Seder Zeraim · Massechet Maasrot · Perek Dalet · Mishná 3

"Quem tira azeitonas do maatan"

הַנּוֹטֵל זֵיתִים מִן הַמַּעֲטָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná retoma o tema do sal como fator de fixação, agora aplicado ao maatan — o tanque onde as azeitonas colhidas são amontoadas para amolecer antes da prensagem — e acrescenta a opinião de Rabi Eliezer, que introduz um critério adicional: a possibilidade concreta de devolver o excedente não consumido

Quem tira azeitonas do maatan (o tanque onde se amontoam as azeitonas para amolecer antes de serem prensadas), mergulha uma a uma em sal e come (está isento, pois esse é apenas um modo de comer de passagem). Mas se salgou e pôs diante de si (preparando uma porção salgada para comer de uma vez), é obrigado. Rabi Eliezer diz: do maatan puro (ritualmente, cujas azeitonas não estão em estado de impureza), é obrigado; e do impuro, está isento, porque ele devolve o excedente (uma vez que tanto ele quanto as azeitonas já estão impuros, não há problema em devolver ao tanque o que sobrou de sua mão, o que mantém o caráter provisório do consumo; mas no tanque puro, uma vez que sua mão as tocou, não pode devolvê-las sem torná-las impuras, e por isso o consumo se torna definitivo).

הַנּוֹטֵל זֵיתִים מִן הַמַּעֲטָן, טוֹבֵל אֶחָד אֶחָד בְּמֶלַח וְאוֹכֵל. אִם מָלַח וְנָתַן לְפָנָיו, חַיָּב. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, מִן הַמַּעֲטָן הַטָּהוֹר חַיָּב, וּמִן הַטָּמֵא פָּטוּר, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַחֲזִיר אֶת הַמּוֹתָר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mishná aprofunda o critério do sal como fator de fixação (kevi'á) apresentado em 4:1, aplicando-o especificamente ao caso das azeitonas no maatan, e introduz a devolução do excedente como sinal adicional de consumo meramente provisório.

Vayikrá (Levítico) 27:30
וְכָל מַעְשַׂר הָאָרֶץ מִזֶּרַע הָאָרֶץ מִפְּרִי הָעֵץ, לַה' הוּא, קֹדֶשׁ לַה'.
"E todo o dízimo da terra, da semente da terra, do fruto da árvore, é do Eterno; é santo ao Eterno" (Vayikrá 27:30) — o versículo declara santo o dízimo do fruto da árvore, incluindo a azeitona, desde o momento em que ela atinge sua forma final de consumo. A azeitona apresenta uma dificuldade peculiar: como fruto amargo em seu estado natural, ela só se torna comestível depois de passar pelo maatan, o tanque de amolecimento — e por isso os sábios precisaram definir com precisão o momento em que, mesmo dentro desse processo ainda inacabado, o consumo deixa de ser provisório e passa a fixar a obrigação.

Por que a impureza do maatan afeta a obrigação? O critério central desta mishná — "porque ele devolve o excedente" — revela o princípio subjacente a toda a categoria de achilat arai (comer de passagem): um consumo só permanece isento do dízimo enquanto a pessoa mantém, na prática, a possibilidade de devolver ao monte comum aquilo que não comeu. Quando o maatan e quem retira dele as azeitonas estão ambos em estado de pureza ritual, tocar as azeitonas com a mão não as torna impuras, mas também não permite devolvê-las livremente ao tanque puro sem risco de contaminação futura — por isso, uma vez retiradas e salgadas, tornam-se um ato de consumo definitivo, que fixa a obrigação. Já quando tanto a pessoa quanto o tanque estão em estado de impureza, nada se perde ao devolver o excedente — a mão impura não piora azeitonas já impuras —, e por isso o ato de retirar e salgar continua sendo tratado como provisório, permanecendo isento.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta mishná em Hilchot Tithes, capítulo 5, decidindo a lei conforme o tana anônimo (taná kama) da mishná, e não conforme Rabi Eliezer.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 5:18
הַנּוֹטֵל זֵיתִים מִן הַמַּעֲטָן טוֹבֵל אֶחָד אֶחָד בְּמֶלַח וְאוֹכֵל. וְאִם מָלַח וְנָתַן לְפָנָיו חַיָּב. וְכֵן כָּל כַּיּוֹצֵא בָּזֶה.
"Quem tira azeitonas do maatan mergulha uma a uma em sal e come; e se salgou e pôs diante de si, é obrigado; e assim em todo caso semelhante a este" (o Rambam adota o texto literal da mishná como halachá vigente, sem mencionar a distinção de Rabi Eliezer entre maatan puro e impuro — sinal de que decidiu a lei conforme o tana anônimo).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 4:3
מַעֲטָן. שֵׁם הַמָּקוֹם שֶׁמְּקַבְּצִים שָׁם הַזֵּיתִים עַד שֶׁיִּתְרַכְּכוּ וְיִהְיוּ רְאוּיוֹת לְהוֹצִיא שַׁמְנָן, וּכְבָר בֵּאַרְנוּ שֶׁהַמֶּלַח קוֹבֵעַ לְמַעֲשֵׂר, וּלְפִיכָךְ אִם מָלַח וְנָתַן לְפָנָיו חַיָּב. וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר חוֹלֵק עַל סְתָם מִשְׁנָה, וְאָמַר מִן הַמַּעֲטָן הַטָּהוֹר חַיָּב, וּכְבָר בֵּאֲרוּ בַּגְּמָרָא דִּבְרֵי ר"א, וְאָמְרוּ כִּי כַּוָּנָתוֹ בְּאָמְרוֹ מִן הַמַּעֲטָן הַטָּהוֹר חַיָּב, שֶׁיִּהְיֶה הָאָדָם טָמֵא וְהַזֵּיתִים טְהוֹרִים, וְכֵיוָן שֶׁלָּקַח מֵהֶן נִטְמָא מַה שֶּׁלָּקַח בְּיָדוֹ וְאֵינוֹ יָכוֹל לְהַחֲזִירוֹ, אִם כֵּן אֵין הָאֲכִילָה אֲכִילַת עֲרַאי וְהוּא חַיָּב בְּמַעַשְׂרוֹת. וּמִן הַטָּמֵא פָּטוּר, שֶׁיִּהְיוּ הָאָדָם וְהַזֵּיתִים טְמֵאִים וְהוּא יָכוֹל לְהַחֲזִיר הַמּוֹתָר אַחַר אֲכִילָתוֹ, וַהֲרֵי הִיא אֲכִילַת עֲרַאי, וּלְפִיכָךְ הוּא פָּטוּר. וְהֲלָכָה כִּסְתָם מִשְׁנָה.

