Seder Kodashim · Massechet Meilá · Perek Hei · Mishná 3 de 5

Meilá após meilá: animal e utensílio de serviço

אֵין מוֹעֵל אַחַר מוֹעֵל בַּמֻּקְדָּשִׁין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná introduz um novo princípio: em geral, uma vez que alguém cometeu meilá, o objeto sai da esfera do consagrado e ninguém mais pode cometer meilá nele novamente — mas há duas exceções, animal e utensílio de serviço, nos quais vários podem cometer meilá em sucessão; Rabi amplia a regra

Não há meilá após meilá nos consagrados, senão em animal e em utensílio de serviço. Como assim? Montou sobre um animal, e veio seu companheiro e montou, e veio outro companheiro e montou; bebeu num copo de ouro, e veio seu companheiro e bebeu, e veio outro companheiro e bebeu; arrancou pelo da oferenda de pecado, e veio seu companheiro e arrancou, e veio outro companheiro e arrancou — todos cometeram meilá. Rabi diz: tudo o que não tem resgate tem nele meilá após meilá.

A regra geral é que, uma vez cometida a meilá, o objeto consagrado transfere-se, por assim dizer, para o domínio comum — e por isso não há meilá após meilá: quem se beneficia do mesmo objeto depois do primeiro que cometeu meilá já não comete meilá, pois o objeto, em termos de responsabilidade de meilá, já “saiu” do consagrado. A mishná ensina que essa regra tem duas exceções: animal (consagrado ao altar, sem defeito) e utensílio de serviço (usado no culto do Templo) — porque, mesmo depois que alguém se beneficia deles, eles permanecem aptos ao serviço sagrado exatamente como antes, sem perder sua condição. Por isso, cada pessoa que sucessivamente monta no animal, bebe do copo de ouro consagrado, ou arranca pelo da oferenda de pecado enquanto viva, comete sua própria meilá, independentemente das anteriores — todos cometeram meilá, cada um pagando o valor de sua própria transgressão. Rabi amplia essa exceção: não apenas animal e utensílio de serviço, mas tudo que não tem resgate — ou seja, tudo que não pode ser retirado da santidade mediante pagamento de seu valor — está sujeito a meilá após meilá, pois, não havendo resgate possível, o objeto nunca “sai” verdadeiramente do consagrado.

אֵין מוֹעֵל אַחַר מוֹעֵל בַּמֻּקְדָּשִׁין, אֶלָּא בְהֵמָה וּכְלֵי שָׁרֵת. כֵּיצַד. רָכַב עַל גַּבֵּי בְהֵמָה וּבָא חֲבֵרוֹ וְרָכַב וּבָא חֲבֵרוֹ וְרָכַב, שָׁתָה בְכוֹס שֶׁל זָהָב וּבָא חֲבֵרוֹ וְשָׁתָה וּבָא חֲבֵרוֹ וְשָׁתָה, תָּלַשׁ מִן הַחַטָּאת וּבָא חֲבֵרוֹ וְתָלַשׁ וּבָא חֲבֵרוֹ וְתָלַשׁ, כֻּלָּן מָעֲלוּ. רַבִּי אוֹמֵר, כֹּל שֶׁאֵין לוֹ פִדְיוֹן, יֶשׁ בּוֹ מוֹעֵל אַחַר מוֹעֵל:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Meilá 5:3

Rambam explica que, uma vez que o primeiro que cometeu meilá já profanou aquele consagrado, como já se explicou no segundo capítulo de Kidushin, quem depois se beneficia da mesma coisa não comete meilá. E o que há entre o primeiro sábio (tana kama) e Rabi é o caso dos consagrados do altar que caíram em defeito: Rabi diz que, se alguém já os abateu antes do resgate, devem ser sepultados e não têm resgate — e por isso há neles meilá após meilá, referindo-se a animais com defeito, desde que a pessoa se beneficie e cause dano, como já explicamos neste capítulo; e quem depois se beneficia desse mesmo animal já não comete meilá. E a lei não segue Rabi.

