A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Abre-se o Perek Dalet com a lista dos processos que fixam a obrigação do dízimo por completarem o preparo do alimento — curtir, escaldar e salgar — em contraste com os que não a fixam, pois ainda deixam o alimento em estado bruto ou provisório: esconder na terra, mergulhar no campo, ou extrair líquido de azeitona apenas para uso externo
Quem curte (verduras ou azeitonas em vinagre ou vinho), quem escalda (cozinha sem temperos), quem salga, é obrigado (ao dízimo, pois esses três processos completam o preparo do alimento e o fixam à obrigação, mesmo que feitos ainda no campo). Quem esconde na terra (para que o fruto amoleça e amadureça), está isento. Quem mergulha (o fruto em sal ou salmoura, apenas para comê-lo ali mesmo) no campo, está isento. Quem fende azeitonas para que saia delas o líquido (o suco amargo, sem intenção de extrair o azeite), está isento. Quem espreme azeitonas sobre sua pele (para untar o corpo), está isento. Mas se espremeu e recolheu na própria mão (o azeite que escorreu), é obrigado. Quem faz coalhar (vinho fervido, retirando a espuma) para um guisado, está isento. Mas para uma panela (vazia), é obrigado, porque isso é como um pequeno poço (equivale ao lagar onde se recolhe o vinho, e por isso fixa a obrigação).
הַכּוֹבֵשׁ, הַשּׁוֹלֵק, הַמּוֹלֵחַ, חַיָּב. הַמְכַמֵּן בָּאֲדָמָה, פָּטוּר. הַמְטַבֵּל בַּשָּׂדֶה, פָּטוּר. הַפּוֹצֵעַ זֵיתִים שֶׁיֵּצֵא מֵהֶם הַשְּׂרָף, פָּטוּר. הַסּוֹחֵט זֵיתִים עַל בְּשָׂרוֹ, פָּטוּר. אִם סָחַט וְנָתַן לְתוֹךְ יָדוֹ, חַיָּב. הַמְקַפֵּא לְתַבְשִׁיל, פָּטוּר. לִקְדֵרָה, חַיָּב, מִפְּנֵי שֶׁהוּא כְבוֹר קָטָן:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Com esta mishná abre-se o Perek Dalet de Massechet Maasrot, que enumera os diversos processos e circunstâncias que fixam (ou não) a obrigação do dízimo em produtos que já concluíram o crescimento no campo, mas ainda não passaram por todas as etapas de preparo para o consumo.
Devarim (Deuteronômio) 14:22
עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר אֵת כָּל תְּבוּאַת זַרְעֶךָ, הַיֹּצֵא הַשָּׂדֶה שָׁנָה שָׁנָה.
"Dizimarás, sim, dizimarás toda a produção da tua semente, que sair do campo ano a ano" (Devarim 14:22) — a Torá obriga o dízimo sobre a "produção", isto é, o alimento já pronto para consumo humano, e não sobre a matéria-prima ainda em processo de preparo. Os sábios, a partir deste princípio, definiram um conjunto de marcos — a chamada kevi'á, "fixação" — que sinalizam quando um alimento deixou de ser mero produto agrícola e passou a ser "produção" plenamente formada, sujeita à obrigação.
