Seder Zeraim · Massechet Maasrot · Perek Heh · Mishná 2

"Quem arranca nabos e rabanetes"

הָעוֹקֵר לֶפֶת וּצְנוֹנוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Contraste com a mishná anterior: ali, transplantar mudas com o fruto ainda preso não fixava a obrigação; aqui, arrancar nabos e rabanetes com o propósito específico de plantá-los para produzir semente é equiparado ao "granário" que fixa definitivamente o dízimo, pois o próprio ato de arrancar já é seu momento de conclusão como alimento

Quem arranca nabos e rabanetes de dentro do seu (terreno) e planta dentro do seu (próprio terreno, mas desta vez) para semente, é obrigado a dizimar, pois isso é o seu granário (o momento do arrancamento equivale ao processamento final que fixa a obrigação, já que, uma vez destinados à semeadura, não terão outro "granário" — a semente em si é isenta do dízimo, e por isso o arrancamento da raiz comestível é o único ponto em que a obrigação pode se fixar). Se cebolas criaram raízes num sótão, ficam puras de impureza (pois, uma vez enraizadas, a Torá as considera novamente "semeadas" e por isso imunes à impureza que afeta alimentos, embora continuem sujeitas ao dízimo e ao ano sabático como produto já destacado). Se caiu sobre elas um desmoronamento e ficaram descobertas, eis que são como plantadas no campo (pois, expostas à luz e ao ar como se estivessem no solo aberto, retomam plenamente o estatuto de produto agrícola em crescimento).

הָעוֹקֵר לֶפֶת וּצְנוֹנוֹת מִתּוֹךְ שֶׁלּוֹ וְנוֹטֵעַ לְתוֹךְ שֶׁלּוֹ לְזֶרַע, חַיָּב, מִפְּנֵי שֶׁהוּא גָרְנָן. בְּצָלִים, מִשֶּׁהִשְׁרִישׁוּ בָּעֲלִיָּה, טָהֲרוּ מִלְּטַמֵּא. נָפְלָה עֲלֵיהֶם מַפֹּלֶת וְהֵם מְגֻלִּים, הֲרֵי אֵלּוּ כִּנְטוּעִים בַּשָּׂדֶה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná aprofunda o princípio do "granário" (gornan lamaasrot), já introduzido no Perek Alef, aplicando-o ao caso de raízes comestíveis replantadas com propósito de produzir semente — situação em que o arrancamento, e não a colheita final, é o único momento em que a obrigação pode se fixar.

Vayikrá (Levítico) 27:30
וְכָל מַעְשַׂר הָאָרֶץ מִזֶּרַע הָאָרֶץ מִפְּרִי הָעֵץ, לַה' הוּא, קֹדֶשׁ לַה'.
"E todo o dízimo da terra, da semente da terra, do fruto da árvore, é do Eterno; é santo ao Eterno" (Vayikrá 27:30) — a tradição ensinou, a partir da expressão "da semente da terra", que a própria semente destinada à plantação (zera) está isenta do dízimo, já que não é ainda "produção" pronta para consumo. Por isso, quando o dono do nabo ou do rabanete arranca a raiz comestível com a intenção específica de replantá-la para obter dela sementes, esse ato de arrancar é o único ponto em que a obrigação pode se fixar — pois, uma vez plantada para esse fim, a raiz nunca mais passará por um "granário" no sentido convencional. Já as cebolas enraizadas num sótão ilustram um princípio complementar, derivado de Vayikrá 11:37-38: aquilo que é lançado sobre semente para semeadura (zera zeruah) permanece "puro" de impureza alimentar, mesmo que a própria semente já tenha sido molhada — princípio que a mishná estende às cebolas que, ao criar raízes, retomam juridicamente o estatuto de "semeadas".

