A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A mishná trata do vinho ainda no lagar (a prensa de uvas), aplicando-lhe o mesmo raciocínio do fogo como fator de fixação: misturar o vinho com água quente é equiparado, por alguns sábios, a uma espécie de "cozimento" que completa o preparo, ao passo que misturá-lo com água fria mantém seu caráter provisório
Bebem sobre o lagar (vinho ainda dentro do próprio lagar, misturado com água), seja com água quente, seja com fria, isentos — palavras de Rabi Meir. Rabi Elazar, filho de Rabi Tzadok, obriga (em ambos os casos). E os sábios dizem: com água quente, é obrigado, e com fria, está isento (pois a água quente, ao entrar em contato com o vinho, produz um efeito semelhante ao do cozimento, que fixa a obrigação; a água fria, não).
שׁוֹתִים עַל הַגַּת, בֵּין עַל הַחַמִּין בֵּין עַל הַצּוֹנֵן פָּטוּר, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי צָדוֹק מְחַיֵּב. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, עַל הַחַמִּין חַיָּב, וְעַל הַצּוֹנֵן פָּטוּר:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
A disputa desta mishná estende ao lagar do vinho o princípio do fogo como fator de fixação, já estabelecido para o azeite e o guisado em 4:1, aplicando-o desta vez a uma mistura de líquidos, e não a um cozimento no sentido estrito.
Devarim (Deuteronômio) 14:23
מַעְשַׂר דְּגָנְךָ תִּירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ.
"O dízimo do teu grão, do teu vinho e do teu azeite" (Devarim 14:23) — o versículo estabelece que o vinho (tirosh) está sujeito ao dízimo assim como o grão e o azeite. Mas o momento exato em que o mosto ainda no lagar se torna "vinho" para efeitos da obrigação — e não mero suco de uva em processo de fermentação — foi precisado pelos sábios através dos mesmos fatores de kevi'á que se aplicam a outros alimentos: o pátio, a compra, o fogo, o sal, a teruma e o Shabat. A disputa desta mishná gira em torno de saber se a água quente, ao ser misturada ao vinho ainda no lagar, produz um efeito equivalente ao do fogo, completando assim o processo de preparo.
Por que a água quente fixaria a obrigação e a fria não? Segundo a opinião dos sábios, que prevalece como lei, a água quente, ao entrar em contato com o vinho ainda dentro do lagar, provoca nele um efeito semelhante ao do cozimento — o calor extrai e intensifica o sabor e o aroma do vinho de um modo que a água fria não produz, e por isso a mistura com água quente é equiparada, para efeitos de kevi'á, ao mesmo fogo que fixa a obrigação em outros contextos (como visto em 4:1, quanto ao vinho posto em guisado quente). A água fria, por não produzir esse efeito, mantém o consumo no lagar como simples achilat arai — comer ou beber de passagem —, isento do dízimo. Rabi Meir isenta em ambos os casos porque considera que, enquanto o vinho ainda está no próprio lagar — o local natural do seu processamento —, nenhuma mistura de água, quente ou fria, é suficiente para tirá-lo do estado provisório; já Rabi Elazar bar Tzadok obriga em ambos os casos por receio de que, ao permitir beber livremente do lagar, alguém acabe por retirar o vinho dali e bebê-lo fora, já fixado.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam não dedica uma halachá específica e isolada a este caso preciso de água quente versus fria no lagar; ele o trata como aplicação do princípio geral de que é permitido beber do vinho ainda no lagar antes de ele ser transferido ao barril de armazenamento, decidindo a lei conforme os sábios.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 3:14
הַיַּיִן מִשֶּׁיַּנִּיחֶנּוּ בֶּחָבִיּוֹת וְיִשְׁלֶה הַזַּגִּין וְהַחֲרְצָנִין מֵעַל פִּי הֶחָבִית. אֲבָל כְּשֶׁהוּא בְּתוֹךְ הַבּוֹר כְּשֶׁיַּגְבִּיהֶנּוּ לְהַעֲמִידוֹ בֶּחָבִית שׁוֹתֶה עַרְאַי וְקוֹלֵט מִן הַגַּת הָעֶלְיוֹנָה וּמִן הַצִּנּוֹר וּמִכָּל מָקוֹם וְשׁוֹתֶה.
