Seder Kodashim · Massechet Menachot · Perek Alef · Mishná 1 de 4

A retirada do punhado não em seu nome próprio, e a exceção da oferenda do pecador e da oferenda de ciúmes

כָּל הַמְּנָחוֹת שֶׁנִּקְמְצוּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná de abertura de Massechet Menachot estabelece, para as oferendas de farinha (menachot), o princípio análogo ao que abriu Massechet Zevachim para os sacrifícios de animais: a retirada do punhado (kmitzá) feita com intenção voltada para outra oferenda não invalida a menachá, mas também não cumpre a obrigação do seu dono — com duas exceções que se desqualificam por completo: a oferenda do pecador e a oferenda de ciúmes (do rito da sotá), ambas tratadas como uma espécie de oferenda pelo pecado.

Todas as oferendas de farinha cujo punhado foi retirado não em seu nome são aptas, mas não cumpriram, para os donos, a obrigação. Exceto a oferenda do pecador e a oferenda de ciúmes. A oferenda do pecador e a oferenda de ciúmes cujo punhado foi retirado não em seu nome, ou que se colocou no vaso, ou se transportou, ou se queimou não em seu nome, ou em seu nome e não em seu nome, ou não em seu nome e em seu nome, são desqualificadas.

Todas as oferendas de farinha cujo punhado foi retirado não em seu nome são aptas, mas não cumpriram, para os donos, a obrigação. — Assim como no abate dos sacrifícios de animais, também na retirada do punhado das oferendas de farinha — o ato que corresponde à shechitá, dando início ao processo que torna o resto apto ao consumo dos sacerdotes — a intenção voltada para outra oferenda não desqualifica: a menachá permanece apta, o punhado é queimado no altar e o restante pode ser comido pelos sacerdotes. Mas, como o dono não teve em mente a oferenda que trouxe, ele não cumpre sua obrigação e precisa trazer outra.

Exceto a oferenda do pecador e a oferenda de ciúmes. — A oferenda do pecador é trazida por quem, sem recursos para um sacrifício de animal, deve trazer farinha em substituição — associada, portanto, ao pecado que a originou. A oferenda de ciúmes é a menachá trazida pela sotá, a mulher suspeita de infidelidade pelo marido, e a Torá a chama explicitamente de "oferenda de recordação, que traz à memória a iniquidade" — vinculando-a também ao pecado. Por essa associação, ambas são equiparadas a uma oferenda pelo pecado.

A oferenda do pecador e a oferenda de ciúmes cujo punhado foi retirado não em seu nome, ou que se colocou no vaso, ou se transportou, ou se queimou não em seu nome, ou em seu nome e não em seu nome, ou não em seu nome e em seu nome, são desqualificadas. — Diferentemente das demais oferendas de farinha, nestas duas a intenção incorreta em qualquer uma das quatro etapas do serviço — retirada do punhado, colocação no vaso de serviço, transporte até o altar, ou queima — desqualifica por completo a oferenda, do mesmo modo como a intenção incorreta desqualifica a oferenda pelo pecado entre os sacrifícios de animais. E isso vale mesmo quando a intenção correta e a incorreta se misturam numa mesma etapa, em qualquer ordem.

כָּל הַמְּנָחוֹת שֶׁנִּקְמְצוּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָן, כְּשֵׁרוֹת, אֶלָּא שֶׁלֹּא עָלוּ לַבְּעָלִים מִשּׁוּם חוֹבָה, חוּץ מִמִּנְחַת חוֹטֵא וּמִנְחַת קְנָאוֹת. מִנְחַת חוֹטֵא וּמִנְחַת קְנָאוֹת שֶׁקְּמָצָן שֶׁלֹּא לִשְׁמָן, נָתַן בַּכְּלִי, וְהִלֵּךְ, וְהִקְטִיר שֶׁלֹּא לִשְׁמָן, אוֹ לִשְׁמָן וְשֶׁלֹּא לִשְׁמָן, אוֹ שֶׁלֹּא לִשְׁמָן וְלִשְׁמָן, פְּסוּלוֹת.
Como é para seu nome e não para seu nome? Para o nome da oferenda do pecador e para o nome de uma oferenda voluntária. Como é não para seu nome e para seu nome? Para o nome de uma oferenda voluntária e para o nome da oferenda do pecador.

