A quarta mishná do Perek Dalet trata da relação entre as oferendas contínuas (temidim) da manhã e da tarde e as oferendas adicionais (musafim) dos dias especiais, a possibilidade de compensar à tarde o cordeiro ou o incenso não sacrificados pela manhã — com a ressalva de Rabi Shimon sobre omissão intencional —, e fecha com a explicação de por que a inauguração de cada utensílio do Templo se dá com um serviço específico.
As oferendas contínuas não impedem as adicionais, nem as adicionais impedem as contínuas, nem as adicionais se impedem mutuamente. — A mishná abre com o princípio de independência entre a oferenda contínua diária (tamid) e as oferendas adicionais dos dias especiais (musaf): a falta de uma não impede o sacrifício da outra, e, quando há mais de uma oferenda adicional no mesmo dia, a falta de uma delas não impede as demais.
Se não sacrificaram o cordeiro pela manhã, que o sacrifiquem à tarde. — Se, por qualquer motivo, o cordeiro da oferenda contínua da manhã não foi sacrificado, a mishná permite compensar sacrificando o cordeiro da tarde, sem que a omissão da manhã impeça o serviço da tarde.
Disse Rabi Shimon: quando? Quando estavam impedidos por circunstâncias alheias à sua vontade, ou agiram por engano; mas se agiram intencionalmente e não sacrificaram o cordeiro pela manhã, não sacrifiquem à tarde. — Rabi Shimon restringe a regra anterior: a possibilidade de sacrificar o cordeiro da tarde para compensar a omissão da manhã só vale quando essa omissão decorreu de circunstâncias alheias à vontade dos sacerdotes ou de erro; se foi deliberada, não há compensação.
Se não queimaram o incenso pela manhã, que o queimem à tarde. — A mesma lógica de compensação se aplica ao incenso queimado diariamente no altar de ouro: sua omissão pela manhã pode ser compensada à tarde.
Disse Rabi Shimon: e todo o incenso era sacrificado à tarde, pois não se inaugura o altar de ouro senão com o incenso de especiarias, nem o altar do holocausto senão com a oferenda contínua da manhã, nem a mesa senão com o pão da proposição no Shabat, nem o candelabro senão com suas sete lâmpadas à tarde. — Rabi Shimon acrescenta que, no caso do incenso, a compensação da tarde não é de metade, mas da medida completa, e explica essa diferença apontando que cada utensílio sagrado do Templo só é formalmente inaugurado por um serviço específico e determinado: o altar de ouro pelo incenso da tarde, o altar externo pela oferenda contínua da manhã, a mesa pelo pão da proposição no Shabat, e o candelabro pelo acender de suas sete lâmpadas à tarde.
Rambam explica, com base na Guemará, que a mishná está incompleta em sua formulação e deve ser lida assim: se não sacrificaram o cordeiro da manhã, sacrifiquem o da tarde — quando o altar ainda não foi inaugurado; mas se o altar já foi inaugurado, sacrifiquem o da tarde de qualquer modo. Rabi Shimon distingue: isso vale quando a omissão foi involuntária ou por circunstâncias alheias à vontade dos sacerdotes; mas se foi intencional, os próprios sacerdotes responsáveis não voltam a sacrificar à tarde — embora outros sacerdotes possam fazê-lo. Já quanto ao incenso, ninguém o omite intencionalmente, pois os sacerdotes competiam para merecê-lo, como explicado no terceiro capítulo de Yoma sobre o sorteio. Sobre a “inauguração”, explica que o primeiro serviço realizado sobre cada utensílio do Templo — a oferenda da manhã sobre o altar externo, o pão de Shabat sobre a mesa, o acender das lâmpadas à tarde sobre o candelabro — é o que consagra seu uso, à semelhança de quem começa a se habituar a uma habilidade até que ela se torne fixa nele. A halachá não segue Rabi Shimon em nenhum dos dois pontos.
Bartenura explica que “as oferendas contínuas não impedem as adicionais” refere-se apenas à ordem de sacrifício — pode-se sacrificar primeiro qualquer uma das duas, ainda que o versículo sugira que a oferenda contínua deva ser sempre a primeira, o que é apenas preceito ideal, não impedimento. Detalha, seguindo a Guemará, que a mishná pressupõe uma distinção não explícita: se o altar ainda não foi inaugurado e não sacrificaram o cordeiro da manhã, não sacrificam o da tarde; mas se o altar já foi inaugurado, sacrificam o da tarde mesmo sem o da manhã. Rabi Shimon distingue circunstâncias alheias à vontade ou erro, quando outros sacerdotes ainda podem sacrificar à tarde, de omissão intencional, quando os próprios responsáveis não podem fazê-lo. Sobre o incenso, explica que raramente um único sacerdote o oferece mais de uma vez na vida, por ser tão cobiçado, de modo que não se pune a comunidade por sua omissão, presumivelmente involuntária. Por fim, explica que o altar de ouro só se inaugura com o incenso da tarde, e não da manhã, pois o versículo liga o incenso ao ato de limpar as lâmpadas do candelabro, que se faz à tarde; e, como o candelabro se inaugura à tarde, também o incenso se inaugura à tarde. A halachá não segue Rabi Shimon em nenhum dos dois pontos.
Rashi remete a explicação de “as oferendas contínuas não impedem as adicionais” à própria Guemará, que a desenvolve em detalhe. Sobre a afirmação de Rabi Shimon de que “todo o incenso era sacrificado à tarde”, explica que se trata da medida completa do incenso — não apenas metade — queimada de uma só vez, à tarde; e remete à Guemará tanto a origem da menção da inauguração quanto a prova de que ela se dá especificamente com o incenso da tarde.