Por que o arrancar (e não uma etapa posterior) fixa a obrigação neste caso? Em quase todos os demais casos do tratado, a obrigação do dízimo se fixa apenas no "granário" — o momento em que o processamento do produto está concluído e ele se torna definitivamente pronto para consumo, como a debulha do trigo ou a prensagem do azeite. Mas nabos e rabanetes replantados para produzir semente nunca passarão por esse processamento: a raiz comestível será sacrificada em favor da semente, que por sua vez é isenta do dízimo. Por isso os sábios decretaram que, neste caso específico, o próprio ato de arrancar a raiz do solo original — o momento em que ela deixa de crescer como alimento e passa a ser tratada como matéria-prima para semeadura — cumpre a função do "granário", fixando a obrigação ali mesmo, pois é a última oportunidade em que a raiz existe como produto agrícola comestível antes de ser convertida irreversivelmente em semente.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta mishná em Hilchot Ma'aser (Mishné Torá), capítulo 6, e em Hilchot Ma'aser 1, no caso das cebolas enraizadas.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Ma'aser 6:3
וְכֵן הָעוֹקֵר לֶפֶת וּצְנוֹנוֹת וּשְׁתָלָם בְּמָקוֹם אַחֵר אִם נִתְכַּוֵּן לְהוֹסִיף בְּגוּפָן מֻתָּר. וְאִם שְׁתָלָן כְּדֵי שֶׁיְּקַשּׁוּ וְיִקַּח הַזֶּרַע שֶׁלָּהֶן אָסוּר מִפְּנֵי שֶׁהוּא כְּזוֹרֵעַ חִטִּים אוֹ שְׂעוֹרִים שֶׁל טֶבֶל.
"E do mesmo modo, quem arranca nabo e rabanete e os replanta noutro lugar: se sua intenção é aumentar o próprio corpo da raiz, é permitido. Mas se os replantou para que endureçam e ele tome deles a semente, é proibido, pois isso é como semear trigo ou cevada ainda obrigados (tevel)" (o Rambam distingue com precisão a intenção do agricultor: replantar para engordar a raiz continua sendo produto em crescimento — isento até a colheita final; mas replantar visando à semente equivale a "semear tevel", proibido até que se dizime primeiro — o que confirma o fundamento da mishná: como não haverá outro granário, o próprio arrancamento com essa intenção já fixa a obrigação).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Ma'aser 1:11
בְּצָלִים שֶׁהִשְׁרִישׁוּ זֶה בְּצַד זֶה אֲפִלּוּ הִשְׁרִישׁוּ בְּקַרְקַע עֲלִיָּה פְּטוּרִין מִן הַמַּעַשְׂרוֹת. נָפְלָה עֲלֵיהֶן מַפּלֶת וַהֲרֵי הֵן מְגֻלִּין הֲרֵי אֵלּוּ כִּנְטוּעִין בַּשָּׂדֶה וְחַיָּבִין בְּמַעַשְׂרוֹת.
"Cebolas que criaram raízes uma ao lado da outra, mesmo que tenham enraizado em piso de sótão, estão isentas dos dízimos. Se caiu sobre elas um desmoronamento e ficaram descobertas, eis que são como plantadas no campo, e obrigadas aos dízimos" (o Rambam reproduz quase literalmente o segundo e terceiro casos desta mishná, tratando-os como halachá assentada; note-se que aqui a isenção é do dízimo propriamente — a "pureza de impureza" mencionada na mishná refere-se especificamente às leis de tumat ochlin, tratadas em Hilchot Tumat Ochlin).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 5:2
אִם לְזֶרַע חַיָּב. עִנְיָנוֹ שֶׁאִם הָיְתָה כַּוָּנָתוֹ לִקַּח מִמֶּנּוּ הַזֶּרַע אָסוּר לְנָטְעָהּ עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר, לְפִי שֶׁעֲקִירָתָהּ מִן הַקַּרְקַע הוּא גָּרְנָהּ שֶׁיִּקְבַּע אוֹתָם לְמַעֲשֵׂר. וְאִם כַּוָּנָתוֹ בִּנְטִיעָתָהּ לְהוֹסִיף, אֵינוֹ חַיָּב, לְפִי שֶׁלֹּא נִקְבְּעוּ וְלֹא נִגְמְרוּ לְמַעֲשְׂרוֹת. בְּצָלִים שֶׁהִשְׁרִישׁוּ בָעֲלִיָּה טָהֲרוּ מִלְּטַמֵּא, לְפִי שֶׁאֵינָם אֹכֶל וּכְבָר נִפְסְדוּ. נָפְלָה עֲלֵיהֶם מַפֹּלֶת וְהֵם מְגֻלִּים הֲרֵי אֵלּוּ כִּנְטוּעִים בַּשָּׂדֶה, עִנְיָנוֹ שֶׁהֵם חַיָּבִים בְּדִינֵי שְׁבִיעִית וְדִינֵי מַעֲשְׂרוֹת.

