Seder Moed · Massechet Meguilá · Perek Dalet · Mishná 9 de 10

Frases que fazem silenciar quem reza ou traduz

הָאוֹמֵר יְבָרְכוּךָ טוֹבִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná continua o tema anterior, elencando agora frases específicas — na oração e na tradução da Torá — que, apesar de parecerem inocentes ou até piedosas, revelam heresia dualista ou distorcem propositalmente o sentido do texto sagrado.

Quem diz "que os bons te abençoem" — eis aí o caminho da heresia. "Que tua misericórdia chegue ao ninho do pássaro", "que pelo bem seja lembrado teu Nome", "agradecemos, agradecemos" — silenciam-no.Quem, ao orar, restringe a bênção a Deus apenas aos "bons", excluindo os ímpios, revela uma visão dualista incompatível com a fé em um Deus único, soberano sobre todos. Do mesmo modo, quem interpreta o preceito de afugentar a mãe do ninho antes de tomar os filhotes (Devarim 22:6-7) como expressão de misericórdia divina — sugerindo que os preceitos têm motivos emocionais, e não apenas decretos divinos — é silenciado; assim como quem menciona o Nome apenas "pelo bem", implicando dualidade entre bem e mal, ou quem repete "agradecemos" duas vezes seguidas, dando a impressão de estar se dirigindo a duas autoridades divinas distintas.

Quem dá eufemismos às relações proibidas — silenciam-no. Quem diz: "e de tua semente não darás para fazer passar a Molech" (Vayikrá 18:21) — "e de tua semente não darás para engravidar uma aramaia" — silenciam-no com repreensão.Quem, ao traduzir os versículos sobre relações proibidas, os suaviza com eufemismos que amenizam sua gravidade — dando a entender que a proibição é menos severa do que realmente é — é silenciado. Mais grave ainda é quem distorce completamente o versículo sobre o sacrifício de filhos ao ídolo Molech, traduzindo-o como se fosse apenas uma proibição de relações com uma mulher aramaia — essa distorção esvazia o versículo de seu real e severo significado, e por isso quem assim traduz é silenciado com repreensão explícita, não apenas com uma correção discreta.

הָאוֹמֵר יְבָרְכוּךָ טוֹבִים, הֲרֵי זוֹ דֶּרֶךְ הַמִּינוּת. עַל קַן צִפּוֹר יַגִּיעוּ רַחֲמֶיךָ, וְעַל טוֹב יִזָּכֵר שְׁמֶךָ, מוֹדִים מוֹדִים, מְשַׁתְּקִין אוֹתוֹ. הַמְכַנֶּה בָעֲרָיוֹת, מְשַׁתְּקִין אוֹתוֹ. הָאוֹמֵר, וּמִזַּרְעֲךָ לֹא תִתֵּן לְהַעֲבִיר לַמֹּלֶךְ, וּמִזַרְעָךְ לֹא תִתֵּן לְאַעְבָּרָא בְּאַרְמָיוּתָא, מְשַׁתְּקִין אוֹתוֹ בִנְזִיפָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá (Levítico) 18:21
וּמִזַּרְעֲךָ לֹא תִתֵּן לְהַעֲבִיר לַמֹּלֶךְ
E de tua semente não darás para fazer passar a Molech.

É justamente esse versículo — que proíbe entregar os próprios filhos ao culto idólatra de Molech — que a mishná apresenta como o caso extremo de distorção intencional: traduzir "לְהַעֲבִיר לַמֹּלֶךְ" como se falasse de "engravidar uma aramaia" esvazia o versículo de sua proibição real, mais grave que a de qualquer relação proibida comum, pois envolve tanto idolatria quanto o sacrifício da própria prole. A Guemará explica que essa distorção específica recebe punição mais severa que os outros eufemismos da mishná — repreensão explícita, e não apenas silenciamento discreto — precisamente porque desvirtua um preceito que combina, numa única proibição, os pecados mais graves da Torá: idolatria e derramamento do próprio sangue familiar.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que a expressão sobre o ninho do pássaro é considerada heresia, apesar de parecer motivada por compaixão.

