Seder Nezikin · Massechet Makot · Perek Guimel · Mishná 3 de 16

Bikurim, ofertas fora do lugar e o osso do sacrifício pascal

הָאוֹכֵל בִּכּוּרִים עַד שֶׁלֹּא קָרָא עֲלֵיהֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata de mais um grupo de transgressões ligadas aos sacrifícios — comer antes da declaração devida, comer fora do lugar designado, e quebrar o osso do sacrifício pascal — com uma distinção final entre o que é punido com os quarenta açoites e o que não é.

Aquele que come dos primeiros frutos antes de recitar sobre eles [a declaração]; das ofertas de santidade suprema fora das cortinas; das ofertas de santidade menor ou do segundo dízimo fora do muro; aquele que quebra o osso do sacrifício pascal puro — este é açoitado com quarenta. Mas aquele que deixa sobrar do puro, e aquele que quebra do impuro, não é açoitado com quarenta.Esta mishná continua a lista de transgressões rituais, agora especificamente ligadas ao momento e ao lugar certos do consumo sacrificial. Comer os bikurim (primeiros frutos) antes de recitar sobre eles a declaração bíblica prescrita (Devarim 26) é proibido; do mesmo modo, consumir ofertas de santidade suprema fora do pátio interno do Templo, ou ofertas de santidade menor e o segundo dízimo fora dos muros de Jerusalém. A mishná acrescenta quebrar o osso do sacrifício pascal ainda puro (não consumido em estado de impureza) — todas essas transgressões resultam nos quarenta açoites. Mas a mishná traça uma distinção sutil: quem simplesmente deixa sobrar carne pura do sacrifício pascal além do horário permitido, ou quem quebra o osso de um sacrifício pascal que já se tornara impuro, não recebe os quarenta açoites — porque, como a Guemará explica, nesses dois casos a Torá já forneceu um mandamento positivo alternativo (queimar o que sobrou), transformando a proibição em um "lav sheniতak leasse", que não gera açoite quando o positivo ainda pode ser cumprido.

הָאוֹכֵל בִּכּוּרִים עַד שֶׁלֹּא קָרָא עֲלֵיהֶן, קָדְשֵׁי קָדָשִׁים חוּץ לַקְּלָעִים, קָדָשִׁים קַלִּים וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי חוּץ לַחוֹמָה, הַשּׁוֹבֵר אֶת הַעֶצֶם בַּפֶּסַח הַטָּהוֹר, הֲרֵי זֶה לוֹקֶה אַרְבָּעִים. אֲבָל הַמּוֹתִיר בַּטָּהוֹר וְהַשּׁוֹבֵר בַּטָּמֵא, אֵינוֹ לוֹקֶה אַרְבָּעִים:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Devarim 26:5 — a declaração dos primeiros frutos
וְעָנִיתָ וְאָמַרְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ, אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי...
"E responderás e dirás perante Hashem teu D'us: um arameu errante era meu pai..."
Aplicação na mishná: a Guemará deriva desta passagem que os bikurim não podem ser consumidos pelo sacerdote antes que o dono os traga ao Templo e recite esta declaração — a santidade plena dos frutos só se completa com a leitura.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Makot 3:3
הָאוֹכֵל בִּכּוּרִים עַד שֶׁלֹּא קָרָא עֲלֵיהֶן כו': כָּל אֵלֶּה לָאוִין גְּרֵידִין. אֲבָל הַמּוֹתִיר בַּטָּהוֹר וְהַשּׁוֹבֵר בַּטָּמֵא, לָאו שֶׁנִּתַּק לַעֲשֵׂה הוּא — שֶׁהֲרֵי בָּא הַכָּתוּב לִתֵּן עֲשֵׂה שֶׁל שְׂרֵפָה אַחַר לֹא תַעֲשֶׂה, וְאֵין לוֹקִין עַל לָאו שֶׁנִּתַּק לַעֲשֵׂה.

Rambam classifica as quatro primeiras transgressões como proibições simples, sujeitas a açoite. Já os dois casos finais — deixar sobrar carne pura além do prazo, ou quebrar osso de sacrifício impuro — são explicados como exemplos da quarta categoria de sua introdução (3:1): proibições "desviadas" para um mandamento positivo. A Torá, ao proibir deixar sobras, também ordena queimá-las (mandamento positivo); enquanto esse positivo ainda puder ser cumprido, não há açoite pela violação do negativo.

Bartenura · Makot 3:3
קָדְשֵׁי קָדָשִׁים חוּץ לַקְּלָעִים. אוֹ שֶׁאֲכָלָן בִּזְמַן הַמִּשְׁכָּן חוּץ לַקְּלָעִים: הַמּוֹתִיר בַּטָּהוֹר וְהַשּׁוֹבֵר בַּטָּמֵא אֵינוֹ לוֹקֶה אַרְבָּעִים. דְּהָנְהוּ לָאו שֶׁנִּתַּק לַעֲשֵׂה נִינְהוּ, דִּכְתִיב בְּהוּ קְרָא לְשָׂרְפָה: וְלָאו שֶׁנִּתַּק לַעֲשֵׂה אֵין לוֹקִין עָלָיו.

Bartenura confirma a explicação de Rambam: "santidade suprema fora das cortinas" refere-se a comer no tempo em que havia o Mishcán (Tabernáculo portátil), fora das cortinas que o cercavam. E o motivo pelo qual deixar sobras ou quebrar osso de animal impuro não gera açoite é que, para ambos, a Torá prescreve um mandamento positivo de queima — e proibição desviada para positivo não gera açoite.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Makkot 17a, s.v. מתני' עד שלא קרא עליהן; קדשי קדשים חוץ לקלעים; המותיר בטהור אינו לוקה; השובר
מַתְנִי' עַד שֶׁלֹּא קָרָא עֲלֵיהֶן — "אֲרַמִּי אֹבֵד" וְגוֹ', וּבַגְּמָרָא יָלֵיף הֵיכָן הֻזְהַר: קָדְשֵׁי קָדָשִׁים חוּץ לַקְּלָעִים — אוֹ שֶׁאָכַל קָדְשֵׁי קָדָשִׁים בִּזְמַן מִשְׁכָּן חוּץ לַקְּלָעִים, וּבַגְּמָרָא מְפָרֵשׁ הֵיכָן מֻזְהָר: הַמּוֹתִיר בַּטָּהוֹר אֵינוֹ לוֹקֶה — כִּדְאָמַר לְעֵיל, בָּא הַכָּתוּב לִתֵּן עֲשֵׂה אַחַר לֹא תַעֲשֶׂה כו': הַשּׁוֹבֵר — עֶצֶם בַּטָּמֵא, כִּדְאָמְרִינַן בְּפֶסָחִים "וְעֶצֶם לֹא תִשְׁבְּרוּ בוֹ" — בְּכָשֵׁר וְלֹא בְפָסוּל.

Rashi localiza a fonte da obrigação de recitar antes de comer os bikurim no versículo "um arameu errante era meu pai" — a própria declaração bíblica que acompanha a oferenda. Explica que "santidade suprema fora das cortinas" também se aplica retroativamente à época do Tabernáculo portátil no deserto, quando cortinas (e não muros de pedra) demarcavam o espaço sagrado. E cita o tratado Pessachim: o versículo "e osso não quebrareis nele" (Shemot 12) refere-se apenas ao sacrifício pascal em estado de pureza (kasher), não ao que se tornou impuro.