Bartenura · Meilá 5:3
בַּמֻּקְדָּשִׁין אֶלָּא בְהֵמָה וּכְלֵי שָׁרֵת. בְּהֵמָה תְמִימָה, בֶּהֱמַת קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ תְּמִימָה. דְּהָנֵי לָאו לִפְדִיָּה קַיְמֵי וְלָאו בְּנֵי פְגִימָה נִינְהוּ, שֶׁאֲפִלּוּ רָכַב אֶחָד עַל גַּבֵּי בְהֵמָה וְהִכְחִישָׁהּ אוֹ תָלַשׁ מִן צַמְרָהּ, עֲדַיִן רְאוּיָה הִיא לְקָרְבָּן, וְיֶשׁ בָּהּ מוֹעֵל אַחַר מוֹעֵל. וְכֵן שָׁתָה אֶחָד בְּכוֹס שֶׁל זָהָב, אֲפִלּוּ אִם פְּגָמוֹ וּפְחָתוֹ, כֵּיוָן דִּקְדֻשַּׁת הַגּוּף הוּא וְלָאו לִפְדִיָּה קָאֵי, רָאוּי הוּא עֲדַיִן לְשֵׁרוּת וְיֶשׁ בּוֹ מוֹעֵל אַחַר מוֹעֵל. אֲבָל קָדְשֵׁי בֶדֶק הַבַּיִת, אֵין בָּהֶם מוֹעֵל אַחַר מוֹעֵל, מִשּׁוּם דִּבְנֵי פְדִיָּה נִינְהוּ, וְכֵיוָן שֶׁמָּעַל בּוֹ אֶחָד שֶׁהוֹצִיאוֹ לְחֻלִּין, תּוּ לֵית בָּהּ מְעִילָה: רַבִּי אוֹמֵר כָּל דָּבָר. שֶׁאֵין לוֹ פְגָם, שֶׁאֵינוֹ נִפְסָל, דְּהַיְנוּ כָל דָּבָר שֶׁאֵין לוֹ פִדְיוֹן כִּי הָנֵי דַאֲמַרַן, אֲפִלּוּ פְגָמוֹ יֶשׁ בּוֹ מוֹעֵל אַחַר מוֹעֵל. וְאִיכָּא בֵין תַּנָּא קַמָּא לְרַבִּי קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ תְּמִימִים שֶׁנַּעֲשׂוּ בַעֲלֵי מוּמִים וְעָבַר וּשְׁחָטָן קֹדֶם פְּדִיָּה. רַבִּי אוֹמֵר יִקָּבְרוּ, מִשּׁוּם דְּבָעוּ הַעֲמָדָה וְהַעֲרָכָה וְלֹא אֶפְשָׁר דְּהָא מֵתוּ, הִלְכָּךְ יִקָּבְרוּ, וְכֵיוָן דְּלֹא הָווּ תוּ בְנֵי פְדִיָּה יֶשׁ בּוֹ מוֹעֵל אַחַר מוֹעֵל הַנֶּהֱנֶה מֵהֶן לְאַחַר שְׁחִיטָה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים יִפָּדוּ, דְּלֹא בָעוּ הַעֲמָדָה וְהַעֲרָכָה, וְכֵיוָן דִּקְדֻשַּׁת דָּמִים נִינְהוּ אֵין בּוֹ מוֹעֵל אַחַר מוֹעֵל. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים:

