Quem diz "sou nazireu daqui até tal lugar" — estima-se quantos dias há daqui até tal lugar; se menos de trinta dias, é nazireu por trinta dias; e se não, é nazireu pelo número de dias. — Diferentemente da linguagem exagerada de "daqui até o fim do mundo" (vista na mishná 1:3), aqui a pessoa menciona um lugar real e concreto, mensurável em dias de viagem. Por isso a mishná trata essa formulação como uma especificação legítima de duração, e não como mera hipérbole retórica: calcula-se quantos dias uma pessoa levaria para percorrer o trajeto até o lugar mencionado, e esse número determina a duração do voto — desde que não seja inferior ao piso mínimo de trinta dias, que nenhum voto de nazireado pode violar. Se a distância for tal que a viagem levaria, por exemplo, quarenta e cinco dias, o nazireado dura exatamente quarenta e cinco dias — nem mais, nem menos.
O piso de trinta dias, aplicável quando a viagem estimada for mais curta, continua derivando do mesmo princípio já visto — a guematria de "yihyê" (será) no versículo do nazireado, que soma trinta.
Este caso mostra como o piso mínimo de trinta dias funciona como um limite protetor, e não como uma medida fixa universal: quando a linguagem do voto especifica uma duração real e mensurável — mesmo que essa duração seja curta —, ela prevalece sobre o padrão apenas quando é mais longa que o piso. Se for mais curta, o piso mínimo do nazireado (derivado de "kadosh yihyê") se impõe, e o voto se estende automaticamente até completar os trinta dias, ainda que o trajeto mencionado pela pessoa levasse, por exemplo, apenas uma semana.
Como Rashi não comenta diretamente esta mishná no daf correspondente (o texto talmudico segue direto para a discussão da mishná seguinte sem uma glosa própria de peshat aqui), a halachá é apresentada com base no Perush HaMishná de Rambam, honestamente identificado como fonte principal.
Rambam acrescenta uma condição importante, ausente do texto simples da mishná: a estimativa de dias de viagem só é aplicada quando a pessoa está de fato habituada (muchzak) a percorrer aquele trajeto específico — ou seja, quando ela realmente tem em mente uma rota concreta e conhecida. Se ela não tem esse hábito ou conhecimento da rota, presume-se que ela não pretendia especificar uma distância real, mas apenas usar a expressão como sinônimo de "um voto grande" — e o nazireado dura apenas os trinta dias padrão, mesmo que o lugar mencionado esteja a um ano inteiro de viagem.
Rashi não traz uma glosa direta e independente sobre esta mishná no daf correspondente do Talmud Bavli — a sugiá segue direto da mishná anterior para a seguinte sem retomar seu texto com uma explicação própria. Por isso o perush aqui se apoia em Rambam e Bartenura, honestamente identificados.
Rambam liga esta mishná à anterior, explicando que, quando a pessoa não está habituada ao trajeto mencionado, aplica-se o mesmo raciocínio já visto no caso de "daqui até o fim do mundo": trata-se apenas de uma forma retórica de expressar intensidade, sem conteúdo numérico real, resultando no piso mínimo de trinta dias — independentemente de quão distante seja o lugar nomeado.
Bartenura confirma a condição de Rambam: a contagem pelos dias reais de viagem só se aplica quando a pessoa está habituada a percorrer aquele caminho — caso contrário, sua declaração é tratada exatamente como "daqui até o fim do mundo", resultando em nazireado de trinta dias, seja o lugar mencionado próximo ou distante por muitos anos de viagem, pois em ambos os casos a pessoa não tinha em mente senão a ideia de "um único voto grande".