Como é para seu nome e não para seu nome? Para o nome da oferenda do pecador e para o nome de uma oferenda voluntária. Como é não para seu nome e para seu nome? Para o nome de uma oferenda voluntária e para o nome da oferenda do pecador. — A mishná explica o caso de intenção dupla e mista, citado ao final do primeiro parágrafo: quando o sacerdote, durante uma das quatro etapas, tem em mente simultaneamente dois destinos diferentes — primeiro a oferenda correta e depois outra, ou o inverso. Em ambas as ordens, a mistura de intenções desqualifica a oferenda do pecador ou de ciúmes, precisamente porque, ao contrário das demais menachot, elas não toleram nenhuma intenção estranha ao seu próprio nome.

כֵּיצַד לִשְׁמָן וְשֶׁלֹּא לִשְׁמָן, לְשֵׁם מִנְחַת חוֹטֵא וּלְשֵׁם נְדָבָה. כֵּיצַד שֶׁלֹּא לִשְׁמָן וְלִשְׁמָן, לְשֵׁם נְדָבָה וּלְשֵׁם מִנְחַת חוֹטֵא.

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Vayikrá 2:1–2
וְנֶפֶשׁ כִּי תַקְרִיב קׇרְבַּן מִנְחָה לַיהֹוָה סֹלֶת יִהְיֶה קׇרְבָּנוֹ וְיָצַק עָלֶיהָ שֶׁמֶן וְנָתַן עָלֶיהָ לְבֹנָה. וֶהֱבִיאָהּ אֶל בְּנֵי אַהֲרֹן הַכֹּהֲנִים וְקָמַץ מִשָּׁם מְלֹא קֻמְצוֹ מִסָּלְתָּהּ וּמִשַּׁמְנָהּ עַל כָּל לְבֹנָתָהּ וְהִקְטִיר הַכֹּהֵן אֶת אַזְכָּרָתָהּ הַמִּזְבֵּחָה אִשֵּׁה רֵיחַ נִיחֹחַ לַיהֹוָה.
"E quando alguém trouxer oferenda de farinha ao Eterno, de flor de farinha será sua oferenda; derramará sobre ela azeite e colocará sobre ela incenso. E a levará aos filhos de Aarão, os sacerdotes, e dali retirará seu punhado cheio da flor de farinha e do azeite, sobre todo o incenso, e o sacerdote fará arder sua porção memorial no altar, oferenda ígnea de aroma agradável ao Eterno."
Nota: Este é o versículo fundacional que institui a kmitzá — a retirada do punhado de farinha, óleo e incenso — como o ato central que dá início ao processo sacrificial da menachá, exatamente como a mishná pressupõe ao tratá-la como o equivalente da shechitá dos sacrifícios de animais.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Menachot 1:1
כל המנחות שנקמצו שלא לשמן כשירות אלא שלא כו': נתן קמיצות המנחה תחת שחיטת הקרבנות וכבר הקדמנו בתחילת זבחים שכל הזבחים שנשחטו שלא לשמן כשרים חוץ מן החטאת ונאמר במנחת קנאות הוא מנחת זכרון מזכרת עון ולפי שזכר בה עון עשו אותה כמנחת חוטא וכבר ידעת מה שנאמר במנחת חוטא שקראה חטאת... ומה שאמר כל המנחות ר"ל מנחות שאין קבוע להם זמן אבל עומר התנופה אם קמצו שלא לשמו פסול הואיל ובאת להתיר ולא הותרה ר"ל שאינו מותר לאכול החדש עד שיקריב אותו הקומץ שנא' ולחם וקלי וכרמל וגו' אבל מנחות שאין קבוע להן זמן אם קמצן שלא לשמן כשרים כגון שיקמוץ מחבת לשם מרחשת או מרחשת לשם מחבת והדומה לזה.

