Seder Nezikin · Massechet Makot · Perek Bet · Mishná 5 de 8

Os caminhos alinhados e os dois discípulos

וּמְכֻוָּנוֹת לָהֶן דְּרָכִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná descreve duas providências práticas para proteger o exilado em fuga: a infraestrutura de caminhos alinhados e sinalizados até as cidades de refúgio, e a escolta de dois discípulos dos sábios encarregados de dissuadir o vingador do sangue, caso o encontrasse pelo caminho.

E eram alinhados para elas caminhos de uma à outra, como está dito (Devarim 19): "prepararás para ti o caminho, e dividirás" etc. E entregavam-lhes dois discípulos dos sábios, para que, caso [o vingador do sangue] o matasse no caminho, eles falassem com ele. Rabi Meir diz: também ele mesmo fala por si, como está dito (ibid.): "e este é o caso do homicida".A infraestrutura de acesso às cidades de refúgio não era deixada ao acaso: os caminhos até elas eram deliberadamente alinhados e mantidos em boas condições — largos, sem obstáculos, e sinalizados em cada bifurcação com placas indicando "refúgio, refúgio", para que o fugitivo, em pânico e correndo por sua vida, não se perdesse buscando o caminho certo. Além disso, temendo que o vingador do sangue alcançasse o homicida ainda em trânsito — antes de chegar à proteção da cidade — o tribunal designava dois discípulos dos sábios para acompanhá-lo, prontos para interceder junto ao vingador e dissuadi-lo de cometer um homicídio ilegítimo contra alguém que agiu por erro genuíno. Rabi Meir acrescenta que o próprio exilado, e não apenas seus acompanhantes, tem o direito — e a responsabilidade — de argumentar por si mesmo em sua própria defesa, derivando isso da expressão "este é o caso [devar, também "a fala"] do homicida", que ele lê como autorizando o próprio condenado a "falar" (ledaber) por si.

וּמְכֻוָּנוֹת לָהֶן דְּרָכִים מִזּוֹ לָזוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (דברים יט) תָּכִין לְךָ הַדֶּרֶךְ וְשִׁלַּשְׁתָּ וְגוֹ'. וּמוֹסְרִין לָהֶן שְׁנֵי תַלְמִידֵי חֲכָמִים, שֶׁמָּא יַהַרְגֶנּוּ בַדֶּרֶךְ, וִידַבְּרוּ אֵלָיו. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, אַף הוּא מְדַבֵּר עַל יְדֵי עַצְמוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (שם) וְזֶה דְּבַר הָרֹצֵחַ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Devarim 19:3 — a preparação dos caminhos
תָּכִין לְךָ הַדֶּרֶךְ וְשִׁלַּשְׁתָּ אֶת גְּבוּל אַרְצְךָ אֲשֶׁר יַנְחִילְךָ יְהֹוָה אֱלֹהֶיךָ, וְהָיָה לָנוּס שָׁמָּה כָּל רֹצֵחַ.
"Prepararás para ti o caminho, e dividirás em três partes o território de tua terra, que o Eterno teu Deus te dará por herança, para que todo homicida tenha para onde fugir."
Aplicação na mishná: a mishná lê "prepararás o caminho" não apenas como a divisão territorial em três zonas equidistantes das cidades de refúgio, mas como um mandamento ativo de manutenção da infraestrutura viária — alinhar, alargar e sinalizar os caminhos, para que o fugitivo os percorra sem obstáculo nem hesitação.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Makot 2:5
וּמְכֻוָּנוֹת לָהֶן דְּרָכִים מִזּוֹ לָזוֹ שֶׁנֶּאֱמַר תָּכִין לְךָ כו': אָמְרוּ וִידַבְּרוּ אֵלָיו, רְצוֹנוֹ לוֹמַר שֶׁהֵם יְדַבְּרוּ לְגוֹאֵל הַדָּם אִם בִּקֵּשׁ הָרוֹצֵחַ, וְיֹאמְרוּ לוֹ בִּשְׁגָגָה הָרַג וְאָסוּר לְהָרְגוֹ בְּשָׁלוֹם, וּמַה שֶּׁרָאוּי לְדַבֵּר לוֹ כְּדֵי לְשַׁכֵּךְ חֲמָתוֹ: וְר"מ אוֹמֵר אֵינָם חַיָּבִין לְהִטַּפֵּל בָּזֶה אֶלָּא הוּא יִטְעָן לְהַצִּיל עַצְמוֹ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר.

