Seder Kodashim · Massechet Menachot · Perek Yud-Guimel · Mishná 11 de 11 · Última mishná do tratado

Última mishná do tratado: “tanto faz quem traz muito quanto quem traz pouco” — a oferenda do coração

אֶחָד הַמַּרְבֶּה וְאֶחָד הַמַּמְעִיט, וּבִלְבַד שֶׁיְּכַוֵּן אֶת דַּעְתּוֹ לַשָּׁמָיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná de Massechet Menachot extrai, da repetição da mesma expressão nas três categorias de oferenda — a de animal, a de ave, e a de farinha, esta última a menos custosa e mais acessível ao pobre —, um dos ensinamentos mais citados de toda a literatura rabínica: perante D’us, o valor de uma oferenda não está em sua grandeza material, mas na intenção sincera de quem a traz.

A mesma expressão repetida três vezes, do animal à farinha do pobre

Foi dito, a respeito da oferenda de elevação de animal: “oferenda de fogo, aroma agradável” (Levítico 1:9); e a respeito da oferenda de elevação de ave: “oferenda de fogo, aroma agradável” (ibid. 1:17); e a respeito da oferenda de farinha: “oferenda de fogo, aroma agradável” (ibid. 2:2) — para ensinar que tanto faz quem traz muito quanto quem traz pouco, contanto que a pessoa dirija seu coração aos Céus. — A Torá poderia ter usado a expressão “aroma agradável ao Eterno” apenas uma vez, remetendo as demais oferendas a ela; ao repeti-la exatamente nas três categorias — a oferenda de animal, cara e reservada a quem tem posses; a de ave, mais modesta; e a de farinha, a mais barata de todas, a única oferenda de elevação que o pobre pode trazer sozinho, sem depender de gado ou aves —, o texto iguala explicitamente o valor perante D’us de cada uma delas. Não é o tamanho ou o custo do sacrifício que determina sua aceitação, mas a sinceridade da intenção de quem o traz: o rico que oferece um touro e o pobre que oferece um punhado de farinha são, perante o Céu, igualmente aceitos, desde que ambos dirijam o coração para o mesmo lugar.

נֶאֱמַר בְּעוֹלַת הַבְּהֵמָה אִשֵּׁה רֵיחַ נִיחֹחַ (ויקרא א), וּבְעוֹלַת הָעוֹף אִשֵּׁה רֵיחַ נִיחֹחַ (שם), וּבַמִּנְחָה אִשֵּׁה רֵיחַ נִיחֹחַ (שם ב), לְלַמֵּד, שֶׁאֶחָד הַמַּרְבֶּה וְאֶחָד הַמַּמְעִיט, וּבִלְבַד שֶׁיְּכַוֵּן אָדָם אֶת דַּעְתּוֹ לַשָּׁמָיִם:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Levítico 1:9 — oferenda de elevação de animal
וְהִקְטִיר הַכֹּהֵן אֶת הַכֹּל הַמִּזְבֵּחָה עֹלָה אִשֵּׁה רֵיחַ נִיחוֹחַ לַה'.
“E o sacerdote queimará tudo no altar: é oferenda de elevação, oferenda de fogo, aroma agradável ao Eterno.”
Levítico 1:17 — oferenda de elevação de ave
וְהִקְטִיר אֹתוֹ הַכֹּהֵן הַמִּזְבֵּחָה עַל הָעֵצִים אֲשֶׁר עַל הָאֵשׁ עֹלָה הוּא אִשֵּׁה רֵיחַ נִיחֹחַ לַה'.
“E o sacerdote a queimará no altar, sobre a lenha que está sobre o fogo: é oferenda de elevação, oferenda de fogo, aroma agradável ao Eterno.”
Levítico 2:2 — oferenda de farinha
וְהִקְטִיר הַכֹּהֵן אֶת אַזְכָּרָתָהּ הַמִּזְבֵּחָה אִשֵּׁה רֵיחַ נִיחֹחַ לַה'.
“E o sacerdote queimará sua porção memorial no altar: oferenda de fogo, aroma agradável ao Eterno.”
Nota: A tríplice repetição exata da mesma expressão — “oferenda de fogo, aroma agradável ao Eterno” — nas três categorias de oferenda é a base textual de toda a mishná: o pobre que traz apenas farinha recebe, perante D’us, a mesma expressão de aceitação que o rico que traz um touro.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Menachot 13:11
נאמר בעולת הבהמה אשה ריח ניחוח ובעולת כו': אמרו גם כן זאת התורה לעולה ולמנחה וגו' כל העוסק בתורה כאילו הקריב עולה ומנחה וחטאת ואמרו תלמידי חכמים העוסקים בהלכות עבודה מעלה עליהן הכתוב כאילו נבנה בית המקדש בימיהם ועל כן ראוי לאדם להתעסק בדברי הקרבנות ולשאת ולתת בהן ולא יאמר הרי הן דברים שאין צורך להן בזמן הזה כמו שאומרים רוב בני האדם: סליק פירוש המשניות להרמב"ם ז"ל ממסכת מנחות

Rambam explica: também disseram: “esta é a lei da oferenda de elevação e da oferenda de farinha” etc. — todo aquele que se ocupa da Torá é como se tivesse oferecido uma oferenda de elevação, uma oferenda de farinha e uma oferenda de pecado. E disseram: os sábios que se ocupam das leis do serviço, a Escritura considera como se o Templo tivesse sido reconstruído em seus dias. Por isso convém ao homem ocupar-se com os assuntos dos sacrifícios, e debater e discutir sobre eles, e não dizer “eis que são coisas desnecessárias nesta época”, como diz a maioria das pessoas. — Aqui termina o Perush HaMishná do Rambam, de abençoada memória, sobre o tratado Menachot.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Menachot 110a:15–16, sobre a Guemará desta mishná
שנת העובד - עבודת קרבנות ומביאו למזבח מתוקה שנתו שהוא ישן ולא ירא: אם מעט ואם הרבה יאכל - מתן שכרו: ברבות הטובה - קרבנות: רבו אוכליה - כהנים: ומה כשרון לבעליו - להקדוש ברוך הוא כי אם ראות עיניו שזה מתכוין לטובה:

