Quem diz "que os bons te abençoem" — eis aí o caminho da heresia. "Que tua misericórdia chegue ao ninho do pássaro", "que pelo bem seja lembrado teu Nome", "agradecemos, agradecemos" — silenciam-no. — Quem, ao orar, restringe a bênção a Deus apenas aos "bons", excluindo os ímpios, revela uma visão dualista incompatível com a fé em um Deus único, soberano sobre todos. Do mesmo modo, quem interpreta o preceito de afugentar a mãe do ninho antes de tomar os filhotes (Devarim 22:6-7) como expressão de misericórdia divina — sugerindo que os preceitos têm motivos emocionais, e não apenas decretos divinos — é silenciado; assim como quem menciona o Nome apenas "pelo bem", implicando dualidade entre bem e mal, ou quem repete "agradecemos" duas vezes seguidas, dando a impressão de estar se dirigindo a duas autoridades divinas distintas.
Quem dá eufemismos às relações proibidas — silenciam-no. Quem diz: "e de tua semente não darás para fazer passar a Molech" (Vayikrá 18:21) — "e de tua semente não darás para engravidar uma aramaia" — silenciam-no com repreensão. — Quem, ao traduzir os versículos sobre relações proibidas, os suaviza com eufemismos que amenizam sua gravidade — dando a entender que a proibição é menos severa do que realmente é — é silenciado. Mais grave ainda é quem distorce completamente o versículo sobre o sacrifício de filhos ao ídolo Molech, traduzindo-o como se fosse apenas uma proibição de relações com uma mulher aramaia — essa distorção esvazia o versículo de seu real e severo significado, e por isso quem assim traduz é silenciado com repreensão explícita, não apenas com uma correção discreta.
É justamente esse versículo — que proíbe entregar os próprios filhos ao culto idólatra de Molech — que a mishná apresenta como o caso extremo de distorção intencional: traduzir "לְהַעֲבִיר לַמֹּלֶךְ" como se falasse de "engravidar uma aramaia" esvazia o versículo de sua proibição real, mais grave que a de qualquer relação proibida comum, pois envolve tanto idolatria quanto o sacrifício da própria prole. A Guemará explica que essa distorção específica recebe punição mais severa que os outros eufemismos da mishná — repreensão explícita, e não apenas silenciamento discreto — precisamente porque desvirtua um preceito que combina, numa única proibição, os pecados mais graves da Torá: idolatria e derramamento do próprio sangue familiar.
Rambam explica por que a expressão sobre o ninho do pássaro é considerada heresia, apesar de parecer motivada por compaixão.
Bartenura explica por que dizer "agradecemos" duas vezes sugere dualidade; Rashi detalha o que constitui um eufemismo proibido nas relações proibidas.
"Que pelo bem seja lembrado teu Nome" e "agradecemos, agradecemos": ambas as expressões dão a impressão de reconhecer duas autoridades divinas separadas — uma para o bem e outra implícita para o mal, ou duas entidades distintas sendo agradecidas — e por isso são consideradas suspeitas de heresia dualista e levam ao silenciamento de quem as pronuncia.
"Que os bons te abençoem: eis aí o caminho da heresia" — pois até mesmo o povo de Israel é instruído a incluir os transgressores em suas assembleias de jejum comunitário, unindo-se a eles em oração; e prova disso é que a gálbano, especiaria de cheiro desagradável, ainda assim foi contada pela Escritura entre os componentes do incenso sagrado do Templo — ensinando que mesmo o elemento aparentemente indigno tem seu lugar legítimo no serviço divino, e não deve ser excluído da bênção comum.
"Quem dá eufemismos às relações proibidas" — a Guemará explica que se refere a quem expõe a passagem das relações proibidas usando eufemismos, afirmando que o texto não fala literalmente de "nudez" no sentido pleno, mas apenas empregou uma expressão indireta para suavizar seu sentido — essa exposição enfraquece a gravidade real da proibição perante quem ouve, e por isso quem assim ensina é silenciado, ainda que a própria tradição dos sábios, em outros contextos, também use expressões eufemísticas com propósito bem diferente: preservar a dignidade da linguagem, e não diminuir a severidade de uma proibição.