A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Depois de definir quem tem direito ao exílio, a mishná volta-se ao destino: as seis cidades de refúgio, três de cada lado do Jordão — e a condição de que elas só funcionam plenamente como um conjunto único de seis.
Para onde são exilados? Para as cidades de refúgio: para as três que estão além do Jordão, e para as três que estão na terra de Canaã, como está dito (Bamidbar 35): "três cidades dareis além do Jordão, e três cidades dareis na terra de Canaã" etc. Enquanto não haviam sido escolhidas as três que estão na Terra de Israel, as três que estão além do Jordão não recebiam, como está dito (ibid.): "seis cidades de refúgio serão" — até que as seis estivessem recebendo como uma só. — Moshé já havia designado as três cidades de refúgio na margem oriental do Jordão (Devarim 4:41-43), anos antes de Israel atravessar o rio e conquistar a Terra de Israel propriamente dita, onde Yehoshua designaria as outras três (Yehoshua 20:7-8). A mishná esclarece, porém, que essa designação antecipada não bastava para tornar aquelas três cidades operacionais: enquanto as três da Terra de Israel ainda não haviam sido formalmente escolhidas, nenhum homicida involuntário encontrava refúgio nas três do outro lado do Jordão — mesmo já designadas havia tempo. A razão está no próprio versículo, que fala das "seis cidades de refúgio" como uma unidade indivisível: o sistema de refúgio só entra em vigor quando as seis cidades, juntas, estão prontas para receber fugitivos simultaneamente — não antes, ainda que parte delas já estivesse tecnicamente designada.
לְהֵיכָן גּוֹלִין, לְעָרֵי מִקְלָט. לַשָּׁלשׁ שֶׁבְּעֵבֶר הַיַּרְדֵּן וְלַשָּׁלשׁ שֶׁבְּאֶרֶץ כְּנַעַן, שֶׁנֶּאֱמַר (במדבר לה) אֵת שְׁלשׁ הֶעָרִים תִּתְּנוּ מֵעֵבֶר לַיַּרְדֵּן וְאֵת שְׁלשׁ הֶעָרִים תִּתְּנוּ בְּאֶרֶץ כְּנָעַן וְגוֹ'. עַד שֶׁלֹּא נִבְחֲרוּ שָׁלשׁ שֶׁבְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, לֹא הָיוּ שָׁלשׁ שֶׁבְּעֵבֶר הַיַּרְדֵּן קוֹלְטוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר (שם) שֵׁשׁ עָרֵי מִקְלָט תִּהְיֶינָה, עַד שֶׁיִּהְיוּ שֶׁשְׁתָּן קוֹלְטוֹת כְּאֶחָד:
Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Bamidbar 35:13-15 — as seis cidades de refúgio
וְהֶעָרִים אֲשֶׁר תִּתֵּנוּ, שֵׁשׁ עָרֵי מִקְלָט תִּהְיֶינָה לָכֶם. אֵת שְׁלשׁ הֶעָרִים תִּתְּנוּ מֵעֵבֶר לַיַּרְדֵּן, וְאֵת שְׁלשׁ הֶעָרִים תִּתְּנוּ בְּאֶרֶץ כְּנָעַן, עָרֵי מִקְלָט תִּהְיֶינָה. לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל וְלַגֵּר וְלַתּוֹשָׁב בְּתוֹכָם תִּהְיֶינָה שֵׁשׁ הֶעָרִים הָאֵלֶּה לְמִקְלָט, לָנוּס שָׁמָּה כָּל מַכֵּה נֶפֶשׁ בִּשְׁגָגָה.
"E as cidades que dareis serão seis cidades de refúgio para vós. Três cidades dareis além do Jordão, e três cidades dareis na terra de Canaã — cidades de refúgio serão. Para os filhos de Israel, e para o proselitado, e para o residente entre eles, servirão estas seis cidades de refúgio, para que fuja para lá todo aquele que matar uma pessoa por engano."
Aplicação na mishná: a mishná extrai da expressão "seis cidades de refúgio serão" a condição de que as seis funcionam como uma unidade jurídica única — nenhuma delas recebe fugitivos plenamente até que todas as seis estejam designadas e operacionais, ainda que a designação das três do outro lado do Jordão tenha ocorrido cronologicamente antes da conquista da Terra de Israel propriamente dita.
