Quem diz "sou nazireu das sementes", "das cascas", "do corte de cabelo" ou "da impureza" — eis que é nazireu, e todos os detalhes do nazireado recaem sobre ele. Quem diz "sou como Shimshon", "como o filho de Manoach", "como o marido de Delilá", "como aquele que arrancou os portões de Gaza", "como aquele a quem os filisteus vazaram os olhos" — eis que é nazireu à maneira de Shimshon. Qual a diferença entre o nazireu eterno e o nazireu à maneira de Shimshon? O nazireu eterno, se seu cabelo pesa, alivia-o com navalha, e traz três animais; e se se impurificou, traz a oferenda de impureza. O nazireu à maneira de Shimshon, se seu cabelo pesa, não o alivia; e se se impurificou, não traz a oferenda de impureza. — A primeira parte esclarece que mencionar apenas uma das quatro proibições do nazireado — abster-se de sementes de uva, de cascas de uva, de cortar o cabelo, ou de se impurificar por um morto — já constitui o voto completo, com todas as suas restrições, e não apenas a restrição mencionada. A segunda parte trata de quem invoca o nome de Shimshon ou alguma de suas características bíblicas (seu pai Manoach, sua mulher Delilá, o episódio dos portões de Gaza que ele arrancou, ou sua cegueira pelos filisteus) para se declarar nazireu: ele assume um nazireado peculiar, modelado sobre o próprio Shimshon, que era nazireu por decreto do anjo desde o ventre materno, e que segundo a tradição se impurificava por mortos sem que isso violasse seu nazireado. Esse nazireu não traz oferenda de purificação por impureza, porque ela nunca se aplicou a Shimshon; mas, ao contrário do nazireu eterno, também nunca alivia o peso do cabelo com a navalha durante o voto — permanece com o cabelo intacto até o fim de seus dias.
A base do nazireado de Shimshon está no anúncio do anjo à mãe de Manoach — Shimshon seria "nazireu de D'us desde o ventre", uma condição imposta sobre ele antes mesmo de seu nascimento, e não um voto assumido por sua própria boca.
O nazireado de Shimshon é único porque não nasce de um voto pessoal, mas de um decreto profético comunicado por um anjo à sua mãe antes de seu nascimento. Por isso a tradição oral (gemirí lah, "recebemos por tradição", como registra Rambam) trata seu regime como categoria própria, distinta tanto do nazireado comum quanto do nazireado eterno assumido voluntariamente: Shimshon guardava a abstinência de vinho e a proibição de cortar o cabelo, mas — segundo a tradição — podia se impurificar por contato com um morto sem que isso violasse seu voto, já que essa restrição específica nunca lhe fora imposta pelo anjo.
Rambam, no Perush HaMishná, explica que a permissão de Shimshon para se impurificar é uma tradição recebida, sem base num versículo explícito, e cita o precedente de Avshalom como nazireu eterno que apara o cabelo a cada doze meses.
Rambam explica que "nazireu à maneira de Shimshon" significa seguir o regime do próprio Shimshon, que não se abstinha de impureza — e que essa informação vem por tradição recebida (kabalá), não de um versículo explícito, já que o anjo apenas disse à mãe "nazireu de D'us será o menino". Sobre o nazireu eterno, Rambam traz a prova de Avshalom, cujo versículo (Shemuel II 14) diz que ele aparava o cabelo "de tempos em tempos, porque lhe pesava" — daí se aprende que o nazireu eterno apara o cabelo a cada doze meses, e não permanece com ele intocado como o nazireu de prazo fixo, sobre quem a Torá diz "navalha não passará sobre sua cabeça" até o fim do voto.
Rashi detalha os dois blocos da mishná no daf; Rambam esclarece a base tradicional do regime de Shimshon; Bartenura explica por que a redação da mishná lista "se impurificou" e não "impurifica-se de propósito".
Rashi confirma que mencionar apenas uma das restrições — sementes, cascas, corte de cabelo ou impureza — equivale a dizer "sou nazireu" sem qualificação, obrigando a pessoa a todos os detalhes do nazireado. Sobre a segunda parte, Rashi observa que basta invocar qualquer uma das características associadas a Shimshon — seu próprio nome, seu pai Manoach, sua mulher Delilá, o episódio dos portões de Gaza ou sua cegueira pelos filisteus — para constituir esse tipo especial de nazireado, que a pessoa deverá então seguir conduzindo-se segundo o regime específico de Shimshon.
Rambam faz uma precisão importante: embora a mishná diga "e se se impurificou" (linguagem que sugere um fato consumado, não uma permissão prévia), isso não significa que o nazireu à maneira de Shimshon só possa se impurificar depois do fato e sem culpa — na verdade, ele tem permissão de se impurificar deliberadamente desde o início, tal como o próprio Shimshon se impurificava por mortos sem restrição. A redação "se impurificou" é apenas um eco estilístico da frase anterior sobre o nazireu eterno, onde a mesma expressão aparece com sentido diferente (de fato consumado e não intencional).
Bartenura confirma a leitura de Rambam: mesmo à primeira vista (lechatchilá) é permitido ao nazireu de Shimshon se impurificar, pois Shimshon costumava se impurificar por mortos, e essa é uma tradição recebida (gemirí lah). A mishná usa a expressão "se impurificou" apenas porque a frase paralela sobre o nazireu eterno, dita primeiro, também usa essa formulação — e o estilo da mishná preferiu manter o paralelismo entre as duas frases, ainda que os sentidos sejam diferentes: fato consumado num caso, permissão plena no outro.