Rambam explica que a retirada do punhado (kmitzá) na oferenda de farinha ocupa exatamente o lugar do abate (shechitá) nos sacrifícios de animais — e lembra que já havia estabelecido, no início de Zevachim, que todo abate feito não em seu nome mantém o sacrifício apto. Sobre a oferenda de ciúmes, explica que a própria Torá a chama de "oferenda de recordação, que traz à memória a iniquidade" e, por mencionar a iniquidade, os sábios a equipararam à oferenda do pecador, que a Torá já chama de "chatat". Precisa ainda que "todas as oferendas de farinha" da mishná se refere às que não têm tempo fixo — pois o ômer da oferenda mecida (agitada), que tem tempo determinado, é desqualificado se seu punhado for retirado não em seu nome, já que sua função é permitir o consumo do grão novo, e essa permissão não se realiza sem a intenção correta.

Bartenura · Menachot 1:1
כָּל הַמְּנָחוֹת שֶׁנִּקְמְצוּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָן. כְּגוֹן שֶׁהִתְנַדֵּב מִנְחַת מַרְחֶשֶׁת וֶהֱבִיאָהּ, וּקְמָצָהּ הַכֹּהֵן לְשֵׁם מַחֲבַת: כְּשֵׁרוֹת. וּמַקְטִיר הַקֹּמֶץ וּשְׁיָרֶיהָ נֶאֱכָלִים. שֶׁקְּמִיצַת הַמִּנְחָה בִּמְקוֹם שְׁחִיטַת הַקָּרְבָּן עוֹמֶדֶת... חוּץ מִמִּנְחַת חוֹטֵא. כְּגוֹן מִנְחָה הַבָּאָה עַל טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו, אִם לֹא תַּשִּׂיג יָדוֹ לִשְׁתֵּי תּוֹרִים: וּמִנְחַת קְנָאוֹת. שֶׁל סוֹטָה... וְטַעֲמָא הָוֵי מִשּׁוּם דְּמִנְחַת חוֹטֵא חַטָּאת קַרְיֵהּ רַחֲמָנָא. וּבַחַטָּאת כְּתִיב וְשָׁחַט אֹתָהּ לְחַטָּאת, וְלָקַח מִדַּם הַחַטָּאת, שֶׁתְּהֵא שְׁחִיטָה וּלְקִיחָה דְּהַיְנוּ קַבָּלַת הַדָּם לְשֵׁם חַטָּאת. וּמִנְחַת קְנָאוֹת הוֹאִיל וּכְתִיב בָּהּ עָוֹן דִּכְתִיב מִנְחַת זִכָּרוֹן מַזְכֶּרֶת עָוֹן, כַּחַטָּאת שַׁוְיוּהּ רַבָּנָן.

Bartenura ilustra o caso padrão de intenção não-própria com o exemplo de uma menachá votiva de marchéshet (assada em panela funda) cujo punhado o sacerdote retirou com intenção de machavat (assada em frigideira rasa) — mesmo assim ela permanece apta, o punhado é queimado e o restante é comido, pois a kmitzá da menachá ocupa o lugar da shechitá do sacrifício animal. Explica que a oferenda do pecador é a trazida por quem não tem recursos para os dois pombos exigidos por certas impurezas, e que a razão pela qual ambas — a do pecador e a de ciúmes — se desqualificam por intenção incorreta é que a Torá chama a oferenda do pecador de "chatat" explicitamente, exigindo abate e recepção do sangue "para o nome de chatat" nos sacrifícios de animais equivalentes; e a oferenda de ciúmes, por mencionar "iniquidade" em seu texto, foi equiparada pelos sábios à mesma categoria.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Menachot 2a, sobre a Guemará desta mishná — abertura do tratado
מתני' כל המנחות שנקמצו שלא לשמן — כגון שהתנדב מנחת מרחשת והביאה וקמצה הכהן ואמר הריני קומץ לשם מחבת: כשרות — וקומצן נקטר ושיריהן נאכלין: אלא שלא עלו לבעלים לשם חובה — דלא יצא ידי נדרו וצריך להביא אחרת לשם מרחשת:

Rashi abre seu comentário ao tratado inteiro precisamente no mesmo ponto da mishná: exemplifica o caso-padrão com a menachá de marchéshet trazida como voto e retirada pelo sacerdote com intenção declarada de machavat — mesmo assim ela é apta, seu punhado é queimado no altar e o restante comido pelos sacerdotes. Mas, precisamente porque o dono não teve em mente a oferenda que prometeu, ele não cumpre seu voto e precisa trazer outra menachá de marchéshet para se desobrigar.