Seder Moed · Massechet Meguilá · Perek Dalet · Mishná 3 de 10

O quórum de dez para tudo que é sagrado

אֵין פּוֹרְסִין אֶת שְׁמַע
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná deixa por um momento o tema da leitura e reúne, sob um único princípio, tudo aquilo — do culto público ao luto e ao casamento, da bênção sacerdotal à avaliação de bens consagrados — que requer a presença de um quórum de dez homens.

Não se recita o Shemá em comunidade, nem se passa diante da arca, nem se levantam as mãos, nem se lê a Torá, nem se conclui com os Profetas, nem se fazem os ritos de levantar e sentar, nem se dizem a bênção dos enlutados, o consolo dos enlutados e a bênção dos noivos, nem se convida com o Nome, com menos de dez.Uma série de atos públicos sagrados requer a presença mínima de dez homens adultos: a recitação introdutória que precede o Shemá em comunidade, a repetição da amidá pelo oficiante, a bênção sacerdotal, a leitura pública da Torá e sua conclusão com os Profetas, os ritos de condolência praticados num funeral, as bênçãos ditas aos enlutados e aos noivos, e o convite formal para a bênção após as refeições mencionando o Nome de Deus.

E nas terras, nove e um sacerdote; e uma pessoa, semelhante a eles.Para avaliar o valor de uma terra consagrada que se deseja resgatar, é necessário um grupo de dez pessoas, das quais uma deve ser sacerdote; e a mesma regra — nove pessoas comuns e um sacerdote — aplica-se à avaliação do valor de uma pessoa que fez voto de consagrar seu próprio valor ao Templo.

אֵין פּוֹרְסִין אֶת שְׁמַע, וְאֵין עוֹבְרִין לִפְנֵי הַתֵּבָה, וְאֵין נוֹשְׂאִין אֶת כַּפֵּיהֶם, וְאֵין קוֹרִין בַּתּוֹרָה, וְאֵין מַפְטִירִין בַּנָּבִיא, וְאֵין עוֹשִׂין מַעֲמָד וּמוֹשָׁב, וְאֵין אוֹמְרִים בִּרְכַּת אֲבֵלִים וְתַנְחוּמֵי אֲבֵלִים וּבִרְכַּת חֲתָנִים, וְאֵין מְזַמְּנִין בַּשֵּׁם, פָּחוֹת מֵעֲשָׂרָה. וּבַקַּרְקָעוֹת, תִּשְׁעָה וְכֹהֵן. וְאָדָם, כַּיּוֹצֵא בָּהֶן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá (Levítico) 22:32
וְנִקְדַּשְׁתִּי בְּתוֹךְ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל
E serei santificado no meio dos filhos de Israel.

A Guemará deriva de "no meio dos filhos de Israel" que todo ato considerado "algo de santidade" (דָּבָר שֶׁבִּקְדֻשָּׁה) exige um "meio" — uma congregação —, e o número mínimo dessa congregação é fixado por analogia com os dez espias que trouxeram o relatório negativo sobre a terra de Israel, chamados no versículo de "עֵדָה", "congregação" (Bamidbar 14:27). A partir dessa dupla derivação — a palavra "meio" ligada à santificação, e o número dez ligado ao termo "congregação" —, os sábios estenderam a exigência de quórum a toda a lista de atos elencados na mishná, unificando sob um único princípio elementos tão diversos quanto a oração pública, o luto, o casamento e a avaliação de bens sagrados.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que a avaliação de terras exige especificamente um sacerdote entre os dez.

Rambam · Perush HaMishná, Meguilá 4:3
אָמַר הַשֵּׁם וְנִקְדַּשְׁתִּי בְּתוֹךְ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל, וּבָאָה הַקַּבָּלָה כָּל דָּבָר שֶׁבִּקְדֻשָּׁה לֹא יִהְיֶה פָּחוֹת מֵעֲשָׂרָה.
Diz o versículo "e serei santificado no meio dos filhos de Israel", e a tradição recebida ensina, a partir dele, que todo ato considerado "algo de santidade" exige a presença de pelo menos dez homens. Quanto à exigência específica de um sacerdote entre os dez para a avaliação de terras consagradas, ela deriva do próprio texto que trata da consagração de campos, onde a palavra "cohen" aparece repetidamente ao longo da passagem — indicando que sua presença é indispensável em cada avaliação desse tipo, e não apenas facultativa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica os termos "maamad" e "moshav" no contexto de um funeral; Rashi detalha o significado técnico de "perisat Shemá" e por que os próprios enlutados não contam no quórum.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 4:3
אֵין פּוֹרְסִין עַל שְׁמַע וְאֵין עוֹבְרִין לִפְנֵי הַתֵּבָה כוּ׳: אָמַר הַשֵּׁם וְנִקְדַּשְׁתִּי בְּתוֹךְ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל.

"Não se recita o Shemá em comunidade, nem se passa diante da arca" e assim por diante: a fonte comum a toda essa lista é o versículo "e serei santificado no meio dos filhos de Israel" — todo ato que constitui "algo de santidade" exige, por essa razão, a presença mínima de dez homens adultos reunidos.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 4:3
אֵין עוֹשִׂין מַעֲמָד וּמוֹשָׁב. כְּשֶׁנּוֹשְׂאִין אֶת הַמֵּת לְקָבְרוֹ, הָיוּ יוֹשְׁבִין שֶׁבַע פְּעָמִים לִבְכּוֹת אֶת הַמֵּת, וְהָרוֹצֶה לְסָפְדוֹ סוֹפֵד.

"Nem se fazem os ritos de levantar e sentar" — quando se carregava o corpo do falecido a caminho do sepultamento, o cortejo parava e se sentava sete vezes para prantear o morto, e quem desejasse fazer a eulogia naquele momento a fazia; esse rito solene, envolvendo toda a comunidade reunida em torno do luto, também exige a presença mínima de dez homens para ser realizado.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Meguilá 23b
אֵין פּוֹרְסִין עַל שְׁמַע - מִנְיָן הַבָּא לְבֵית הַכְּנֶסֶת לְאַחַר שֶׁקָּרְאוּ הַצִּבּוּר אֶת שְׁמַע, עוֹמֵד אֶחָד וְאוֹמֵר קַדִּישׁ וּבָרְכוּ וּבְרָכָה רִאשׁוֹנָה שֶׁבִּקְרִיאַת שְׁמַע. אֵין אֲבֵלִים מִן הַמִּנְיָן - שֶׁהֲרֵי הוּא אוֹמֵר בְּרָכָה לַמְנַחֲמִים בִּפְנֵי עַצְמָן.

"Não se recita o Shemá em comunidade" — refere-se a um grupo que chega à sinagoga depois que a congregação já recitou o Shemá: um deles se levanta e recita o Kadish, o Barechu e a primeira bênção que precede o Shemá, repetindo assim, para o grupo tardio, a abertura formal da oração comunitária; e essa "partição" (perisá) exige a presença de dez homens naquele momento.

"Os enlutados não entram na contagem" — pois a bênção recitada é dirigida especificamente aos que vieram consolar, num texto próprio, e outra bênção é dirigida separadamente aos próprios enlutados — não se trata de uma bênção única que abrangeria a todos igualmente, e por isso os enlutados, destinatários e não participantes ativos do rito, não integram o quórum necessário.