Por que curtir, escaldar e salgar fixam a obrigação? Esta mishná lista processos de preparo culinário — curtir, escaldar (cozinhar) e salgar — que, segundo a tradição, transformam definitivamente o alimento em produto acabado: uma vez curtido, cozido ou salgado, o fruto ou verdura está pronto para ser servido como refeição, e não apenas provado casualmente. Por isso, esses três processos fixam a obrigação do dízimo mesmo quando realizados ainda no campo, antes de qualquer transporte. Já esconder na terra (para amadurecer) ou mergulhar no campo em sal apenas para comer ali mesmo, sem preparar porção alguma para guardar, são atos que não configuram preparo definitivo — o alimento continua em estado provisório, e por isso a Torá permite que se coma dele "de passagem" (achilat arai), sem necessidade de dizimar antes.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica os processos que fixam a obrigação do dízimo em Hilchot Tithes (Mishné Torá, Hilchot Ma'aser), capítulo 5, dedicado especificamente ao fogo, ao sal, à salmoura e aos demais fatores de kevi'á.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 5:14
אֶחָד הַמְבַשֵּׁל וְאֶחָד הַשּׁוֹלֵק וְאֶחָד הַכּוֹבֵשׁ קוֹבֵעַ לְמַעֲשֵׂר. אֲבָל הַמְעַשֵּׁן אֶת הַפֵּרוֹת עַד שֶׁהִכְשִׁירָן הֲרֵי זֶה סָפֵק.
"Tanto quem cozinha quanto quem escalda e quem curte fixam a obrigação do dízimo. Mas quem defuma os frutos até torná-los aptos ao consumo — isso é caso de dúvida" (o Rambam confirma os três verbos exatos desta mishná — cozinhar/escaldar, curtir — como fixadores plenos, e acrescenta um caso limítrofe não mencionado na mishná).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 5:15
הַטּוֹמֵן פֵּרוֹת בַּאֲדָמָה אוֹ בַּתֶּבֶן אוֹ בַּזֶּבֶל עַד שֶׁהִכְשִׁירָן לַאֲכִילָה לֹא נִקְבְּעוּ לְמַעֲשֵׂר.
"Quem esconde frutos na terra, na palha ou no esterco, até torná-los aptos ao consumo, estes não se fixam à obrigação do dízimo" (o Rambam amplia o "esconder na terra" da mishná para incluir também a palha e o esterco, mantendo o princípio de que o simples amadurecimento por calor ou umidade não completa o preparo culinário definitivo).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 5:18
הַמּוֹלֵחַ פֵּרוֹת בַּשָּׂדֶה נִקְבְּעוּ. טָבַל הַזֵּיתִים אֶחָד אֶחָד בְּמֶלַח וְאָכַל פָּטוּר. הַפּוֹצֵעַ זֵיתִים כְּדֵי שֶׁיֵּצֵא הַשָּׂרָף מֵהֶם פָּטוּר.
"Quem salga frutos no campo, estes se fixam. Se mergulhou as azeitonas uma a uma no sal e comeu, está isento. Quem fende azeitonas para que saia delas o líquido está isento" (o Rambam distingue com precisão entre salgar propriamente — que fixa — e o simples ato de mergulhar cada azeitona individualmente no sal só para comê-la ali, que não fixa, pois é apenas achilat arai, comer de passagem).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 5:16
הַנּוֹתֵן יַיִן לְתַבְשִׁיל חַם אוֹ שֶׁנָּתַן שֶׁמֶן לִקְדֵרָה בְּאִלְפַס כְּשֶׁהֵן מְרֻתָּחִין נִקְבְּעוּ לְמַעֲשֵׂר.
"Quem coloca vinho em um guisado quente, ou coloca azeite numa panela ou numa caçarola enquanto estão fervendo, estes se fixam à obrigação do dízimo" (esta halachá corresponde ao caso final da mishná — o "coalhar" de vinho posto numa panela vazia, equiparado ao pequeno poço, isto é, ao lagar onde normalmente se recolhe o vinho fixado).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que abre o Perek Dalet de Massechet Maasrot.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 4:1
אָמְרוּ בַּגְּמָרָא אוֹר וּמֶלַח וּמִקָּח וּתְרוּמָה וְשַׁבָּת וְחָצֵר וּבֵית שְׁמִירָה כֻּלָּם טוֹבְלִים, עִנְיָנוֹ שֶׁכָּל אֶחָד מֵאֵלּוּ קוֹבֵעַ לַמַּעַשְׂרוֹת וְאָסוּר לֶאֱכל קְצָת מֵאֵלּוּ עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר, וְהַכּוֹבֵשׁ זֶה שֶׁיִּשְׁרֶה אוֹתָם בְּמֶלַח וּמַיִם. הַמְקַפֵּה לְתַבְשִׁיל, רְצוֹנוֹ לוֹמַר הַלּוֹקֵחַ יַיִן לַעֲשׂוֹת מִמֶּנּוּ מָרָק לְתַבְשִׁיל, וּבוֹר שֵׁם לְאוֹתָהּ הַחֲפִירָה שֶׁהַיַּיִן אוֹ הַשֶּׁמֶן יוֹרְדִין שָׁם.
