Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Alef · Mishná 1 de 7

Os kinuyim e as yadot: o que vale como voto de nazireado

כָּל כִּנּוּיֵי נְזִירוּת כִּנְזִירוּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o tratado, a mishná estabelece que o voto de nazireado pode ser assumido não só pela fórmula direta "sou nazireu", mas por duas categorias de expressões substitutas: os kinuyim — palavras deformadas de outros povos que soam como "nazir" — e as yadot, expressões alusivas em hebraico que, tomadas em contexto, indicam claramente a intenção de se tornar nazireu.

Todos os kinuyim (substitutos) do nazireado valem como o nazireado. Quem diz "serei", eis que é nazireu; ou "serei belo", é nazireu. "Naziq", "naziach", "paziach" — eis que é nazireu. "Eis que sou como este", "eis que aliso", "eis que deixo crescer", "assumo sobre mim soltar a cabeleira" — eis que é nazireu. "Assumo sobre mim aves" — Rabi Meir diz: é nazireu. E os sábios dizem: não é nazireu. — A mishná abre o tratado distinguindo dois mecanismos verbais que obrigam alguém ao nazireado sem usar a fórmula explícita "sou nazireu". O primeiro são os kinuyim: palavras como "naziq", "naziach" e "paziach", deformações de "nazir" na boca de povos estrangeiros que conviviam com Israel, cujo som ainda remete claramente ao termo original. O segundo são as yadot ("alças", no sentido de pegar um objeto pela sua alça em vez do próprio corpo): expressões que não mencionam o nazireado diretamente, mas o indicam por contexto — como alguém que vê um nazireu passar e diz "serei [como ele]", ou que segura seu próprio cabelo e diz "serei belo [assim]", assumindo implicitamente o crescimento do cabelo próprio do voto. O caso das aves fica em disputa: Rabi Meir entende que, como as duas aves oferecidas são justamente o sacrifício do nazireu que se impurificou, dizer "assumo sobre mim aves" já revela intenção de nazireado; os sábios discordam, e a pessoa apenas se obriga a trazer duas aves como oferenda voluntária, sem se tornar nazireu.

כָּל כִּנּוּיֵי נְזִירוּת כִּנְזִירוּת. הָאוֹמֵר אֱהֵא, הֲרֵי זֶה נָזִיר. אוֹ אֱהֵא נָוֶה, נָזִיר. נָזִיק, נָזִיחַ, פָּזִיחַ, הֲרֵי זֶה נָזִיר. הֲרֵינִי כָּזֶה, הֲרֵינִי מְסַלְסֵל, הֲרֵינִי מְכַלְכֵּל, הֲרֵי עָלַי לְשַׁלַּח פֶּרַע, הֲרֵי זֶה נָזִיר. הֲרֵי עָלַי צִפֳּרִים, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, נָזִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵינוֹ נָזִיר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A parashá do nazireado abre com a fórmula "quando um homem ou uma mulher se distinguir, votando o voto de nazireu, para se abster para o Eterno" — o próprio texto bíblico já reconhece que o voto pode ser expresso de formas variadas, desde que "se distinga" com clareza de intenção.

Bemidbar (Números) 6:2
אִישׁ אוֹ אִשָּׁה כִּי יַפְלִא לִנְדֹּר נֶדֶר נָזִיר לְהַזִּיר לַיהֹוָה
Um homem ou uma mulher, quando se distinguir para votar o voto de nazireu, para se abster para o Eterno.

O verbo "yafli" (se distinguir, fazer algo extraordinário) é a base textual que a tradição oral usa para admitir formas variadas de expressão do voto. A Torá não prescreve uma fórmula fixa e única para assumir o nazireado — ela fala apenas de alguém que "se distingue" ao votar esse voto específico. É essa abertura textual que permite à tradição reconhecer tanto os kinuyim (palavras de outros povos, foneticamente aparentadas a "nazir") quanto as yadot (expressões hebraicas alusivas, que "seguram" o voto pela sua alça, por assim dizer, sem pronunciar o termo técnico) como formas válidas de constituir o nazireado, desde que a intenção subjacente seja inequívoca.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica o mecanismo das yadot — como elas revelam a intenção mesmo sem usar o termo técnico "nazir" — e detalha a origem dos kinuyim como corruptelas da fala de estrangeiros que viviam entre o povo de Israel.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 1:1
ואלו הן ידות האומר אהא פי' אהיה והכוונה שהוא אומר אהיה נזיר... ואמנם משמיענו שאין אנו צריכין בנזירות עד שיהא פיו ולבו שוין אלא אחר שהוא בלבו אע"פ שאין פיו מורה על זאת הכוונה הוראה גמורה הרי הוא מחויב בנזירות

