Seder Moed · Massechet Meguilá · Perek Dalet · Mishná 7 de 10

O sacerdote de mãos manchadas não abençoa

כֹּהֵן שֶׁיֵּשׁ בְּיָדָיו מוּמִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma mishná breve, dedicada a um único detalhe da bênção sacerdotal: o efeito de uma marca visível nas mãos do sacerdote sobre sua aptidão para levantá-las diante do povo.

Sacerdote que tem defeitos nas mãos não levanta as mãos. Rabi Yehudá diz: também quem tinha as mãos tingidas com isatis e ruiva não levanta as mãos, porque o povo fixa os olhos nele.Um sacerdote cujas mãos apresentam alguma deformidade ou marca visível — verrugas, dedos tortos ou qualquer outra irregularidade que chame a atenção — está impedido de levantar as mãos para recitar a bênção sacerdotal, pois a congregação é instruída a não fitar as mãos do sacerdote durante a bênção, e uma marca chamativa tornaria essa instrução difícil de seguir. Rabi Yehudá estende essa mesma restrição a quem tem as mãos manchadas por corantes de uso profissional — como os tintureiros que trabalham com isatis, um pigmento azulado, e ruiva, um corante vermelho —, pois, mesmo sem se tratar de deformidade física, a cor incomum também atrairia os olhares do povo para as mãos do sacerdote.

כֹּהֵן שֶׁיֵּשׁ בְּיָדָיו מוּמִין, לֹא יִשָּׂא אֶת כַּפָּיו. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אַף מִי שֶׁהָיוּ יָדָיו צְבוּעוֹת אִסְטִיס וּפוּאָה, לֹא יִשָּׂא אֶת כַּפָּיו, מִפְּנֵי שֶׁהָעָם מִסְתַּכְּלִין בּוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar (Números) 6:23
כֹּה תְבָרְכוּ אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אָמוֹר לָהֶם
Assim abençoareis os filhos de Israel, dizendo-lhes.

A Guemará (Chaguigá 16a) explica que, durante a bênção sacerdotal, a Presença Divina repousa sobre as mãos dos sacerdotes, e por isso a congregação é instruída a não fitar diretamente essas mãos — de onde deriva a exigência de que as mãos estejam livres de qualquer marca capaz de atrair o olhar do povo em desobediência a essa instrução. A mishná aplica assim ao próprio corpo do sacerdote um princípio semelhante ao que rege as vestes sacerdotais em geral: assim como as vestes do sacerdote devem ser dignas e sem defeito para o serviço do Templo, também suas mãos, instrumento direto da bênção pronunciada "diante de todo o povo", precisam estar livres de qualquer elemento que desvie a atenção da congregação do próprio ato sagrado.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam identifica as duas substâncias mencionadas por Rabi Yehudá e generaliza a regra para toda marca capaz de atrair os olhares.

Rambam · Perush HaMishná, Meguilá 4:7
אִסְטִיס, צֶבַע כִּדְמוּת תְּכֵלֶת. וּפוּאָה, שֳׁרָשִׁים דַּקִּים אֲדֻמִּים שֶׁצּוֹבְעִין בָּהֶם אֹדֶם. וְכֵן כָּל דָּבָר שֶׁצּוֹבֵעַ הַיָּדַיִם, אִם הָיוּ רֹב בְּנֵי אוֹתָהּ הָעִיר.
Isatis é um pigmento de tonalidade azulada, semelhante ao techeilet; e ruiva são raízes finas e avermelhadas usadas para produzir corante vermelho. E o mesmo se aplica a qualquer outra substância que manche as mãos de forma vistosa — a regra não se limita a essas duas mencionadas nominalmente na mishná, mas depende de um critério prático: se a maioria dos moradores daquela cidade estiver acostumada a ver mãos manchadas por causa de alguma ocupação comum ali, a marca deixa de atrair olhares incomuns, e a restrição não se aplica.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica que a restrição vale também para defeitos no rosto e nos pés; Rashi detalha por que a congregação é instruída a não olhar para as mãos do sacerdote.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 4:7
אִסְטִיס, צֶבַע כִּדְמוּת תְּכֵלֶת. וּפוּאָה, שֳׁרָשִׁים דַּקִּים אֲדֻמִּים שֶׁצּוֹבְעִין בָּהֶם אֹדֶם.

Isatis é um corante de tom azulado, e ruiva são raízes finas de coloração vermelha usadas para tingimento — ambas substâncias comuns entre tintureiros da época, cujo uso profissional deixava marcas duradouras nas mãos, semelhantes em efeito visual a um defeito físico permanente.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 4:7
כֹּהֵן שֶׁיֵּשׁ בְּיָדָיו מוּמִין. וְכֵן בְּפָנָיו אוֹ בְּרַגְלָיו. לֹא יִשָּׂא אֶת כַּפָּיו. שֶׁאֵין הַכֹּהֲנִים רַשָּׁאִין לַעֲלוֹת בְּסַנְדְּלֵיהֶן לַדּוּכָן.

"Sacerdote que tem defeitos nas mãos" — e a mesma regra vale para defeitos visíveis em seu rosto ou em seus pés, já que os sacerdotes sobem descalços à plataforma para a bênção — pois não é permitido aos sacerdotes subir calçados de sandálias à plataforma —, e, estando os pés também expostos, um defeito ali seria igualmente notado pela congregação, com o mesmo efeito perturbador de uma marca nas mãos.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Meguilá 24b
מַתְנִיתִין כֹּהֵן שֶׁיֵּשׁ בְּיָדָיו מוּמִין - לְפִי שֶׁהָעָם מִסְתַּכְּלִין בּוֹ, וְאָמְרִינַן בְּמַסֶּכֶת חֲגִיגָה: הַמִּסְתַּכֵּל בַּכֹּהֲנִים בְּשָׁעָה שֶׁנּוֹשְׂאִין אֶת כַּפֵּיהֶן, עֵינָיו כֵּהוֹת, לְפִי שֶׁהַשְּׁכִינָה שׁוֹרָה עַל יְדֵיהֶן.

"Sacerdote que tem defeitos nas mãos" — porque, se as tivesse, o povo fixaria os olhos nelas; e dizemos no tratado Chaguigá: quem fita os sacerdotes no momento em que levantam as mãos para a bênção tem seus olhos enfraquecidos, pois é sobre as próprias mãos deles que a Presença Divina repousa naquele instante. Por isso a congregação é instruída a desviar o olhar durante a bênção sacerdotal — e uma marca chamativa nas mãos do sacerdote tornaria essa instrução particularmente difícil de cumprir, atraindo justamente o olhar que deveria ser evitado.