Rashi explica, sobre a Guemará: “o sono do que serve” — aquele que serve com sacrifícios e os traz ao altar, seu sono é doce, pois dorme sem temor; “quer coma pouco quer coma muito” refere-se à recompensa que recebe. “Quando se multiplica o bem” — os sacrifícios; “multiplicam-se os que o comem” — os sacerdotes; “e que proveito tem o seu dono” — o Santo, bendito seja, senão ver com seus olhos que esta pessoa tem boa intenção.

Rashi רש״י
Menachot 110a:20–21, sobre o parágrafo final da Guemará
כדי שתאמר אעשה רצונו... לא לרצוני אתם זובחים... לרצונכם - לצורך עצמכם לקיים מצוותי שתהא כפרה לכם בכך: לרצונכם זבוחו - שתהא כוונתכם לשחוט פרט למתעסק בסכין לחתוך דבר אחר ושחט בהמת קדשים שפסולה:

Rashi explica, sobre a continuação da Guemará: “para que digas: farei sua vontade” — trazendo-lhe um sacrifício, como se D’us precisasse disso; “não é para o meu prazer que sacrificais” — isto é, não é para me agradar, pois não desejo obrigar-vos a fazer contra a vontade; “para vosso próprio bem” — para vosso próprio proveito, para cumprir meus mandamentos, para que isso vos sirva de expiação. “Sacrificai-o para vosso próprio bem” — que vossa intenção seja a de abater, excluindo aquele que, distraído com a faca para cortar outra coisa, acaba abatendo um animal sagrado, o que é inválido.

Encerramento do tratado · סִיּוּם הַמַּסֶּכֶת

הֲדַרַן עֲלָךְ הֲרֵי עָלַי עִשָּׂרוֹן, וּסְלִיקָא לַהּ מַסֶּכֶת מְנָחוֹת

Com esta última mishná do Perek Yud-Guimel, encerra-se Massechet Menachot por inteiro — noventa e três mishnayot em treze perakim, dedicadas às oferendas de farinha (menachot) e a tudo que as acompanha: sua composição, retirada do punhado, queima, consumo pelos sacerdotes, e as regras dos votos que as trazem ao Templo. A fórmula tradicional de encerramento acima — “hadran alach” (“voltaremos a você”), seguida de “ussliká lah massechet Menachot” (“concluiu-se Massechet Menachot”) — é a que fecha o próprio texto da Guemará ao final do tratado; o Rambam, por sua vez, encerra seu Perush HaMishná sobre este tratado com as palavras “salik perush hamishnayot leHaRambam zal mimassechet Menachot” — “aqui termina o comentário às mishnayot do Rambam, de abençoada memória, sobre o tratado Menachot”.

O tratado abriu com o princípio de que toda oferenda de farinha preparada com pensamento inadequado quanto ao seu tipo ainda é válida, mas desqualificada, exceto a oferenda do pecador e a do sacerdote ungido, sempre invalidadas por pensamento impróprio (Perek Alef); tratou dos atos indispensáveis na preparação da oferenda — a retirada do azeite, a mistura, a untura — e de quando a falta de um deles ainda permite retificação (Perek Bet); examinou os quatro serviços da oferenda de farinha e quando um pensamento desqualificante os invalida (Perek Guimel); percorreu, uma a uma, as oferendas de farinha específicas prescritas na Torá — do ómer ao pão de shtei halechem, da minchat chotê à minchat sotá (Perakim Dalet–Hei); dedicou-se à minchat kohanim e à minchat kohen mashiach, trazidas inteiramente ao fogo do altar, sem porção para os sacerdotes (Perek Vav); tratou da mistura de tipos de oferenda e da regra de que o voto segue a intenção de quem o pronuncia (Perek Zayin); expandiu esse princípio às diferentes composições de farinha, óleo e vinho conforme o animal acompanhado (Perek Chet); percorreu a proveniência geográfica e agrícola dos ingredientes das oferendas — farinha, óleo, vinho, sal e lenha (Perek Tet); tratou do ómer da colheita nova e do pão das primícias em Shavuot, com a controvérsia sobre a permissão do grão novo (Perek Yud); voltou-se aos dois pães de Shavuot e ao pão da proposição, e às leis do punhado retirado de oferendas misturadas ou sobrepostas (Perek Yud-Alef); examinou o voto de trazer bolos ou pães assados, e a sociedade entre vinho, óleo e outras oferendas voluntárias (Perek Yud-Bet); e fechou, neste Perek Yud-Guimel, com os votos imprecisos de farinha, lenha, incenso, metais, vinho, óleo e animais, a centralidade absoluta do Templo de Jerusalém frente à Casa de Chonio, e a declaração final de que, na oferenda voluntária, tanto faz quem traz muito quanto quem traz pouco, contanto que dirija o coração aos Céus. Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste tratado se distribuem por Menachot 2a–110a, e todas as do Perek Yud-Guimel reuniram, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.

Com Menachot completo, encerra-se o segundo tratado de Seder Kodashim — depois de Zevachim —, avançando na tarefa de trazer ao português toda a ordem dedicada às leis dos sacrifícios e do Templo.