A segunda mishná contrasta duas categorias de oferendas: as que pertencem inteiramente ao altar (a oferenda de sacerdotes, a do sacerdote ungido, e as libações), onde “o poder do altar é maior que o dos sacerdotes”; e as que pertencem inteiramente aos sacerdotes (as duas fogaças e o pão da proposição), onde ocorre o inverso.
A oferenda de sacerdotes, a oferenda do sacerdote ungido, e a oferenda de libações pertencem ao altar, e não há delas para os sacerdotes; e nisto o poder do altar é maior que o poder dos sacerdotes. — A mishná contrasta dois pares de oferendas para ilustrar onde reside, em cada caso, a força maior: a oferenda trazida pelos próprios sacerdotes (seja a diária, seja a do sacerdote ungido) e a oferenda de libações que acompanha holocaustos e pazes são queimadas inteiramente no altar, sem que sobre porção alguma para consumo sacerdotal — ainda que, em outras oferendas vegetais, seja justamente o sacerdote quem come o resto. Por isso se diz que, aqui, “o poder do altar é maior que o poder dos sacerdotes”.
As duas fogaças e o pão da proposição pertencem aos sacerdotes, e não há deles para o altar; e nisto o poder dos sacerdotes é maior que o poder do altar. — No caso inverso, a mishná traz as duas fogaças de Shavuot e o pão da proposição colocado semanalmente sobre a mesa do Santuário: embora sejam oferendas sagradas, nenhuma parte delas sobe ao altar — são comidas inteiramente pelos sacerdotes. Por isso, aqui “o poder dos sacerdotes é maior que o poder do altar”. A mishná fecha, assim, com um par de categorias que espelha exatamente o par anterior, mostrando que a força relativa do altar e dos sacerdotes varia conforme a natureza de cada oferenda.
Rambam explica que a expressão “o poder do altar é maior” aponta para outro elemento também destinado ao altar: as libações, que descem pelos dois orifícios existentes no altar (os shitin), conforme descrito em Midot, e não são derramadas sobre o fogo para não se perderem sem que chegue ao altar parte alguma delas. Da mesma forma, “o poder dos sacerdotes é maior” aponta para as duas fogaças quando trazidas isoladamente, sem os cordeiros que as acompanham no dia de Shavuot: mesmo assim, elas são comidas e não queimadas, como já explicado no quarto capítulo deste tratado.
בָּזֶה יָפֶה כֹחַ הַמִּזְבֵּחַ. לֹא הֲוֵי צָרִיךְ לְמִתְנֵי, דְּהָא חָזִינַן דְּבָזֶה יָפֶה כֹּחַ הַמִּזְבֵּחַ וּמִלְּתָא דִפְשִׁיטָא הִיא. אֶלָּא לַאֲתוֹיֵי הַמִּתְנַדֵּב יַיִן לַמִּזְבֵּחַ בְּלֹא קָרְבָּן, דְּלֹא תֵימָא מְזַלְּפוֹ עַל הָאִשִּׁים עַל הָאֵשׁ וְהוּא נִשְׂרָף וְכָלֶה וְאֵין כֹּחַ מִזְבֵּחַ יָפֶה בָּזֶה, קָא מַשְׁמַע לָן דְּלֹא, אֶלָּא מְנַסְּכוֹ כִּשְׁאָר נְסָכִים וְיוֹרֵד לַשִּׁיתִין דְּהַיְנוּ כְּמִין שְׁנֵי נְקָבִים שֶׁהָיוּ בַּמִּזְבֵּחַ וְיוֹרְדִים לְמַטָּה עַד הַיְסוֹד, כְּדֵי שֶׁיִּהְיֶה כֹּחַ הַמִּזְבֵּחַ יָפֶה:
וּבָזֶה יָפֶה כֹחַ הַכֹּהֲנִים. לַאֲתוֹיֵי שְׁתֵּי הַלֶּחֶם שֶׁל עֲצֶרֶת אִם הֱבִיאוּם בִּפְנֵי עַצְמָן בְּלֹא כְּבָשִׂים, דְּלֹא תֵּימָא לִשְׂרֵפָה עוֹמְדוֹת וְלֹא לַאֲכִילָה כֵּיוָן שֶׁלֹּא קָרְבוּ כְּבָשִׂים שֶׁמַּתִּירִים אוֹתָם, קָמַשְׁמַע לָן דְּבָזֶה יָפֶה כֹּחַ כֹּהֲנִים לְעוֹלָם, דְּלַאֲכִילָה עוֹמְדוֹת וְלֹא לִשְׂרֵפָה:
Bartenura nota que a expressão “nisto o poder do altar é maior” não seria estritamente necessária, já que é evidente por si só — mas ela vem incluir o caso de quem doa vinho para o altar sem oferenda alguma, para que não se pense que, sendo apenas derramado sobre as brasas e ali consumido, o altar não teria "poder" pleno sobre ele. A mishná ensina que não é assim: o vinho é derramado como as demais libações e desce pelos dois orifícios do altar até a base, demonstrando que o poder do altar é, sim, pleno. Já a expressão sobre o poder dos sacerdotes vem incluir as duas fogaças de Shavuot quando trazidas isoladamente, sem os cordeiros: para que não se pense que, não tendo sido oferecidos os cordeiros que as tornam permitidas, elas ficariam destinadas à queima e não ao consumo, a mishná ensina que, mesmo assim, permanecem destinadas à alimentação dos sacerdotes.
Rashi explica a expressão “o poder do altar é maior” como referência ao caso de quem consagra vinho ao altar sem trazer junto nenhuma oferenda: seu punhado (no caso de haver oferenda) sobe ao altar e o resto vai aos sacerdotes, de modo que ambos os poderes — do altar e dos sacerdotes — são atendidos, e é justamente por isso que a mishná fala do poder do altar como “maior”, isto é, exclusivo, quando comparado ao azeite, cujo benefício é repartido entre os dois. Sobre a segunda cláusula, Rashi explica que ela exclui a opinião de quem sustenta que as duas fogaças trazidas isoladamente, sem os cordeiros, estariam destinadas à queima por não terem sido "liberadas" pelos cordeiros: a mishná ensina que, ao contrário, o poder dos sacerdotes prevalece para sempre, e mesmo essas fogaças permanecem destinadas ao consumo.