A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A última mishná do tratado inteiro reúne uma lista de passagens sensíveis da Torá e do relato profético, classificando cada uma segundo o grau de exposição pública que merece: lidas e traduzidas, lidas mas não traduzidas, ou nem lidas nem traduzidas.
O caso de Reuvén é lido mas não traduzido. O caso de Tamar é lido e traduzido. O primeiro caso do bezerro de ouro é lido e traduzido, e o segundo é lido mas não traduzido. — O relato de Reuvén e Bilhá (Bereshit 35:22) é lido em público em hebraico, mas não traduzido para o aramaico, para não expor Reuvén ao desprezo dos que não entendem hebraico. Já o relato de Yehudá e Tamar (Bereshit 38) é lido e também traduzido integralmente, pois nele Yehudá acaba por confessar sua falta — um relato que, apesar do conteúdo delicado, termina por honrá-lo. O primeiro relato do bezerro de ouro (Shemot 32:1-20), narrado diretamente pela Torá, é lido e traduzido; mas o segundo relato do mesmo episódio — quando Aharón o resume a Moshé (Shemot 32:21-24) — é lido mas não traduzido, para não expor Aharón a um relato que poderia soar como desculpa evasiva.
A bênção sacerdotal, o caso de Davi e o de Amnón não se leem nem se traduzem. — Os versículos da bênção sacerdotal (Bamidbar 6:24-26) não são lidos publicamente fora do próprio contexto litúrgico da bênção, por respeito à sua natureza sagrada; e os relatos de Davi com Bat-Sheva e de Amnón com Tamar (Shmuel II 11 e 13) não são sequer lidos publicamente, tampouco traduzidos, dado seu conteúdo especialmente sensível envolvendo a casa real.
Não se conclui com o relato da Carruagem, mas Rabi Yehudá permite. Rabi Eliezer diz: não se conclui com "Faze conhecer a Jerusalém" (Yechezkel 16:2). — Não se usa como haftará o relato da visão da Carruagem Divina de Yechezkel (capítulo 1), por seu conteúdo místico profundo, que não convém expor ao público em geral sem preparo adequado — mas Rabi Yehudá discorda e permite essa leitura. Rabi Eliezer proíbe especificamente a passagem que começa "faze conhecer a Jerusalém" (Yechezkel 16:2), por sua linguagem depreciativa a respeito do povo de Israel.
מַעֲשֵׂה רְאוּבֵן, נִקְרָא וְלֹא מִתַּרְגֵּם. מַעֲשֵׂה תָמָר, נִקְרָא וּמִתַּרְגֵּם. מַעֲשֵׂה עֵגֶל הָרִאשׁוֹן, נִקְרָא וּמִתַּרְגֵּם. וְהַשֵּׁנִי, נִקְרָא וְלֹא מִתַּרְגֵּם. בִּרְכַּת כֹּהֲנִים, מַעֲשֵׂה דָּוִד וְאַמְנוֹן, לֹא נִקְרָאִין וְלֹא מִתַּרְגְּמִין. אֵין מַפְטִירִין בַּמֶּרְכָּבָה, וְרַבִּי יְהוּדָה מַתִּיר. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אֵין מַפְטִירִין בְּהוֹדַע אֶת יְרוּשָׁלַיִם:
Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה
Bereshit 35:22
וַיֵּלֶךְ רְאוּבֵן וַיִּשְׁכַּב אֶת בִּלְהָה פִּילֶגֶשׁ אָבִיו וַיִּשְׁמַע יִשְׂרָאֵל
E foi Reuvén e deitou-se com Bilhá, concubina de seu pai, e Israel ouviu.
