A Mishná · הַמִּשְׁנָה
O início do Shabat é, ele próprio, um dos seis fatores clássicos de fixação (kevi'á): basta que o alimento tenha sido designado para o Shabat, ou que o Shabat chegue enquanto o preparo já está concluído, para que a obrigação do dízimo se fixe — mesmo que ninguém tenha chegado, de fato, a comer dele
Crianças que esconderam figos para o Shabat (separando-os com a intenção de comê-los no dia santo), e esqueceram de dizimá-los, não os comerão na saída do Shabat até que sejam dizimados (pois o próprio Shabat, ao chegar sobre um alimento já designado e pronto, fixa a obrigação, e essa fixação permanece válida mesmo depois que o Shabat termina). Quanto à cesta do Shabat (uma cesta cheia de frutas reservada especificamente para o dia), a Casa de Shamai isenta (do dízimo, antes que o Shabat efetivamente chegue), e a Casa de Hillel obriga (desde o momento em que a cesta é designada para o Shabat, mesmo antes de o dia chegar). Rabi Yehudá diz: também quem colhe a cesta para enviá-la a seu companheiro (como presente), não comerá dela até que seja dizimada (pois a designação para envio já fixa a obrigação, do mesmo modo que a designação para o Shabat).
תִּינוֹקוֹת שֶׁטָּמְנוּ תְאֵנִים לְשַׁבָּת, וְשָׁכְחוּ לְעַשְּׂרָן, לֹא יֹאכְלוּ לְמוֹצָאֵי שַׁבָּת עַד שֶׁיְּעַשְּׂרוּ. כַּלְכָּלַת שַׁבָּת, בֵּית שַׁמַּאי פּוֹטְרִין וּבֵית הִלֵּל מְחַיְּבִין. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אַף הַלּוֹקֵט אֶת הַכַּלְכָּלָה לִשְׁלֹחַ לַחֲבֵרוֹ, לֹא יֹאכַל עַד שֶׁיִּתְעַשֵּׂר:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Esta mishná continua a lista dos fatores de fixação apresentada na mishná anterior, agora dedicada especificamente ao Shabat como fator de kevi'á — um dos seis mencionados pelos sábios ao lado do fogo, do sal, da compra, da teruma e do pátio guardado.
Devarim (Deuteronômio) 14:22-23
עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר אֵת כָּל תְּבוּאַת זַרְעֶךָ... וְאָכַלְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ... מַעְשַׂר דְּגָנְךָ תִּירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ.
"Dizimarás, sim, dizimarás toda a produção da tua semente... e comerás perante o Eterno teu Deus... o dízimo do teu grão, do teu vinho e do teu azeite" (Devarim 14:22-23) — a Torá vincula a obrigação do dízimo ao momento em que o alimento se torna apto e destinado a ser efetivamente consumido como refeição. Os sábios, seguindo esse princípio, estabeleceram que a designação deliberada de um alimento para um uso especial e determinado — como reservá-lo para a santidade do Shabat, ou prepará-lo como presente para outra pessoa — já demonstra, por si só, que o preparo do alimento está concluído em intenção, ainda que fisicamente ele continue no campo.
Por que o Shabat fixa a obrigação mesmo antes de chegar? A controvérsia entre a Casa de Shamai e a Casa de Hillel gira em torno do momento exato em que a designação para o Shabat se torna eficaz. Para a Casa de Shamai, só o Shabat propriamente dito — sua chegada real, com o pôr do sol de sexta-feira — tem o poder de fixar a obrigação; antes disso, a mera intenção de guardar frutos para o dia sagrado não basta. Já para a Casa de Hillel, a lei decide, a designação da cesta específica para o Shabat equivale, ela mesma, a uma declaração de que o preparo do alimento está concluído — e por isso a obrigação se fixa no instante da designação, e não apenas quando o Shabat chega. A opinião de Rabi Yehudá estende esse mesmo raciocínio ao caso de quem separa frutos para presentear um amigo: a intenção clara de destiná-los a um uso final e determinado já basta para fixá-los à obrigação, ainda que o presente nunca chegue a ser enviado.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica o Shabat como fator de kevi'á em Hilchot Tithes, capítulo 5, decidindo a lei conforme a Casa de Hillel.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 5:20
פֵּרוֹת שֶׁנִּגְמְרָה מְלַאכְתָּן וְחָשְׁכָה עֲלֵיהֶן לֵילֵי שַׁבָּת נִקְבְּעוּ וְלֹא יֹאכַל מֵהֶן אֲפִלּוּ לְאַחַר הַשַּׁבָּת עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר.
"Frutos cujo preparo já se completou, e sobre os quais escureceu a véspera de Shabat, se fixam, e ninguém comerá deles, mesmo depois do Shabat, até que sejam dizimados" (o Rambam estabelece o princípio geral por trás desta mishná: o Shabat, ao chegar sobre um alimento já pronto, fixa a obrigação de modo permanente, mesmo após o dia terminar).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 5:21
תִּינוֹקוֹת שֶׁטָּמְנוּ תְּאֵנִים לְשַׁבָּת וְשָׁכְחוּ לְעַשְּׂרָן לֹא יֵאָכְלוּ לְמוֹצָאֵי שַׁבָּת עַד שֶׁיְּעַשְּׂרוּ.
