Seder Moed · Massechet Meguilá · Perek Dalet · Mishná 4 de 10

O mínimo de versículos e o salto do tradutor

הַקּוֹרֵא בַּתּוֹרָה לֹא יִפְחֹת מִשְּׁלֹשָׁה פְסוּקִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná regula os detalhes técnicos da leitura pública acompanhada de tradução oral em aramaico, prática comum nos tempos da Mishná — o mínimo de versículos por leitor e por tradutor, e as regras sobre saltar de um trecho a outro.

Quem lê a Torá não lê menos de três versículos. Não leia ao tradutor mais de um versículo, e nos Profetas, três. Se os três formavam três parashiot, leem um a um. Salta-se nos Profetas, mas não se salta na Torá. E até onde se pode saltar? Até que o tradutor não pare. — Cada leitor deve ler ao menos três versículos consecutivos da Torá. Ao tradutor que verte oralmente cada trecho para o aramaico, o leitor não deve ler mais de um versículo por vez na Torá — para não sobrecarregar sua memória —, mas nos Profetas pode ler até três versículos de uma vez, pois um eventual erro do tradutor ali é menos grave. Se, porém, esses três versículos constituírem três parágrafos distintos e independentes, cada um deve ser lido separadamente, um a um, mesmo nos Profetas. É permitido saltar de um trecho a outro dentro da leitura dos Profetas, mas não dentro da Torá, cuja leitura deve seguir a ordem contínua do texto; e, quando se salta nos Profetas, o limite é que o tradutor não termine de traduzir o trecho anterior antes que o leitor já tenha encontrado e iniciado o novo ponto.

הַקּוֹרֵא בַּתּוֹרָה לֹא יִפְחֹת מִשְּׁלֹשָׁה פְסוּקִים. לֹא יִקְרָא לַמְּתֻרְגְּמָן יוֹתֵר מִפָּסוּק אֶחָד, וּבַנָּבִיא שְׁלֹשָׁה. הָיוּ שְׁלָשְׁתָּן שָׁלֹשׁ פָּרָשִׁיּוֹת, קוֹרִין אֶחָד אֶחָד. מְדַלְּגִין בַּנָּבִיא וְאֵין מְדַלְּגִין בַּתּוֹרָה. וְעַד כַּמָּה הוּא מְדַלֵּג, עַד כְּדֵי שֶׁלֹּא יִפְסֹק הַמְּתֻרְגְּמָן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot (Êxodo) 15:22
וַיֵּלְכוּ שְׁלֹשֶׁת יָמִים בַּמִּדְבָּר וְלֹא מָצְאוּ מָיִם
E caminharam três dias no deserto e não acharam água.

A Guemará deriva o mínimo de três versículos por leitor da tradição, associada por Rashi e pelos amoraim ao costume — remontando a Moshé, Ezra e os profetas que os sucederam — de nunca deixar o povo passar mais de três dias sem ouvir a Torá, tal como Israel não ficou mais de três dias sem água no deserto: "água" sendo interpretada como metáfora para as próprias palavras da Torá. Essa mesma preocupação com a continuidade da instrução pública molda as demais regras da mishná: o limite de um versículo por vez ao tradutor na Torá busca precisão máxima na tradução de cada palavra sagrada, enquanto a maior liberdade permitida nos Profetas reflete seu caráter secundário em relação à Torá em si.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que um eventual erro do tradutor nos Profetas é menos preocupante do que na Torá.

Rambam · Perush HaMishná, Meguilá 4:4
אִם הָיוּ שְׁלָשְׁתָּן ג׳ פָּרָשִׁיּוֹת, כְּמוֹ הַפָּרָשָׁה שֶׁבִּישַׁעְיָה: כֹּה אָמַר ה׳ חִנָּם, כֹּה אָמַר ה׳ אֱלֹהִים מִצְרַיִם, וְעַתָּה מַה לִּי פֹה.
Se os três versículos constituíam três parashiot separadas — como no exemplo de Yeshayahu, onde três aberturas distintas com a fórmula "assim disse o Eterno" seguem-se em rápida sucessão, cada uma tratando de um assunto próprio —, cada uma delas deve ser lida e traduzida individualmente, mesmo que isso signifique ler apenas um versículo de cada vez. A razão pela qual um erro do tradutor nos Profetas preocupa menos do que na Torá é que a tradução dos Profetas não tem o mesmo peso normativo para determinar a prática halachica; já um erro na tradução da Torá poderia, em tese, induzir o povo a um entendimento equivocado de um preceito.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que não se salta na Torá; Rashi detalha o critério exato do limite ao saltar nos Profetas.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 4:4
הַקּוֹרֵא בַּתּוֹרָה לֹא יִפְחֹת מִג׳ פְּסוּקִים כוּ׳.

"Quem lê a Torá não lê menos de três versículos" e assim por diante: este é o mínimo estabelecido para cada porção lida por um único leitor, refletindo o princípio de que a leitura pública da Torá deve manter uma unidade textual mínima suficiente para transmitir sentido completo, sem fragmentar excessivamente a passagem lida.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 4:4
וְלֹא יִקְרָא לַמְּתֻרְגְּמָן יוֹתֵר מִפָּסוּק אֶחָד. שֶׁלֹּא יִטְעֶה הַמְּתֻרְגְּמָן, שֶׁמְּתַרְגֵּם עַל פֶּה.

"Não leia ao tradutor mais de um versículo" — para que o tradutor, que verte o texto oralmente de memória e sem um roteiro escrito diante de si, não se confunda ao tentar memorizar mais de um versículo por vez; o cuidado é ainda maior na Torá do que nos Profetas justamente pela gravidade acrescida de qualquer erro na tradução das próprias palavras do texto sagrado central.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Meguilá 24a
מְדַלְּגִין בַּנָּבִיא - מִפָּרָשָׁה לְפָרָשָׁה. וְאֵין מְדַלְּגִין בַּתּוֹרָה - שֶׁהַשּׁוֹמֵעַ אֶת הַקּוֹפֵץ מִמָּקוֹם לְמָקוֹם אֵין לִבּוֹ מְיֻשָּׁב לִשְׁמֹעַ. שֶׁלֹּא יִפְסֹק הַתּוּרְגְּמָן - שֶׁלֹּא יְדַלֵּג מִמָּקוֹם שֶׁהוּא קוֹרֵא אֶלָּא כְּדֵי שֶׁיּוּכַל לָגוֹל אֶת הַסֵּפֶר וְלִקְרוֹת בַּמָּקוֹם הַדִּלּוּג קֹדֶם שֶׁיִּגְמֹר הַתּוּרְגְּמָן.

"Salta-se nos Profetas" — de uma passagem a outra dentro do mesmo livro, ou de um versículo distante a outro, desde que ambos tratem do mesmo assunto. "Mas não se salta na Torá" — pois quem ouve alguém pular de um lugar a outro na leitura perde a concentração e não consegue acompanhar com atenção sustentada.

"Que o tradutor não pare" — o leitor não deve saltar para um ponto distante além do que permite enrolar o rolo e localizar o novo trecho antes que o tradutor termine de traduzir o versículo anterior — pois não é digno da comunidade ficar parada em silêncio à espera enquanto o leitor procura o lugar certo.