Bartenura explica, sobre “nos consagrados, senão em animal e utensílio de serviço”: animal sem defeito, animal dos consagrados do altar sem defeito, pois esses não estão destinados a resgate e não são sujeitos a dano — de modo que, mesmo que alguém montasse num animal e o enfraquecesse, ou arrancasse de sua lã, ele continua apto ao sacrifício, e por isso há nele meilá após meilá. E do mesmo modo, quem bebeu num copo de ouro, mesmo que o tenha danificado e reduzido, sendo santidade do próprio corpo do objeto e não destinado a resgate, ele continua apto ao serviço, e há nele meilá após meilá. Mas os consagrados para a manutenção do Templo não têm meilá após meilá, pois são destinados a resgate, e assim que um comete meilá neles, retirando-os para o uso comum, já não há mais meilá neles. Sobre “Rabi diz, tudo aquilo”: que não tem dano, isto é, que não se torna inválido, ou seja, tudo o que não tem resgate como os casos mencionados — mesmo que se cause dano, há neles meilá após meilá. E a diferença entre o primeiro sábio e Rabi está nos consagrados do altar sem defeito que se tornaram defeituosos e foram abatidos antes do resgate: Rabi diz que devem ser sepultados, pois exigiam apresentação e avaliação, o que já não é possível, uma vez que morreram — por isso devem ser sepultados, e, não sendo mais sujeitos a resgate, há neles meilá após meilá para quem se beneficia deles após o abate. E os sábios dizem que devem ser resgatados, pois não exigiam apresentação e avaliação, e, sendo santidade de valor monetário, não há neles meilá após meilá. E a lei segue os sábios.

Perush · os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Sobre a Guemará, Meilá 19b
אֵין מוֹעֵל אַחַר מוֹעֵל בְּמֻקְדָּשִׁין אֶלָּא בְּהֵמָה דְּקָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ וּכְלֵי שָׁרֵת בִּלְבַד — הָנֵי לָאו לְדָמֵי קָיְימֵי וְלָא בְּנֵי אִיפְּגוֹמֵי נִינְהוּ, שֶׁאֲפִלּוּ רָכַב עַל גַּבֵּי בְהֵמָה וְהִכְחִישָׁהּ אוֹ תָלַשׁ מִצַּמְרָהּ, עֲדַיִן רְאוּיָה הִיא לְקָרְבָּן וְלֹא פְסָלָהּ בְּכָךְ לַמִּזְבֵּחַ.

Rashi explica a razão de fundo da exceção: o animal consagrado ao altar e o utensílio de serviço não estão destinados a resgate e não são sujeitos a dano de verdade, pois, seja gorda ou magra, a besta continua apta para o sacrifício, e não há nela categoria de dano que a desqualifique. Por isso, cada pessoa que se beneficia sucessivamente do mesmo animal ou do mesmo utensílio comete sua própria meilá — o objeto permanece, em toda a sua santidade, tão apto ao Templo depois quanto estava antes.

Rashi רַשִׁ״י
Sobre a Guemará, Meilá 19b
אִיכָּא בֵּינַיְיהוּ עֵצִים, דְּתָנוּ רַבָּנַן: הָאוֹמֵר ״הֲרֵי עָלַי עֵצִים״ — לֹא יִפְחוֹת מִשְּׁנֵי גְזִירִין. רַבִּי אוֹמֵר: עֵצִים קָרְבָּן הֵן, וּטְעוּנִין מֶלַח, וּטְעוּנִין הַגָּשָׁה.

Rashi observa que a Guemará (19b) esclarece a real diferença entre o primeiro sábio e Rabi através do caso da lenha do altar: para Rabi, que considera a lenha um korbán em si (exigindo sal e aproximação ao altar, como qualquer oferenda), ela é uma “coisa sem dano” de santidade própria, e por isso há nela meilá após meilá; para os demais sábios, que não a consideram korbán, ela se equipara aos consagrados para a manutenção do Templo, sujeita a resgate, e por isso não há nela meilá após meilá. Assim, a disputa entre o primeiro sábio e Rabi, aparentemente já ilustrada pelo caso dos consagrados do altar com defeito abatidos antes do resgate, ganha aqui um segundo exemplo prático, mais amplo, através da questão da lenha.