Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Vav · Mishná 1 de 11

Abrindo o Perek Vav: as três proibições do nazireado

שְׁלֹשָׁה מִינִין אֲסוּרִין בַּנָּזִיר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Vav, o maior tratado do capítulo sobre nazireado, a mishná enumera as três categorias fundamentais de proibição que recaem sobre o nazireu, estabelecendo que tudo o que deriva da videira se soma para compor a medida mínima que obriga.

Três tipos são proibidos ao nazireu: a impureza, o corte de cabelo, e o que sai da videira. E tudo o que sai da videira se soma um com o outro. E não fica obrigado até que coma das uvas o equivalente a uma azeitona. — O nazireu está sujeito a três proibições distintas e independentes entre si: não pode contrair impureza por contato com um morto, não pode cortar o cabelo, e não pode consumir nada que provenha da videira — uvas, vinho, vinagre de uva, passas, caroços ou películas. Quanto a esta última proibição, a mishná esclarece que, embora sejam substâncias diversas, todas elas se somam entre si para compor a medida mínima de uma azeitona que torna alguém culpado — de modo que, mesmo comendo pequenas quantidades de várias delas, sem que nenhuma isoladamente chegue à medida, a soma de todas pode obrigá-lo.

שְׁלֹשָׁה מִינִין אֲסוּרִין בַּנָּזִיר, הַטֻּמְאָה וְהַתִּגְלַחַת וְהַיּוֹצֵא מִן הַגָּפֶן. וְכָל הַיּוֹצֵא מִן הַגֶּפֶן מִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה. וְאֵינוֹ חַיָּב עַד שֶׁיֹּאכַל מִן הָעֲנָבִים כַּזָּיִת.
A mishná registra a opinião mais antiga sobre a medida de vinho — uma quantidade líquida maior, medida em revi'it — e a contrasta com a posição de Rabi Akiva, que aplica a mesma medida sólida de uma azeitona também à bebida, incluindo casos em que o vinho está absorvido em outro alimento.

A mishná primeira: até que beba um revi'it de vinho. Rabi Akiva diz: mesmo que tenha embebido seu pão em vinho, e haja nele o suficiente para somar uma azeitona, fica obrigado. — Segundo a tradição mais antiga, a medida que obriga para a bebida de vinho puro é diferente da medida para a comida sólida: um revi'it, uma medida de volume líquido maior que uma azeitona. Rabi Akiva discorda dessa distinção e sustenta que a mesma medida de uma azeitona, aplicada à comida, vale também para a bebida — de modo que, se alguém embebe seu pão em vinho e a quantidade de vinho absorvida no pão, somada ao próprio pão embebido, chega ao volume de uma azeitona, ele já está obrigado, mesmo sem ter bebido vinho puro algum. A halachá não segue Rabi Akiva.

מִשְׁנָה רִאשׁוֹנָה, עַד שֶׁיִּשְׁתֶּה רְבִיעִית יַיִן. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֲפִלּוּ שָׁרָה פִתּוֹ בְיַיִן וְיֶשׁ בָּהּ כְּדֵי לְצָרֵף כַּזַּיִת, חַיָּב:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O fundamento das três proibições está no próprio texto que institui o nazireado, que as menciona lado a lado.

Bemidbar (Números) 6:3-5
מִיַּיִן וְשֵׁכָר יַזִּיר... וְכָל יְמֵי נִזְרוֹ... תַּעַר לֹא יַעֲבֹר עַל רֹאשׁוֹ... כָּל יְמֵי הַזִּירוֹ לַה' עַל נֶפֶשׁ מֵת לֹא יָבֹא
De vinho e de bebida forte se abstenha... todos os dias do seu nazireado, navalha não passará sobre sua cabeça... todos os dias em que se consagra ao Eterno, não se aproximará de pessoa morta.