A tradição rabínica já suaviza o próprio sentido literal deste versículo — entendendo que Reuvén, na verdade, apenas moveu o leito de seu pai, sem cometer o ato relatado literalmente — mas mesmo assim a mishná determina que ele seja lido publicamente sem tradução, para não expor Reuvén à humilhação pública diante de quem, sem entender hebraico, tomaria o relato ao pé da letra. O contraste com o caso de Tamar é instrutivo: embora também envolva relações sensíveis, ali Yehudá termina por declarar publicamente "ela é mais justa do que eu" (Bereshit 38:26) — uma confissão que redime a narrativa e permite sua tradução integral, ao passo que o relato de Reuvén não contém nenhuma declaração equivalente que o resgate aos olhos de quem ouviria a tradução sem o contexto completo da tradição oral.
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam explica a diferença entre o primeiro e o segundo relato do bezerro de ouro.
Rambam · Perush HaMishná, Meguilá 4:10
עִנְיַן עֵגֶל הַשֵּׁנִי הוּא מַה שֶּׁנִּשְׁנָה מֵעִנְיָנוֹ, וְהוּא מִפָּסוּק וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֶל אַהֲרֹן עַד פָּסוּק וַיַּרְא מֹשֶׁה אֶת הָעָם וְגוֹ׳.
O "segundo caso do bezerro de ouro" refere-se ao que se repete do próprio episódio na conversa entre Moshé e Aharón, desde o versículo "e disse Moshé a Aharón" até o versículo "e viu Moshé o povo" — ou seja, o momento em que Aharón relata a Moshé, em suas próprias palavras, o que aconteceu, oferecendo uma versão que poderia soar como uma explicação atenuante de sua própria participação no episódio. Por essa razão, embora essa passagem seja lida publicamente como parte do texto sagrado, ela não é traduzida, evitando-se que o povo comum entenda a explicação de Aharón como uma desculpa que minimiza sua responsabilidade no episódio.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
Bartenura explica por que o caso de Davi e Amnón preserva a honra de Davi; Rashi detalha o motivo da não-tradução do segundo relato do bezerro de ouro e a passagem de Yechezkel vedada por Rabi Eliezer.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 4:10
מַעֲשֵׂה רְאוּבֵן נִקְרָא וְלֹא מִתַּרְגֵּם כוּ׳: עִנְיַן עֵגֶל הַשֵּׁנִי הוּא מַה שֶּׁנִּשְׁנָה מֵעִנְיָנוֹ.
"O caso de Reuvén é lido mas não traduzido" e assim por diante: já o segundo caso do bezerro de ouro é a repetição do relato feita por Aharón a Moshé, e por conter um elemento de justificativa própria de Aharón diante de sua participação no episódio, não é traduzido, embora continue sendo lido como parte integral do texto sagrado.
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 4:10
מַעֲשֵׂה דָּוִד וְאַמְנוֹן, לֹא נִקְרָאִין וְלֹא מִתַּרְגְּמִין. וְלֹא חָיְשִׁינַן לִיקָרֵיהּ דְּדָוִד.
"O caso de Davi e Amnón não se leem nem se traduzem" — a mishná, note-se, não se preocupa em preservar apenas a honra de Davi ao vedar a leitura pública desse relato, pois o texto em si já preserva sua dignidade adequadamente; a restrição decorre antes da natureza extremamente sensível do próprio conteúdo — envolvendo tanto adultério quanto incesto entre os filhos do próprio rei —, considerado inadequado para exposição pública, mesmo em sua forma hebraica original sem tradução.
Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Meguilá 25a-25b
מַתְנִיתִין מַעֲשֵׂה רְאוּבֵן - וַיִּשְׁכַּב אֶת בִּלְהָה פִּילֶגֶשׁ אָבִיו. נִקְרָא - בְּבֵית הַכְּנֶסֶת. וְלֹא מִתַּרְגֵּם - חַיְישִׁינַן לִגְנוּתוֹ. וְהַשֵּׁנִי, נִקְרָא וְלֹא מִתַּרְגֵּם - שֶׁכָּתוּב בּוֹ וַיֵּצֵא הָעֵגֶל הַזֶּה, וְלֹא יְתַרְגֵּם פֶּן יִטְעוּ עַמֵּי הָאָרֶץ וְיֹאמְרוּ מַמָּשׁ הָיָה בּוֹ שֶׁיָּצָא מֵאֵלָיו, אֲבָל הַמִּקְרָא אֵין מְבִינִין. הוֹדַע אֶת יְרוּשָׁלַיִם - אֶת תּוֹעֲבוֹתֶיהָ, פָּרָשָׁה הִיא בִּיחֶזְקֵאל.
