Seder Tehorot · Massechet Mikvaot · Perek Alef · Mishná 1 de 8

Primeiro grau: as águas de poças e a impureza por bebida, por vaso e por pão de teruma

שֵׁשׁ מַעֲלוֹת בַּמִּקְוָאוֹת, זוֹ לְמַעְלָה מִזּוֹ, וְזוֹ לְמַעְלָה מִזּוֹ. מֵי גְבָאִים, שָׁתָה טָמֵא וְשָׁתָה טָהוֹר, טָמֵא. שָׁתָה טָמֵא וּמִלֵּא בִכְלִי טָהוֹר, טָמֵא. שָׁתָה טָמֵא וְנָפַל כִּכָּר שֶׁל תְּרוּמָה, אִם הֵדִיחַ, טָמֵא. וְאִם לֹא הֵדִיחַ, טָהוֹר:
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abertura de Massechet Mikvaot: os seis graus das mikvaot, e o primeiro deles — as águas de poças

Seis graus há nas mikvaot (banhos de imersão), este superior àquele, e este superior àquele. Águas de poças (mei guevaim): bebeu um impuro e depois bebeu um puro, este fica impuro. Bebeu um impuro e depois encheu com elas um utensílio puro, o utensílio fica impuro. Bebeu um impuro e caiu nelas um pão de teruma — se o lavou, fica impuro; e se não o lavou, permanece puro.

A mishná de abertura de Massechet Mikvaot enuncia, de saída, a estrutura de todo o capítulo: há seis graus de águas de imersão, dispostos em escala ascendente de validade, cada um superior ao anterior. O restante do perek percorrerá, um a um, esses seis graus — começando pelo mais simples e menos válido: as águas de poças (mei guevaim), águas paradas, não trazidas por mãos humanas, que se ajuntam numa cova ou depressão do terreno e que somam menos de quarenta seá — a medida mínima para uma mikvê válida.

Sendo pouca água parada, estas águas de poça comportam-se, quanto à impureza, de modo semelhante aos líquidos comuns guardados em um utensílio: contraem impureza pelo contato com uma pessoa ou objeto impuro, e, uma vez impuras, transmitem essa impureza adiante. A mishná apresenta três cenários sucessivos, todos começando com um impuro bebendo da poça: se, após ele, um puro também bebe, torna-se impuro — pois uma gota da boca do impuro contaminou a água no instante em que ele bebeu; se, em vez disso, alguém encheu um utensílio puro com aquela água, o utensílio se contamina, pois líquidos impuros contaminam utensílios pelo contato; e se um pão de teruma caiu na poça depois que o impuro bebeu dela, o resultado depende de um detalhe sutil — se alguém o lavou ali, a água que ficou aderida à sua mão foi “destacada” da poça e, por isso, tornou-se apta a receber e a transmitir impureza, contaminando o pão; mas se ninguém o lavou, a água da poça, enquanto permanece ligada ao solo, não está sujeita a receber impureza, e o pão permanece puro.

שֵׁשׁ מַעֲלוֹת בַּמִּקְוָאוֹת, זוֹ לְמַעְלָה מִזּוֹ, וְזוֹ לְמַעְלָה מִזּוֹ. מֵי גְבָאִים, שָׁתָה טָמֵא וְשָׁתָה טָהוֹר, טָמֵא. שָׁתָה טָמֵא וּמִלֵּא בִכְלִי טָהוֹר, טָמֵא. שָׁתָה טָמֵא וְנָפַל כִּכָּר שֶׁל תְּרוּמָה, אִם הֵדִיחַ, טָמֵא. וְאִם לֹא הֵדִיחַ, טָהוֹר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Mikvaot 1:1
אמר קבוץ המימות הם שש מדרגות כל קבוץ מהם יש לו מדרגה מן הטהר…

Disse (o autor): o ajuntamento das águas tem seis graus; cada ajuntamento deles tem um grau de pureza, e um é maior que o outro, que está abaixo dele. E começou mencionando o grau mais simples: que as águas estejam ajuntadas, tranquilas, quietas, e que não sejam trazidas (por mãos humanas) — e estas são as que se chamam águas de poças (mei guevaim); e nestas águas não há quarenta seá, mas menos que isso, mesmo que seja apenas uma seá. Eis que estas águas que estão nesta poça contraem impureza como contraem impureza os demais líquidos que estão em utensílios, e, depois de se tornarem impuras, contaminam como contaminam os líquidos impuros — exceto em uma coisa: que os líquidos impuros que estão em utensílios contaminam quer intencionalmente quer sem intenção, como se explicará; mas estas águas de poças não contaminam os alimentos senão intencionalmente — e nisto se diferenciam dos líquidos que estão em utensílios.