Rambam · Perush HaMishná, Meguilá 4:9
וְאֵין רָאוּי לוֹמַר יְבָרְכוּךָ טוֹבִים, לְפִי שֶׁהַשֵּׁם יִתְבָּרַךְ מְבָרְכִים אוֹתוֹ טוֹבִים וּרְעִים, כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב מִי לֹא יִרָאֲךָ מֶלֶךְ הַגּוֹיִם. וְעַל קַן צִפּוֹר יַגִּיעוּ רַחֲמֶיךָ, לְפִי שֶׁהַטַּעַם אֵינוֹ צַד רַחֲמָנוּת אֶלָּא גְּזֵרַת הַכָּתוּב.
Não convém dizer "que os bons te abençoem", pois o Nome bendito é louvado tanto pelos bons quanto pelos maus, como está escrito "quem não te temerá, ó rei das nações" — a bênção divina não se restringe a uma categoria de pessoas. E quanto a "que tua misericórdia chegue ao ninho do pássaro": o motivo desse preceito não é propriamente um sentimento de misericórdia divina para com a mãe pássaro, mas sim um decreto puro da Escritura, cujo verdadeiro propósito não é dado a compreender por completo — atribuir-lhe uma razão emotiva sugere que os preceitos divinos derivam de sentimentos, e não da vontade soberana de Deus, e por isso essa formulação é considerada suspeita de heresia.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que dizer "agradecemos" duas vezes sugere dualidade; Rashi detalha o que constitui um eufemismo proibido nas relações proibidas.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 4:9
וְעַל טוֹב יִזָּכֵר שְׁמֶךָ, מוֹדִים מוֹדִים: הֲרֵי זֶה כִּשְׁתֵּי רְשֻׁיּוֹת.

"Que pelo bem seja lembrado teu Nome" e "agradecemos, agradecemos": ambas as expressões dão a impressão de reconhecer duas autoridades divinas separadas — uma para o bem e outra implícita para o mal, ou duas entidades distintas sendo agradecidas — e por isso são consideradas suspeitas de heresia dualista e levam ao silenciamento de quem as pronuncia.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 4:9
יְבָרְכוּךָ טוֹבִים הֲרֵי זוֹ דֶּרֶךְ מִינוּת. שֶׁצְּרִיכִין יִשְׂרָאֵל לְצָרֵף עִמָּהֶם פּוֹשְׁעֵי יִשְׂרָאֵל בַּאֲגֻדַּת תַּעֲנִיּוֹתֵיהֶם, שֶׁהֲרֵי חֶלְבְּנָה רֵיחָהּ רַע וּמְנָאָהּ הַכָּתוּב בֵּין סַמָּנֵי הַקְּטֹרֶת.

"Que os bons te abençoem: eis aí o caminho da heresia" — pois até mesmo o povo de Israel é instruído a incluir os transgressores em suas assembleias de jejum comunitário, unindo-se a eles em oração; e prova disso é que a gálbano, especiaria de cheiro desagradável, ainda assim foi contada pela Escritura entre os componentes do incenso sagrado do Templo — ensinando que mesmo o elemento aparentemente indigno tem seu lugar legítimo no serviço divino, e não deve ser excluído da bênção comum.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Meguilá 25a
הַמְכַנֶּה בָעֲרָיוֹת - בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ שֶׁדּוֹרֵשׁ פָּרָשַׁת עֲרָיוֹת בְּכִנּוּי, וְאוֹמֵר לֹא עֶרְוָה מַמָּשׁ דִּבֶּר הַכָּתוּב, אֶלָּא כִּנָּה הַכָּתוּב בִּלְשׁוֹנוֹ.

"Quem dá eufemismos às relações proibidas" — a Guemará explica que se refere a quem expõe a passagem das relações proibidas usando eufemismos, afirmando que o texto não fala literalmente de "nudez" no sentido pleno, mas apenas empregou uma expressão indireta para suavizar seu sentido — essa exposição enfraquece a gravidade real da proibição perante quem ouve, e por isso quem assim ensina é silenciado, ainda que a própria tradição dos sábios, em outros contextos, também use expressões eufemísticas com propósito bem diferente: preservar a dignidade da linguagem, e não diminuir a severidade de uma proibição.