"O caso de Reuvén" — refere-se ao versículo "e deitou-se com Bilhá, concubina de seu pai". "É lido" — publicamente, na sinagoga. "Mas não traduzido" — por preocupação com o desprezo que isso poderia trazer a Reuvén entre quem não compreende o hebraico e tomaria o relato literalmente.
"E o segundo é lido mas não traduzido" — pois nele está escrito "e saiu este bezerro" (Shemot 32:24), e não se traduz esse versículo para que o povo simples não se confunda e pense que houve algo sobrenatural nesse "sair por si mesmo" do bezerro — quando, na verdade, quem lê o texto original em hebraico já compreende que se trata apenas do relato evasivo de Aharón, e não de um milagre literal.
"Faze conhecer a Jerusalém" — refere-se à passagem sobre "suas abominações", capítulo inteiro no livro de Yechezkel — vedada por Rabi Eliezer justamente por sua linguagem particularmente depreciativa a respeito do comportamento do povo de Israel, imprópria para leitura pública como haftará.
סְלִיק מַסֶּכְתָּא דִּמְגִלָּה
Aqui se conclui Massechet Meguilá — o décimo tratado de Seder Moed, dedicado aos dias e às regras da leitura da Meguilá de Ester em Purim, às leis das doações comunitárias, e à leitura pública da Torá ao longo de todo o calendário. O Perek Dalet, último do tratado, com dez mishnayot, tratou das regras finais da leitura pública: a leitura da Meguilá em pé ou sentado, e os três leitores de segunda, quinta e Shabat à tarde (4:1); o princípio geral do número de leitores conforme a oferenda adicional do dia — quatro, cinco, seis, sete (4:2); o quórum de dez para tudo que é "algo de santidade", da oração pública ao luto e ao casamento (4:3); o mínimo de versículos por leitor e por tradutor, e as regras de salto na leitura (4:4); a concentração das honras litúrgicas em quem lê os Profetas (4:5); o menor, o esfarrapado e o cego, e o que cada um pode e não pode fazer (4:6); o sacerdote de mãos manchadas que não abençoa (4:7); os sinais externos de heresia — vestes, sandálias e tefilin fora do lugar (4:8); as frases que levam ao silenciamento de quem reza ou traduz (4:9); e, nesta última mishná, a lista final de passagens lidas e traduzidas, lidas mas não traduzidas, e nem lidas nem traduzidas (4:10).
Massechet Meguilá percorreu, ao longo de seus quatro capítulos e trinta e três mishnayot, todo o sistema da leitura da Meguilá e da Torá em público: os cinco dias possíveis de leitura da Meguilá conforme o tipo de assentamento, e a longa série de comparações halachicas entre diferentes graus de santidade, culminando em Shilo e Jerusalém (Perek Alef); as regras técnicas da leitura em si — ordem, língua, material da escrita, quem é apto a ler — e o princípio de que toda mitzvá diurna vale o dia inteiro (Perek Bet); a santidade dos bens comunitários e o calendário completo das leituras públicas da Torá, das quatro parashiot de Adar às festas e aos jejuns (Perek Guimel); e, por fim, este último perek, sobre os detalhes finais da leitura pública e a lista de passagens sensíveis da Torá e dos Profetas (Perek Dalet). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, cada mishná deste tratado reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva folha do Talmud.
Com o encerramento deste tratado, o estudo da Mishná prossegue para os demais tratados de Seder Moed — Moed Katan e Chagigá —, somando-se aos tratados já concluídos de Shabat, Eruvin, Pessachim, Shekalim, Yoma, Sucá, Beitzá, Rosh Hashaná, Taanit e agora Meguilá.