"O vinho se fixa desde que o coloquem em barris e retirem as cascas e as sementes de sobre a boca do barril. Mas, enquanto está dentro do poço (do lagar), quando o retira para colocá-lo no barril, bebe de passagem; e recolhe do lagar superior, do conduto, e de qualquer lugar, e bebe" (o Rambam confirma o princípio geral por trás desta mishná: o vinho ainda dentro do lagar, antes de ser recolhido definitivamente no barril, mantém o caráter provisório que permite bebê-lo sem dizimar — mas não trata do detalhe específico de água quente versus fria).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 5:16 (princípio análogo)
מָזַג יַיִן בְּמַיִם חַמִּים נִקְבַּע. וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר אִם בִּשֵּׁל הַיַּיִן וַאֲפִלּוּ בְּגַת שֶׁאָסוּר לִשְׁתּוֹת מִמֶּנּוּ עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר.
"Misturou vinho com água quente, fixa-se; e nem é preciso dizer que, se cozinhou o vinho, mesmo ainda no lagar, é proibido beber dele até que seja dizimado" (embora esta halachá trate do vinho já fora do lagar, misturado a guisado, o mesmo princípio — de que a água quente produz efeito equivalente ao cozimento — é a base halachica para a opinião dos sábios nesta mishná, de que a água quente fixa mesmo dentro do próprio lagar).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 4:4
בֵּין עַל חַמִּין בֵּין עַל הַצּוֹנֵן. עִנְיָנוֹ בֵּין שֶׁיִּהְיֶה אוֹתוֹ הַיַּיִן שֶׁבְּתוֹךְ הַגַּת מְבֻשָּׁל אוֹ בְּלִי מְבֻשָּׁל, דִּינָם שָׁוֶה. וַחֲכָמִים הָלְכוּ עַל הָעִקָּר, כִּי הַחַמִּין נִקְבְּעוּ לְמַעֲשֵׂר כְּמוֹ שֶׁבֵּאַרְנוּ שֶׁהָאוּר קוֹבַעַת. וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.
"Seja com água quente, seja com fria": seu sentido é que, seja o vinho dentro do lagar já fervido, seja não fervido, a lei deles é a mesma (segundo Rabi Meir). E os sábios seguiram o princípio de que a água quente fixa a obrigação do dízimo, conforme já explicamos que o fogo fixa. E a lei é conforme os sábios.
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 4:4
שׁוֹתִין עַל הַגַּת. וּכְגוֹן שֶׁהִכְנִיס שָׁם רֹאשׁוֹ וְרֻבּוֹ, דְּלֵיכָּא לְמִגְזָר שֶׁמָּא יָבִיא הַכְּלִי אֵלָיו וְיִשְׁתֶּה חוּץ לַגַּת, דְּחוּץ לַגַּת הֲוֵי קֶבַע וְאָסוּר לִשְׁתּוֹת. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בְּרַבִּי צָדוֹק מְחַיֵּב. דְּגָזַר שֶׁמָּא יוֹצִיא מִן הַיַּיִן חוּץ לַגַּת. עַל הַחַמִּין חַיָּב. שֶׁהוּא קוֹבֵעַ, לְפִי שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל לְהַחֲזִיר הַמּוֹתָר, שֶׁיְּקַלְקֵל הַיַּיִן שֶׁבַּגַּת. אֲבָל מָזַג בְּצוֹנֵן פָּטוּר, שֶׁיָּכוֹל לְהַחֲזִיר הַמּוֹתָר. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.
"Bebem sobre o lagar": trata-se de caso em que a pessoa introduz ali a cabeça e a maior parte do corpo, pois assim não há receio de que traga o recipiente para si e beba fora do lagar — já que, fora do lagar, seria consumo definitivo, e proibido beber sem dizimar. "Rabi Elazar, filho de Rabi Tzadok, obriga": por receio de que alguém acabe tirando do vinho para fora do lagar. "Com água quente, é obrigado": pois isso fixa a obrigação, já que não pode devolver o excedente sem estragar o vinho que está no lagar. Mas quem misturou com água fria está isento, pois pode devolver o excedente. E a lei é conforme os sábios.
Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Observação: o Rambam não dedica uma halachá isolada ao detalhe específico de água quente versus fria dentro do lagar — ele codifica apenas o princípio geral de que se pode beber livremente do vinho ainda no lagar antes de recolhê-lo ao barril (Hilchot Tithes 3:14), e o princípio análogo de que água quente produz efeito de cozimento quando misturada ao vinho (Hilchot Tithes 5:16). A aplicação precisa desta mishná, portanto, apoia-se no comentário do próprio Rambam à Mishná, e não em uma halachá autônoma do Mishné Torá.