A última mishná de Massechet Menachot extrai, da repetição da mesma expressão nas três categorias de oferenda — a de animal, a de ave, e a de farinha, esta última a menos custosa e mais acessível ao pobre —, um dos ensinamentos mais citados de toda a literatura rabínica: perante D’us, o valor de uma oferenda não está em sua grandeza material, mas na intenção sincera de quem a traz.
Foi dito, a respeito da oferenda de elevação de animal: “oferenda de fogo, aroma agradável” (Levítico 1:9); e a respeito da oferenda de elevação de ave: “oferenda de fogo, aroma agradável” (ibid. 1:17); e a respeito da oferenda de farinha: “oferenda de fogo, aroma agradável” (ibid. 2:2) — para ensinar que tanto faz quem traz muito quanto quem traz pouco, contanto que a pessoa dirija seu coração aos Céus. — A Torá poderia ter usado a expressão “aroma agradável ao Eterno” apenas uma vez, remetendo as demais oferendas a ela; ao repeti-la exatamente nas três categorias — a oferenda de animal, cara e reservada a quem tem posses; a de ave, mais modesta; e a de farinha, a mais barata de todas, a única oferenda de elevação que o pobre pode trazer sozinho, sem depender de gado ou aves —, o texto iguala explicitamente o valor perante D’us de cada uma delas. Não é o tamanho ou o custo do sacrifício que determina sua aceitação, mas a sinceridade da intenção de quem o traz: o rico que oferece um touro e o pobre que oferece um punhado de farinha são, perante o Céu, igualmente aceitos, desde que ambos dirijam o coração para o mesmo lugar.
Rambam explica: também disseram: “esta é a lei da oferenda de elevação e da oferenda de farinha” etc. — todo aquele que se ocupa da Torá é como se tivesse oferecido uma oferenda de elevação, uma oferenda de farinha e uma oferenda de pecado. E disseram: os sábios que se ocupam das leis do serviço, a Escritura considera como se o Templo tivesse sido reconstruído em seus dias. Por isso convém ao homem ocupar-se com os assuntos dos sacrifícios, e debater e discutir sobre eles, e não dizer “eis que são coisas desnecessárias nesta época”, como diz a maioria das pessoas. — Aqui termina o Perush HaMishná do Rambam, de abençoada memória, sobre o tratado Menachot.
Rashi explica, sobre a Guemará: “o sono do que serve” — aquele que serve com sacrifícios e os traz ao altar, seu sono é doce, pois dorme sem temor; “quer coma pouco quer coma muito” refere-se à recompensa que recebe. “Quando se multiplica o bem” — os sacrifícios; “multiplicam-se os que o comem” — os sacerdotes; “e que proveito tem o seu dono” — o Santo, bendito seja, senão ver com seus olhos que esta pessoa tem boa intenção.
Rashi explica, sobre a continuação da Guemará: “para que digas: farei sua vontade” — trazendo-lhe um sacrifício, como se D’us precisasse disso; “não é para o meu prazer que sacrificais” — isto é, não é para me agradar, pois não desejo obrigar-vos a fazer contra a vontade; “para vosso próprio bem” — para vosso próprio proveito, para cumprir meus mandamentos, para que isso vos sirva de expiação. “Sacrificai-o para vosso próprio bem” — que vossa intenção seja a de abater, excluindo aquele que, distraído com a faca para cortar outra coisa, acaba abatendo um animal sagrado, o que é inválido.
Com esta última mishná do Perek Yud-Guimel, encerra-se Massechet Menachot por inteiro — noventa e três mishnayot em treze perakim, dedicadas às oferendas de farinha (menachot) e a tudo que as acompanha: sua composição, retirada do punhado, queima, consumo pelos sacerdotes, e as regras dos votos que as trazem ao Templo. A fórmula tradicional de encerramento acima — “hadran alach” (“voltaremos a você”), seguida de “ussliká lah massechet Menachot” (“concluiu-se Massechet Menachot”) — é a que fecha o próprio texto da Guemará ao final do tratado; o Rambam, por sua vez, encerra seu Perush HaMishná sobre este tratado com as palavras “salik perush hamishnayot leHaRambam zal mimassechet Menachot” — “aqui termina o comentário às mishnayot do Rambam, de abençoada memória, sobre o tratado Menachot”.
O tratado abriu com o princípio de que toda oferenda de farinha preparada com pensamento inadequado quanto ao seu tipo ainda é válida, mas desqualificada, exceto a oferenda do pecador e a do sacerdote ungido, sempre invalidadas por pensamento impróprio (Perek Alef); tratou dos atos indispensáveis na preparação da oferenda — a retirada do azeite, a mistura, a untura — e de quando a falta de um deles ainda permite retificação (Perek Bet); examinou os quatro serviços da oferenda de farinha e quando um pensamento desqualificante os invalida (Perek Guimel); percorreu, uma a uma, as oferendas de farinha específicas prescritas na Torá — do ómer ao pão de shtei halechem, da minchat chotê à minchat sotá (Perakim Dalet–Hei); dedicou-se à minchat kohanim e à minchat kohen mashiach, trazidas inteiramente ao fogo do altar, sem porção para os sacerdotes (Perek Vav); tratou da mistura de tipos de oferenda e da regra de que o voto segue a intenção de quem o pronuncia (Perek Zayin); expandiu esse princípio às diferentes composições de farinha, óleo e vinho conforme o animal acompanhado (Perek Chet); percorreu a proveniência geográfica e agrícola dos ingredientes das oferendas — farinha, óleo, vinho, sal e lenha (Perek Tet); tratou do ómer da colheita nova e do pão das primícias em Shavuot, com a controvérsia sobre a permissão do grão novo (Perek Yud); voltou-se aos dois pães de Shavuot e ao pão da proposição, e às leis do punhado retirado de oferendas misturadas ou sobrepostas (Perek Yud-Alef); examinou o voto de trazer bolos ou pães assados, e a sociedade entre vinho, óleo e outras oferendas voluntárias (Perek Yud-Bet); e fechou, neste Perek Yud-Guimel, com os votos imprecisos de farinha, lenha, incenso, metais, vinho, óleo e animais, a centralidade absoluta do Templo de Jerusalém frente à Casa de Chonio, e a declaração final de que, na oferenda voluntária, tanto faz quem traz muito quanto quem traz pouco, contanto que dirija o coração aos Céus. Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste tratado se distribuem por Menachot 2a–110a, e todas as do Perek Yud-Guimel reuniram, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.
Com Menachot completo, encerra-se o segundo tratado de Seder Kodashim — depois de Zevachim —, avançando na tarefa de trazer ao português toda a ordem dedicada às leis dos sacrifícios e do Templo.