"Se é para semente, é obrigado": seu sentido é que, se a intenção do dono era tomar dela a semente, é proibido plantá-la antes de dizimar, pois o próprio arrancamento do solo é o seu "granário", que fixa a obrigação. Mas se sua intenção ao plantá-la era apenas fazê-la crescer mais, não é obrigado, pois ainda não se fixou nem se completou o preparo para o dízimo. "Cebolas que criaram raízes no sótão ficam puras de impureza": porque não são mais consideradas alimento, já que se estragaram (no sentido de que deixaram de estar prontas para consumo imediato, retomando o estatuto de "semeadas"). "Se caiu sobre elas um desmoronamento e ficaram descobertas, eis que são como plantadas no campo": seu sentido é que elas se tornam obrigadas nas leis do ano sabático e nas leis dos dízimos.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 5:2
וְנוֹטֵעַ בְּתוֹךְ שֶׁלּוֹ לְזֶרַע. שֶׁיִּתְבַּשֵּׁל בָּהֶם הַזֶּרַע בִּמְקוֹם נְטִיעָתָן. מִפְּנֵי שֶׁהוּא גָּרְנָן. עֲקִירָתָן הוּא גָּרְנָן, שֶׁאֵין לָהֶם גֹּרֶן אַחֵר לְהִתְחַיֵּב בַּמַּעֲשֵׂר, דְּזַרְעָן פָּטוּר מִן הַמַּעֲשֵׂר. טָהֲרוּ מִלְּטַמֵּא. דְּכִזְרוּעִין דָּמוּ, וְהַתּוֹרָה רִבְּתָה בְּטָהֳרַת זְרָעִים. אֲבָל לְכָל שְׁאָר מִילֵי כִּתְלוּשִׁין דָּמוּ, וּבְחֶזְקָתָן הֵן לַמַּעֲשֵׂר וְלַשְּׁבִיעִית. וְהֵן מְגֻלִּין. הֶעָלִין שֶׁלָּהֶן, כְּדֶרֶךְ גְּדִילָתָן, כִּנְטוּעִים בַּשָּׂדֶה דָּמוּ, וְהַתּוֹלֵשׁ מֵהֶן בְּשַׁבָּת חַיָּב, וְחַיָּבִין בַּשְּׁבִיעִית וּבַמַּעַשְׂרוֹת.

"E planta dentro do seu para semente": para que a semente amadureça neles no próprio lugar do plantio. "Porque isso é o seu granário": o arrancamento delas é o seu granário, pois não têm outro granário para se obrigarem ao dízimo, já que a semente delas é isenta do dízimo. "Ficaram puras de impureza": porque são consideradas como semeadas, e a Torá ampliou a pureza das sementes (destinadas ao plantio). Mas para todos os demais efeitos são consideradas como destacadas, e mantêm seu estatuto quanto ao dízimo e ao ano sabático. "E ficaram descobertas": suas folhas, crescendo à maneira habitual, são consideradas como se estivessem plantadas no campo, e quem as arranca em Shabat é culpado, e ficam obrigadas ao ano sabático e aos dízimos.

Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.