E por isso disse que, se bebeu desta poça um impuro e (depois) bebeu um puro, eis que o puro se tornou impuro ao beber líquidos impuros, pois estas águas se tornaram impuras pela mão do impuro no momento de sua bebida. E do mesmo modo, se tirou desta poça (água) com um utensílio puro, este se tornou impuro, como já sabes que os líquidos impuros contaminam os utensílios. E se caiu nestas águas um pão de teruma depois que as águas se tornaram impuras pela bebida do impuro, eis que ele não se torna impuro, por ter caído sem intenção. Mas se o lavaram nestas águas, sendo que sua imersão nelas foi intencional, eis que o pão se tornou impuro, pois tocou em líquidos impuros.

E na Tosefta (início do capítulo 1): por que disseram “e se não o lavou, é puro”? Porque as águas que estão na poça não estão sujeitas a receber impureza até que sejam destacadas (da poça). E por que disseram “se o lavou, é impuro”? Tornaram-se aptas as águas que estavam em sua mão, e o pão se tornou impuro — isto é, as águas que estavam em sua mão foram destacadas e voltaram a estar aptas para receber impureza, e ele (o pão) se torna impuro porque as águas já alcançaram certo grau de impureza, e por isso o pão se tornou impuro.

Bartenura · Mikvaot 1:1
שֵׁשׁ מַעֲלוֹת בַּמִּקְוָאוֹת. מְקוֹמוֹת שֶׁל כִּנּוּס מַיִם…

“Seis graus há nas mikvaot”: os lugares de ajuntamento de águas têm seis graus, cada um deles maior que o outro.

“Águas de poças (mei guévim)”: uma cova no solo, na qual se ajuntam águas que não são trazidas (por mãos humanas), e nelas há menos que quarenta seá, que é a medida da mikvê.

“Guévim”: expressão de “águas de poça (guevá)” (Yeshaiahu 30:14).

“Bebeu um impuro e bebeu um puro, (fica) impuro”: se bebeu daquelas águas primeiro um impuro, e depois bebeu delas o puro, o puro se contaminou — pois caiu uma gota da boca do impuro dentro da poça, e talvez o puro a tenha bebido e se contaminado, já que quem bebe líquidos impuros invalida a teruma. E isto é uma das dezoito coisas que decretaram naquele dia, como se encontra no primeiro capítulo de Shabat. E ainda que ele não invalide a teruma a não ser que beba um revi’it, de todo modo, quando a gota impura chega à sua boca, contamina todos os líquidos que estão em sua boca. E aquela gota não se anula por “maioria” na poça, pois se trata do caso em que não há nela quarenta seá, como se ensina no final da mishná. E pelo simples contato do impuro, as águas da poça não se contaminam até que sejam destacadas. E assim se encontra na Tosefta.

“Encheu com um utensílio puro”: das águas que estão na poça depois que o impuro bebeu delas — pois tememos por aquela gota, como explicamos, e o utensílio se contamina, pois os utensílios se contaminam pelo contato com líquidos impuros.

“Se o lavou”: o pão, fica impuro; e se não (o lavou), é puro — porque as águas de poças não estão sujeitas a receber impureza até que sejam destacadas; por isso, se não o lavou, é puro, e mesmo quando ele levantou o pão, não se consideraram as águas que estão nele como tendo recebido impureza da gota, pois a gota se anulou nas águas puras. Mas quando o lavou, consideraram-se e tornaram-se aptas as águas que estão em suas mãos para receber impureza da gota, e ela não se anulou nelas — ao contrário, contaminaram-se e contaminaram o pão.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Mikvaot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.