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam · Perush HaMishná, Makot 2:4
לְהֵיכָן גּוֹלִין לְעָרֵי מִקְלָט לְשָׁלשׁ שֶׁבְּעֵבֶר הַיַּרְדֵּן כו': וְכֵן הַשְּׁתַּיִם וְאַרְבָּעִים עִיר עָרֵי הַלְוִיִּם כֻּלָּם קוֹלְטוֹת, אֶלָּא שֶׁאֵלֶּה הַשֵּׁשׁ כָּל מִי שֶׁנִּכְנַס לְשָׁם בֵּין בְּכַוָּנָה בֵּין שֶׁלֹּא בְּכַוָּנָה נִצּוֹל, וְאוֹתָן אִם הִגִּיעַ בְּאַחַת מֵהֶן וְיָדַע שֶׁהִיא קוֹלֶטֶת תַּצִּילֵהוּ, וְאִם אֵינוֹ יוֹדֵעַ שֶׁהִיא קוֹלֶטֶת אֵינָהּ מַצִּילָתוֹ, אֶלָּא הוֹרֵג אוֹתוֹ גּוֹאֵל הַדָּם שָׁם.
Rambam acrescenta um dado importante, ausente da mishná: além das seis cidades de refúgio propriamente ditas, as quarenta e duas outras cidades levíticas espalhadas pelo país também recebiam fugitivos — mas com uma diferença crucial. Nas seis cidades de refúgio, qualquer pessoa que ali entrasse estava protegida, quer soubesse, quer não soubesse que aquele era um lugar de refúgio. Nas outras quarenta e duas cidades levíticas, a proteção só se aplicava a quem sabia conscientemente que aquela cidade oferecia refúgio; quem chegasse ali por acaso, sem saber disso, não estava protegido, e o vingador do sangue poderia matá-lo ali mesmo sem incorrer em culpa.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Makot 2:4
לְהֵיכָן גּוֹלִין לְעָרֵי מִקְלָט. וְאַרְבָּעִים וּשְׁתַּיִם עִיר שֶׁל לְוִיִּים נַמִּי כֻּלָּן קוֹלְטוֹת. אֶלָּא שֶׁאֵלּוּ שֵׁשׁ עָרֵי מִקְלָט בֵּין נִכְנָס שָׁם רוֹצֵחַ לְדַעַת שֶׁתִּקְלְטֶנּוּ וּבֵין נִכְנָס שֶׁלֹּא לְדַעַת, קוֹלְטוֹת. וּשְׁתַּיִם וְאַרְבָּעִים עִיר, לְדַעַת קוֹלְטוֹת, שֶׁלֹּא לְדַעַת אֵינָן קוֹלְטוֹת, וְאִם הֲרָגוֹ גּוֹאֵל הַדָּם לְשָׁם, פָּטוּר:
Bartenura confirma e detalha a distinção de Rambam entre as duas categorias de cidades levíticas: as seis cidades de refúgio propriamente ditas recebem o homicida involuntário quer ele tenha entrado sabendo que ali estaria protegido, quer tenha chegado por puro acaso, sem saber disso. Já as outras quarenta e duas cidades levíticas só oferecem essa proteção a quem entrou conscientemente em busca de refúgio; se o vingador do sangue o mata ali por não saber que a cidade também acolhia fugitivos, ele está isento.
Rashi · רש״י
Makkot 9b, s.v. מתני' עד שלא נבחרו שלש שבארץ כנען; לא היו שלש
מַתְנִי' עַד שֶׁלֹּא נִבְחֲרוּ שָׁלשׁ שֶׁבְּאֶרֶץ כְּנַעַן — הַיְנוּ כָּל אַרְבַּע עֶשְׂרֵה שֶׁכָּבְשׁוּ וְחָלְקוּ, וְאַחַר כָּךְ הִבְדִּילָן יְהוֹשֻׁעַ: לֹא הָיוּ שָׁלשׁ — שֶׁהִבְדִּיל מֹשֶׁה בְּעֵבֶר הַיַּרְדֵּן קוֹלְטוֹת:
Rashi situa cronologicamente o processo: refere-se ao intervalo entre a conquista e a divisão de toda a Terra de Israel — as quatorze porções conquistadas e repartidas entre as tribos — e o momento posterior em que Yehoshua efetivamente separou e designou as três cidades de refúgio dentre elas. Até essa designação específica ocorrer, confirma Rashi, as três cidades já separadas por Moshé na margem oriental do Jordão ainda não recebiam fugitivos.