Rambam explica que "serei" é uma yad (alça) porque a pessoa, ao vê-la, entende que se refere a "serei nazireu" — e a mishná ensina algo notável: não se exige que a boca e o coração estejam plenamente alinhados na formulação verbal explícita; basta que a intenção esteja clara no coração, ainda que a boca não a expresse com prova cabal, para que a pessoa fique obrigada ao nazireado. Sobre os kinuyim, Rambam acrescenta que eram deformações da palavra "nazir" na boca de estrangeiros misturados a Israel, cuja fala corrompida se popularizou ao ponto de o próprio povo usá-la, dizendo "naziq", "naziach" e "paziach" em vez de "nazir".

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica a etimologia dos kinuyim e o mecanismo preciso das yadot; Rambam detalha os requisitos de intenção; Bartenura reconstrói a estrutura elíptica da mishná, que pressupõe uma frase implícita antes de listar os exemplos.

Rashi · רש"י
Nazir 2a
כל כינויי נזירות כנזירות - כל המקבל עליו נזירות באותו לשון שבדו להן חכמים הרי הוא נזיר... האומר אהא - אע"פ שלא הוציא בשפתיו נזיר. הרי זה נזיר - דידות נזירות כנזירות וכשם שאוחז אדם בבית יד של כלי ומגביה את הכלי עצמו כך זה

Rashi explica que os kinuyim são um vocabulário próprio que os sábios reconheceram como equivalente a "nazir", ainda que quem os pronuncie não tenha dito a palavra técnica com os próprios lábios. Sobre a expressão "serei", Rashi acrescenta a imagem que dá nome à categoria das yadot: assim como uma pessoa segura um utensílio pela sua alça (yad) e, ao erguer a alça, ergue o utensílio inteiro, também aqui quem diz "serei" — sem mencionar explicitamente o nazireado — "segura" o voto inteiro por essa expressão parcial, e o voto completo se ergue junto com ela.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 1:1
ומסלסל מחליק השיער ומשתעשע בו ביד ומכלכל גידול שיער... וצפרים הם שתי תורים או שני בני יונה והם מחויבים לקרבן נזיר שנטמא

Rambam explica os termos técnicos: "mesalsel" é alisar o cabelo brincando com ele na mão, e "mechalkel" é deixá-lo crescer — ambos termos ligados ao cuidado com a cabeleira que caracteriza o nazireado. Sobre a disputa das aves, Rambam esclarece o raciocínio de Rabi Meir: como as duas aves (tórtolas ou pombos) são precisamente a oferenda do nazireu que se impurificou, e um nazireu passava diante de quem fez a declaração, isso é prova suficiente de que a pessoa tinha em mente o nazireado. Rambam conclui que a lei segue os sábios — a pessoa não se torna nazireu, mas deve trazer as duas aves como oferenda voluntária.

Bartenura · רע"ב
Nazir 1:1
וּמַתְנִיתִין חֲסוּרֵי מִחַסְּרָא וְהָכִי קָתָנֵי, כָּל כִּנּוּיֵי נְזִירוּת כִּנְזִירוּת וְכָל יְדוֹת נְזִירוּת כִּנְזִירוּת, אֵלּוּ הֵן יְדוֹת נְזִירוּת... וְאֵלּוּ הֵן כִּנּוּיֵי נְזִירוּת, נָזִיק נָזִיחַ פָּזִיחַ

Bartenura observa que a mishná está formulada de modo elíptico: seu texto completo, subentendido, seria "todos os kinuyim do nazireado valem como o nazireado, e todas as yadot do nazireado valem como o nazireado — estas são as yadot: quem diz 'serei', 'serei belo'; e estes são os kinuyim: naziq, naziach, paziach." Bartenura também explica que "mesalsel" é alisar o cabelo e cita o paralelo talmúdico de Nidá 52b para "mechalkel" como crescimento capilar, e conclui que a lei segue os sábios quanto às aves — a pessoa não se torna nazireu, mas cumpre seu voto trazendo as duas aves.