Disseram na Guemará (do Talmud Yerushalmi): o fogo, o sal, a compra, a teruma, o Shabat, o pátio e a casa de guarda — todos estes "mergulham" (fixam à obrigação); seu sentido é que cada um destes fixa a obrigação do dízimo, e é proibido comer parte desses alimentos antes de dizimar. E "quem curte" é aquele que os deixa de molho em sal e água. "Quem faz coalhar para um guisado" significa quem toma vinho para fazer dele um caldo para o guisado; e "poço" é o nome daquela cavidade onde descem o vinho ou o azeite (no lagar).
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 4:1
הַכּוֹבֵשׁ. יְרָקוֹת אוֹ זֵיתִים בְּחֹמֶץ אוֹ בְיַיִן, וְכֵן הַשּׁוֹלֵק אוֹ הַמּוֹלֵחַ, אַף בַּשָּׂדֶה חַיָּב. שֶׁהָאוּר וְהַמֶּלַח וְהַמִּקָּח וְהַתְּרוּמָה וְהַשַּׁבָּת וְהֶחָצֵר הַמִּשְׁתַּמֶּרֶת, כָּל אֶחָד מֵאֵלּוּ קוֹבֵעַ לַמַּעֲשֵׂר. הַמְכַמֵּן בָּאֲדָמָה. הַמַּטְמִין פֵּרוֹת תַּחַת הַקַּרְקַע כְּדֶרֶךְ שֶׁרְגִילִין לְהַטְמִין פֵּרוֹת שֶׁאֵין מְבֻשָּׁלִים כָּל צָרְכָּן כְּדֵי שֶׁיִּתְבַּשְּׁלוּ. וְהַמְטַבֵּל. פֵּרוֹת בְּמֶלַח אוֹ בְצִיר אוֹ בְחֹמֶץ וְאוֹכֵל, פָּטוּר. לְתוֹךְ יָדוֹ חַיָּב. דְּמַה שֶּׁנָּתַן לְתוֹךְ יָדוֹ נֶחְשָׁב כְּאִלּוּ נָתַן לְתוֹךְ בּוֹר קָטָן.
"Quem curte": verduras ou azeitonas em vinagre ou vinho; e do mesmo modo quem escalda ou salga — mesmo no campo, é obrigado, pois o fogo, o sal, a compra, a teruma, o Shabat e o pátio guardado, cada um destes fixa a obrigação do dízimo. "Quem esconde na terra": quem enterra frutos sob o solo, como costumam esconder frutos ainda não plenamente maduros, para que amadureçam. "E quem mergulha": frutos em sal, salmoura ou vinagre, e come — está isento (pois isso não é preparo definitivo, mas comer de passagem). "Recolheu na própria mão, é obrigado": pois o que colocou na mão é considerado como se tivesse colocado num pequeno poço, isto é, na cavidade onde descem o vinho e o azeite (no lagar).
Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná inicia-se o Perek Dalet, que trata dos processos e circunstâncias específicas — curtir, cozinhar, salgar, esconder na terra, o esquecimento do dízimo em véspera de Shabat, a extração de azeite e vinho, o descasque de grãos, e certas hortaliças e arbustos — que fixam ou não a obrigação do dízimo.