Rambam explica o conteúdo concreto do que os dois discípulos diriam ao vingador do sangue, caso este perseguisse o exilado: que se tratou de um homicídio por engano genuíno, e que, portanto, é proibido matá-lo "em paz" — isto é, fora do contexto legítimo da caçada ao homicida que ainda não chegou à cidade de refúgio — dizendo tudo o que fosse apropriado para acalmar sua ira. Sobre Rabi Meir, esclarece que sua posição é que os discípulos não têm obrigação de se encarregar dessa intercessão — cabe ao próprio homicida argumentar por sua própria salvação. A halachá não segue Rabi Meir.

Bartenura · Makot 2:5
וּמְכֻוָּנוֹת הָיוּ לָהֶן הַדְּרָכִים. שֶׁהָיוּ עוֹשִׂים הַדְּרָכִים שֶׁיְּהוּ מְכֻוָּנוֹת לְעָרֵי מִקְלָט, שֶׁלֹּא יְהֵא הָרוֹצֵחַ תּוֹעֶה בַדֶּרֶךְ. וּמִקְלָט מִקְלָט הָיָה כָתוּב עַל פָּרָשַׁת דְּרָכִים, כְּדֵי שֶׁיַּכִּיר הָרוֹצֵחַ וְיִפְנֶה לְשָׁם: וִידַבְּרוּ אֵלָיו. מְדַבְּרִים לְגוֹאֵל הַדָּם, אַל תִּנְהַג מִנְהָג שֶׁל שׁוֹפְכֵי דָמִים, בִּשְׁגָגָה בָא מַעֲשֶׂה זֶה לְיָדוֹ: הוּא מְדַבֵּר עַל יְדֵי עַצְמוֹ. אֵין תַּלְמִידֵי חֲכָמִים נִזְקָקִין לְדַבֵּר לְגוֹאֵל הַדָּם בַּעֲבוּרוֹ, אֶלָּא הוּא טוֹעֵן טַעֲנוֹת לְעַצְמוֹ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר:

Bartenura acrescenta o detalhe vívido da sinalização: em cada bifurcação de caminhos estava escrita a palavra "refúgio, refúgio" (miklat miklat), repetida, para que o homicida em fuga a reconhecesse de longe e se voltasse na direção certa sem hesitar. Sobre a mensagem dos discípulos, resume seu conteúdo essencial: "não aja como os derramadores de sangue costumam agir — este ato lhe ocorreu por engano". E confirma que a halachá não segue Rabi Meir: a obrigação de intercessão recai sobre os discípulos designados, não apenas sobre o próprio homicida.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Makkot 9b-10b, s.v. וידברו אליו; בתחלה; מקלט היה כתוב על פרשת דרכים
וִידַבְּרוּ אֵלָיו — אֶל גּוֹאֵל הַדָּם, וְאוֹמְרִין לוֹ אַל תִּנְהַג בּוֹ מִנְהַג שׁוֹפְכֵי דָמִים, בְּשׁוֹגֵג בָּא מַעֲשֶׂה לְיָדוֹ: בַּתְּחִלָּה — כְּלוֹמַר תְּחִלַּת מִשְׁפַּט כָּל הָרוֹצְחִים, וַאֲפִלּוּ מְזִידִין, וְיָלֵיף טַעְמָא בְּסִפְרָא דְבֵי רַב מֵ"וְאָרַב לוֹ" וְגוֹ' "וְנָס אֶל אַחַת" וְגוֹ': מִקְלָט הָיָה כָתוּב עַל פָּרָשַׁת דְּרָכִים — בְּכָל מָקוֹם שֶׁהָיוּ שְׁנֵי דְרָכִים מְפֻצָּלִים, אֶחָד פּוֹנֶה לְעִיר מִקְלָט, הָיָה עֵץ תָּקוּעַ בְּאוֹתוֹ דֶּרֶךְ וְכָתוּב בּוֹ "מִקְלָט":

Rashi confirma que "falarão a ele" refere-se ao vingador do sangue, com a mensagem específica de que não deve tratar o exilado como um derramador de sangue comum — o ato lhe sobreveio por engano. Sobre a sinalização das encruzilhadas, descreve o mecanismo físico: em cada bifurcação onde um dos caminhos levava a uma cidade de refúgio, havia um marco de madeira fincado no chão com a palavra "refúgio" escrita nele, para orientar o fugitivo. Rashi observa ainda, a propósito de um ensinamento paralelo, que a expressão "no princípio" (relevante à mishná seguinte) refere-se ao procedimento inicial de julgamento de todos os homicidas — incluindo os intencionais — derivado por midrash do versículo sobre a emboscada e a fuga à cidade de refúgio.