Seder Moed · Massechet Meguilá · Perek Bet · Mishná 4 de 6

Quem é apto para ler, e o nascer do sol

הַכֹּל כְּשֵׁרִין לִקְרוֹת אֶת הַמְּגִלָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná define quem é apto para ler a Meguilá em nome do público e, em seguida, fixa o horário mínimo — o nascer do sol — para a leitura e para outras mitzvot diurnas afins.

Todos são aptos para ler a Meguilá, exceto o surdo-mudo, o louco e o menor. Rabi Yehudá considera apto o menor.Qualquer pessoa — inclusive mulheres, segundo a maioria das opiniões — pode ler a Meguilá para cumprir a obrigação pública, com exceção daqueles que não têm capacidade plena de compreensão e de obrigação nos preceitos: o surdo-mudo, o que não tem juízo, e o menor de idade que ainda não atingiu a maioridade religiosa. Rabi Yehudá discorda quanto ao menor e o considera apto.

Não se lê a Meguilá, nem se circuncida, nem se imerge, nem se asperge, e do mesmo modo a que guarda dia por dia não deve imergir, até que o sol tenha nascido. E todos esses que os fizeram desde que subiu a coluna da alva, são válidos.A leitura da Meguilá, a circuncisão, a imersão ritual e a aspersão da água de purificação só são válidas depois do nascer do sol; e, do mesmo modo, a mulher que aguarda um dia limpo após um fluxo não pode imergir antes do nascer do sol. Contudo, se qualquer uma dessas ações foi realizada já a partir do primeiro clarear da alva — antes mesmo do nascer do sol propriamente dito —, é considerada válida, pois esse momento já é tido como parte do dia.

הַכֹּל כְּשֵׁרִין לִקְרוֹת אֶת הַמְּגִלָּה, חוּץ מֵחֵרֵשׁ, שׁוֹטֶה, וְקָטָן. רַבִּי יְהוּדָה מַכְשִׁיר בְּקָטָן. אֵין קוֹרִין אֶת הַמְּגִלָּה, וְלֹא מָלִין, וְלֹא טוֹבְלִין, וְלֹא מַזִּין, וְכֵן שׁוֹמֶרֶת יוֹם כְּנֶגֶד יוֹם לֹא תִטְבֹּל, עַד שֶׁתָּנֵץ הַחַמָּה. וְכֻלָּן שֶׁעָשׂוּ מִשֶּׁעָלָה עַמּוּד הַשַּׁחַר, כָּשֵׁר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá (Levítico) 22:27
שׁוֹר אוֹ־כֶשֶׂב אוֹ־עֵז כִּי יִוָּלֵד וְהָיָה שִׁבְעַת יָמִים תַּחַת אִמּוֹ וּמִיּוֹם הַשְּׁמִינִי וָהָלְאָה יֵרָצֶה
Boi, ou cordeiro, ou cabra, quando nascer, estará sete dias sob sua mãe, e a partir do oitavo dia em diante será aceito.

A Guemará deriva a exigência de que a circuncisão ocorra somente depois do nascer do sol por analogia com o oitavo dia do animal recém-nascido, aplicando o princípio de que um "dia" completo, no cômputo dos preceitos, começa apenas com a luz do dia — e não antes. Para a Meguilá, a imersão e a aspersão, a Guemará estende o mesmo princípio: toda mitzvá cujo tempo próprio é "o dia" exige que se aguarde ao menos o alvorecer, o primeiro sinal de luz — "עַמּוּד הַשַּׁחַר" —, para que a ação seja considerada realizada dentro do dia, e não ainda dentro da noite anterior.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica que "todos" inclui as mulheres, e detalha o motivo de cada exceção listada na mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Meguilá 2:4
הַכֹּל, אֲפִלּוּ אִשָּׁה. וּכְבָר בֵּאַרְנוּ כִּי הַמְּגִלָּה נִקְרֵאת לֵיל פּוּרִים וְיוֹם פּוּרִים.
"Todos" — inclusive a mulher, que também está obrigada na leitura da Meguilá, pois também ela fez parte do milagre de Purim. E já explicamos anteriormente que a Meguilá é lida tanto na noite de Purim quanto no dia de Purim. O surdo-mudo é excluído porque não escuta a própria leitura nem pode articular as palavras com clareza suficiente; o louco, por não ter juízo pleno para se obrigar em preceitos; e o menor, por ainda não ter atingido a idade da responsabilidade religiosa — ainda que Rabi Yehudá o considere apto, por entender que a criança já capaz de compreender o que lê pode desincumbir os demais.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura identifica a opinião subjacente à mishná sobre o surdo-mudo; Rashi explica a diferença entre "o nascer do sol" e "a coluna da alva".

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 2:4
הַכֹּל, לְאַתּוֹיֵי נָשִׁים.

"Todos" — vem para incluir as mulheres, que também estão obrigadas na leitura da Meguilá, tal como os homens, por também terem feito parte do milagre de Purim.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 2:4
חוּץ מֵחֵרֵשׁ. מַתְנִיתִין רַבִּי יוֹסֵי הִיא דְּאָמַר הַקּוֹרֵא וְלֹא הִשְׁמִיעַ לְאָזְנָיו לֹא יָצָא.

"Exceto o surdo-mudo" — esta mishná segue a opinião de Rabi Yossei, que sustenta que mesmo quem lê corretamente mas não faz seus próprios ouvidos escutarem as palavras não cumpre a obrigação; por isso o surdo-mudo, que não escuta o que fala, está excluído de ler em nome dos outros — e a mesma lógica, segundo essa opinião, invalidaria até mesmo sua própria leitura para si mesmo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Meguilá 20a
וְלֹא טוֹבְלִין - מִשֶּׁיַּגִּיעַ שְׁבִיעִי לְזָב וּלְטָמֵא מֵת אֵין אוֹמְרִים מִשֶּׁחֲשֵׁכָה בִּכְנִיסַת שְׁבִיעִי רָאוּי לִטְבֹּל, אַף עַל גַּב דְּלַיְלָה תְּחִלַּת יוֹם הִיא, הָכָא יוֹם בָּעֵינַן. עַד הָנֵץ הַחַמָּה - שֶׁיֵּצֵא מִסָּפֵק לַיְלָה.

"Nem se imerge" — quando chega o sétimo dia para quem contraiu impureza do fluxo ou do contato com um cadáver, não se diz que, já ao entardecer do início desse sétimo dia, é apropriado imergir; embora normalmente a noite seja considerada o início do dia seguinte, aqui exige-se especificamente "dia" — luz plena — e não apenas a entrada formal da noite.

"Até que o sol tenha nascido" — para que se saia completamente da dúvida de ainda estar na noite anterior; mas quem agiu já a partir do "עַמּוּד הַשַּׁחַר", o primeiro clarear visível do céu antes do nascer do sol propriamente dito, já é considerado ter agido de dia, pois esse momento, embora anterior ao nascer do sol, não deixa mais dúvida quanto a pertencer ao novo dia.