Aquele que come dos primeiros frutos antes de recitar sobre eles [a declaração]; das ofertas de santidade suprema fora das cortinas; das ofertas de santidade menor ou do segundo dízimo fora do muro; aquele que quebra o osso do sacrifício pascal puro — este é açoitado com quarenta. Mas aquele que deixa sobrar do puro, e aquele que quebra do impuro, não é açoitado com quarenta. — Esta mishná continua a lista de transgressões rituais, agora especificamente ligadas ao momento e ao lugar certos do consumo sacrificial. Comer os bikurim (primeiros frutos) antes de recitar sobre eles a declaração bíblica prescrita (Devarim 26) é proibido; do mesmo modo, consumir ofertas de santidade suprema fora do pátio interno do Templo, ou ofertas de santidade menor e o segundo dízimo fora dos muros de Jerusalém. A mishná acrescenta quebrar o osso do sacrifício pascal ainda puro (não consumido em estado de impureza) — todas essas transgressões resultam nos quarenta açoites. Mas a mishná traça uma distinção sutil: quem simplesmente deixa sobrar carne pura do sacrifício pascal além do horário permitido, ou quem quebra o osso de um sacrifício pascal que já se tornara impuro, não recebe os quarenta açoites — porque, como a Guemará explica, nesses dois casos a Torá já forneceu um mandamento positivo alternativo (queimar o que sobrou), transformando a proibição em um "lav sheniতak leasse", que não gera açoite quando o positivo ainda pode ser cumprido.
Rambam classifica as quatro primeiras transgressões como proibições simples, sujeitas a açoite. Já os dois casos finais — deixar sobrar carne pura além do prazo, ou quebrar osso de sacrifício impuro — são explicados como exemplos da quarta categoria de sua introdução (3:1): proibições "desviadas" para um mandamento positivo. A Torá, ao proibir deixar sobras, também ordena queimá-las (mandamento positivo); enquanto esse positivo ainda puder ser cumprido, não há açoite pela violação do negativo.
Bartenura confirma a explicação de Rambam: "santidade suprema fora das cortinas" refere-se a comer no tempo em que havia o Mishcán (Tabernáculo portátil), fora das cortinas que o cercavam. E o motivo pelo qual deixar sobras ou quebrar osso de animal impuro não gera açoite é que, para ambos, a Torá prescreve um mandamento positivo de queima — e proibição desviada para positivo não gera açoite.
Rashi localiza a fonte da obrigação de recitar antes de comer os bikurim no versículo "um arameu errante era meu pai" — a própria declaração bíblica que acompanha a oferenda. Explica que "santidade suprema fora das cortinas" também se aplica retroativamente à época do Tabernáculo portátil no deserto, quando cortinas (e não muros de pedra) demarcavam o espaço sagrado. E cita o tratado Pessachim: o versículo "e osso não quebrareis nele" (Shemot 12) refere-se apenas ao sacrifício pascal em estado de pureza (kasher), não ao que se tornou impuro.