"Crianças que esconderam figos para o Shabat, e esqueceram de dizimá-los, não serão comidos na saída do Shabat até que sejam dizimados" (o Rambam transcreve literalmente esta mishná como halachá vigente, confirmando que mesmo o esquecimento não anula a fixação já ocorrida).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 5:22
תְּאֵנָה שֶׁהָיְתָה מְיֻחֶדֶת לוֹ לֶאֱכל פֵּרוֹתֶיהָ בְּשַׁבָּת וְלִקֵּט מִמֶּנָּה כַּלְכָּלָה לֹא יֹאכַל עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר הוֹאִיל וּפֵרוֹת אֵלּוּ מְיֻחָדִין לְשַׁבָּת וְהַשַּׁבָּת קוֹבַעַת.
"Uma figueira que fora designada para que ele comesse de seus frutos no Shabat, e dela colheu uma cesta — não comerá dela até que seja dizimada, pois esses frutos são designados para o Shabat, e o Shabat fixa" (o Rambam decide a lei conforme a Casa de Hillel: a designação para o Shabat já basta para fixar a obrigação, independentemente de o dia ter efetivamente chegado).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 4:2
כְּבָר אָמַרְנוּ כִּי שַׁבָּת קוֹבַעַת לְמַעֲשֵׂר, וּמֵאַחַר שֶׁעָבַר עֲלֵיהֶם שַׁבָּת אָסוּר לֶאֱכל מֵהֶם עַד שֶׁיּוֹצִיא מֵהֶן הַמַּעַשְׂרוֹת. כַּלְכָּלַת שַׁבָּת. אָמְרוּ בַּגְּמָ' בִּתְאֵנָה הַמְּיֻחֶדֶת לְשַׁבָּת, וְעִנְיָנוֹ כִּי כְּשֶׁיֵּשׁ לְאָדָם אִילָנוֹת מִנְהָגוֹ לְעוֹלָם לֶאֱכֹל מִפֵּרוֹתָיו בְּשַׁבָּתוֹת, וְלוֹקֵט מֵאוֹתוֹ אִילָן כַּלְכָּלָה. אָמְרוּ בֵּית הִלֵּל שֶׁכֵּיוָן שֶׁאוֹתָן הַפֵּרוֹת מוּכָנוֹת לְשַׁבָּת וְשַׁבָּת קוֹבַעַת, שֶׁנִּקְבְּעוּ לְמַעֲשֵׂר וְאָסוּר לוֹ לֶאֱכֹל מֵהֶן עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.
Já dissemos que o Shabat fixa a obrigação do dízimo, e uma vez que o Shabat passou sobre eles, é proibido comer deles até que se separem os dízimos. "A cesta do Shabat": disseram na Guemará (Talmud Yerushalmi) que se trata de uma figueira designada especificamente para o Shabat; e seu sentido é que, quando alguém tem árvores, seu costume é sempre comer de seus frutos nos Shabatot, e colhe daquela árvore uma cesta. Disse a Casa de Hillel que, uma vez que aqueles frutos estão preparados para o Shabat, e o Shabat fixa, eles se fixaram à obrigação do dízimo, sendo proibido comer deles até que sejam dizimados. E a lei não é conforme Rabi Yehudá (quanto ao caso do presente enviado a um amigo).
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 4:2
תִּינוֹקוֹת שֶׁטָּמְנוּ תְאֵנִים. בַּשָּׂדֶה, דְּאִי בַּבַּיִת, בְּלֹא שַׁבָּת בַּיִת קוֹבַעַת. וְנָקַט תִּינוֹקוֹת לְאַשְׁמוּעִינַן דְּיֵשׁ לָהֶם מַחֲשָׁבָה הַנִּכֶּרֶת מִתּוֹךְ מַעֲשֵׂיהֶם. לֹא יֹאכְלוּ לְמוֹצָאֵי שַׁבָּת. דְּכֵיוָן שֶׁקְּבַעְתָּן שַׁבָּת לַמַּעֲשֵׂר אֲסוּרִים לְעוֹלָם עַד שֶׁיִּתְעַשְּׂרוּ. וּבֵית הִלֵּל מְחַיְּבִין. בַּמַּעֲשֵׂר מִיָּד אֲפִלּוּ קֹדֶם הַשַּׁבָּת, דְּכֵיוָן שֶׁיִּחֲדָהּ לַשַּׁבָּת הֻקְבְּעָה מִיָּד. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.
"Crianças que esconderam figos": no campo — pois se fosse em casa, mesmo sem o Shabat, a casa já fixaria a obrigação. E a mishná menciona especificamente crianças para ensinar que mesmo elas têm uma intenção reconhecível a partir de seus próprios atos (suficiente para fixar a obrigação). "Não comerão na saída do Shabat": pois, uma vez que o Shabat os fixou à obrigação do dízimo, ficam proibidos para sempre até que sejam dizimados. "E a Casa de Hillel obriga": ao dízimo imediatamente, mesmo antes do Shabat, pois, uma vez que designou a cesta para o Shabat, ela já se fixou de imediato. E a lei não é conforme Rabi Yehudá.
Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.