Maatan: nome do lugar onde se juntam as azeitonas até que se amoleçam e se tornem aptas para extrair delas o azeite. E já explicamos que o sal fixa a obrigação do dízimo, e por isso, se salgou e pôs diante de si, é obrigado. E Rabi Eliezer discorda da opinião anônima da mishná, e disse que do maatan puro é obrigado — e já explicaram na Guemará as palavras de Rabi Eliezer, dizendo que sua intenção ao dizer "do maatan puro é obrigado" é que a pessoa esteja impura e as azeitonas puras; e, uma vez que tomou delas, tornou-se impuro o que tomou em sua mão, e não pode devolvê-lo; se assim é, a comida não é comida de passagem, e ele é obrigado aos dízimos. E do impuro está isento — quando tanto a pessoa quanto as azeitonas estão impuras, e ele pode devolver o excedente após comer, e essa é comida de passagem, e por isso está isento. E a lei é conforme a opinião anônima da mishná.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 4:3
הַמַּעֲטָן. מָקוֹם שֶׁצּוֹבְרִין שָׁם הַזֵּיתִים כְּדֵי שֶׁיִּתְרַכְּכוּ וְיִהְיוּ רְאוּיוֹת לְהוֹצִיא שַׁמְנָן. טוֹבֵל אֶחָד אֶחָד בְּמֶלַח. שֶׁאֵין קוֹבֵעַ אֶלָּא בְמֶלַח וְצֵרוּף שְׁתַּיִם, הִלְכָּךְ אִם מָלַח וְנָתַן לְפָנָיו חַיָּב. מִן הַמַּעֲטָן הַטָּהוֹר חַיָּב. וּכְגוֹן שֶׁהָאָדָם הַנּוֹטְלָן טָמֵא, שֶׁאִי אֶפְשָׁר לוֹ לְהַחֲזִיר אֶת הַמּוֹתָר, שֶׁכְּבָר נִטְמְאוּ כָּל אוֹתָן שֶׁנָּטַל בְּיָדוֹ. מִן הַטָּמֵא פָּטוּר. שֶׁכֵּיוָן שֶׁהַמַּעֲטָן כֻּלּוֹ טָמֵא וְהָאָדָם הַנּוֹטְלָן טָמֵא הֲרֵי הוּא מַחֲזִיר אֶת הַנּוֹתָר.

"O maatan": lugar onde se amontoam as azeitonas para que se amoleçam e se tornem aptas para extrair delas o azeite. "Mergulha uma a uma em sal": pois só se fixa a obrigação com sal e a junção de duas ou mais (azeitonas de uma vez); por isso, se salgou e pôs diante de si, é obrigado. "Do maatan puro é obrigado": trata-se de caso em que a pessoa que as retira está impura, de modo que não lhe é possível devolver o excedente, pois já se tornou impuro tudo o que tomou em sua mão. "Do impuro está isento": pois, uma vez que o maatan inteiro está impuro e a pessoa que retira também está impura, ele pode devolver o que sobrou.

Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.