É o próprio versículo que reúne, em sequência, as três proibições do nazireado — vinho e o que deriva da videira, corte de cabelo, e impureza por contato com um morto — fundamento que a mishná explicita ao abrir o Perek Vav com a enumeração conjunta dessas três categorias, antes de detalhar cada uma delas ao longo de todo o capítulo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a medida da revi'it e o mecanismo da soma de diferentes substâncias da videira.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 6:1
כבר בארנו הרבה פעמים שהרביעית היא מדה שיעור אצבעיים על אצבעיים ברום אצבעיים וחצי אצבע וחומש אצבע... ושרה פתו הוא לשון עברי וכל משרת ענבים. וענין לצרף כזית שיהיה בלחם עם היין ששרה בו הפת כזית לפי שר' עקיבא סובר היתר מצטרף לאיסור. ואין הלכה כרבי עקיבא

Rambam explica que a revi'it é uma medida de volume — dois dedos por dois dedos de base, com altura de dois dedos e dois quintos —, medida pelos dedos polegares da mão. Quanto à expressão "embebeu seu pão", trata-se de linguagem hebraica corrente para o ato de embeber, aplicável a qualquer líquido absorvido pelo pão. O ponto central da opinião de Rabi Akiva, explica Rambam, é que ele soma o permitido — o próprio pão — ao proibido — o vinho nele absorvido — para completar a medida de uma azeitona; mas a halachá não segue essa posição.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura, abrindo o Perek Vav.

Rashi · רש״י
Nazir 34b, s.v. במשנה ראשונה
בְּמִשְׁנָה רִאשׁוֹנָה - הָיוּ שׁוֹנִין שֶׁאֵינוֹ חַיָּב עַד שֶׁיִּשְׁתֶּה רְבִיעִית יַיִן. בָּא רַ"ע וְאָמַר אֲפִ' שָׁרָה פִיתוֹ בְּיַיִן וְיֵשׁ יַיִן מוּבְלָע בְּתוֹךְ הַפַּת כְּדֵי זַיִת חַיָּב

Rashi explica sucintamente a diferença entre as duas posições: a mishná primeira ensinava que a obrigação por beber vinho só se aplica a partir de um revi'it; veio Rabi Akiva e acrescentou que mesmo quem embebeu seu pão em vinho — de modo que haja vinho absorvido dentro do pão equivalente a uma azeitona — já fica obrigado, ainda que nunca tenha bebido vinho na medida líquida completa de um revi'it.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 6:1
כבר בארנו הרבה פעמים שהרביעית היא מדה שיעור אצבעיים על אצבעיים

Como citado acima em Halachot, Rambam detalha a medida técnica da revi'it e esclarece que a posição de Rabi Akiva depende do princípio de que o permitido pode se somar ao proibido para completar uma medida — princípio que a halachá rejeita neste caso.

Bartenura · רע״ב
Nazir 6:1
שְׁלֹשָׁה מִינִין אֲסוּרִין בַּנָּזִיר. הַטֻּמְאָה, דִּכְתִיב עַל כָּל נַפְשׁוֹת מֵת לֹא יָבֹא... אֲפִלּוּ שָׁרָה פִתּוֹ בְיַיִן וְיֵשׁ בָּהּ כְּדֵי לְצָרֵף כַּזַּיִת חַיָּב. דִּסְבִירָא לֵיהּ לְרַבִּי עֲקִיבָא שִׁעוּר אִסּוּרֵי נָזִיר בֵּין בַּאֲכִילָה בֵּין בִּשְׁתִיָּה בְּכַזַּיִת, וְהֶתֵּר מִצְטָרֵף לְאִסּוּר לְהַשְׁלִים לִכְשִׁעוּר. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא

Bartenura vincula cada uma das três proibições ao seu versículo de origem — impureza, corte de cabelo, e o que deriva da videira —, e explica o raciocínio de Rabi Akiva: para ele, a medida das proibições do nazireu, tanto na comida quanto na bebida, é sempre uma azeitona, e o permitido pode se somar ao proibido para completar essa medida. Conclui, porém, que a halachá não segue Rabi Akiva, mantendo a distinção entre a medida líquida do revi'it e a medida sólida da azeitona.