquia válida quando um dos três sacrifícios se revela correto — vale segundo todas as opiniões, inclusive a maioria que discorda de Rabi Shimon nos casos anteriores.