A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A mishná estende o tema da árvore no pátio a outras plantas — a videira, a romãzeira e a melancia — com um debate entre Rabi Tarfon, que permite comer a fruta inteira de uma vez, e Rabi Akiva, que exige comer aos poucos, como no caso da figueira; e trata de ervas espontâneas, que só obrigam se forem guardadas com cuidado
A videira que está plantada no pátio, toma-se o cacho inteiro (e come-se de uma vez, sem necessidade de desfiar bago a bago). E do mesmo modo na romã, e do mesmo modo na melancia (pode-se comer a fruta inteira sem dividir) — palavras de Rabi Tarfon. Rabi Akiva diz: desfia-se (bago a bago) nos cachos, reparte-se (em gomos) na romã, e fatia-se (em pedaços) na melancia (mesmo tratamento restritivo dado à figueira na mishná anterior). O coentro que está semeado no pátio, arranca-se folha por folha e come-se. Mas se reuniu, é obrigado. A arruda, o hissopo e o tomilho que estão no pátio, se são guardados (cuidados, protegidos, como plantação cultivada), são obrigados (ao dízimo, ainda que cresçam espontaneamente).
גֶּפֶן שֶׁהִיא נְטוּעָה בֶחָצֵר, נוֹטֵל אֶת כָּל הָאֶשְׁכּוֹל. וְכֵן בְּרִמּוֹן, וְכֵן בַּאֲבַטִּיחַ, דִּבְרֵי רַבִּי טַרְפוֹן. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, מְגַרְגֵּר בָּאֶשְׁכּוֹלוֹת, וּפוֹרֵט בָּרִמּוֹן, וְסוֹפֵת בָּאֲבַטִּיחַ. כֻּסְבָּר שֶׁהִיא זְרוּעָה בֶחָצֵר, מְקַרְטֵם עָלֶה עָלֶה וְאוֹכֵל. וְאִם צֵרַף, חַיָּב. הַסֵּאָה וְהָאֵזוֹב וְהַקּוֹרָנִית שֶׁבֶּחָצֵר, אִם הָיוּ נִשְׁמָרִים, חַיָּבִין:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
O debate entre Rabi Tarfon e Rabi Akiva prolonga a mesma questão da mishná anterior — o que constitui "reunião" (tzeruf) que fixa a obrigação — enquanto o caso das ervas guardadas introduz o critério bíblico de "אֹכֶל וְנִשְׁמָר" (algo comestível e guardado) como pré-requisito geral da obrigação do dízimo.
Devarim (Deuteronômio) 14:22-23
עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר אֵת כָּל תְּבוּאַת זַרְעֶךָ הַיֹּצֵא הַשָּׂדֶה שָׁנָה שָׁנָה.
"Sem falta dizimarás toda a produção de tua semente, que sai do campo, ano após ano" (Devarim 14:22) — a tradição extrai deste versículo que a obrigação do dízimo recai apenas sobre "tevuat zar'echa", produção agrícola própria, cultivada e semeada intencionalmente. Ervas que crescem espontaneamente, sem semeadura deliberada, não se enquadrariam nesse critério — a menos que sejam tratadas como propriedade cultivada: guardadas, cuidadas, protegidas de acesso alheio, sinal de que o dono as considera sua produção regular, e não mero crescimento silvestre incidental.
Por que a videira e a romã são diferentes da figueira? A posição de Rabi Tarfon reflete a maneira natural como essas frutas costumam ser consumidas: um cacho de uvas, uma romã ou uma fatia de melancia são, por natureza, "uma unidade" de consumo — comê-las inteiras não constitui reunião artificial de várias unidades separadas, mas apenas o modo costumeiro de comer aquele fruto específico. Rabi Akiva discorda, e aplica a mesma lógica restritiva da figueira: mesmo que socialmente se coma o cacho inteiro, halachicamente cada bago é uma unidade distinta, e reuni-los para comer de uma vez configura tzeruf. A halachá segue Rabi Akiva. Já o caso das ervas espontâneas — arruda, hissopo, tomilho — depende de um critério totalmente diferente: não da forma de consumo, mas da própria natureza da planta como produção agrícola reconhecida. Se cresce livremente e ninguém a guarda, não é "tevuat zaracha" no sentido pleno; mas se o dono cerca, guarda e trata como plantação, ela se torna sujeita ao dízimo como qualquer outra produção.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam decide expressamente a favor de Rabi Akiva nesta mishná — posição notável, pois o próprio Rambam, no Perush HaMishná, já registrara essa decisão.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 4:17
גֶּפֶן שֶׁנְּטוּעָה בֶּחָצֵר לֹא יִטּל אֶת כָּל הָאֶשְׁכּוֹל וְיֹאכַל אֶלָּא מְגַרְגֵּר אֶחָד אֶחָד. וְכֵן בְּרִמּוֹן לֹא יִטּל אֶת כָּל הָרִמּוֹן אֶלָּא פּוֹרֵט אֶת הָרִמּוֹן בָּאִילָן וְאוֹכֵל הַפֶּרֶד מִשָּׁם. וְכֵן בָּאֲבַטִּיחַ כּוֹפְתוֹ בַּקַּרְקַע וְאוֹכְלוֹ שָׁם.
"Videira plantada no pátio, não deve tomar o cacho inteiro e comer, mas desfiar bago a bago. E do mesmo modo na romã, não deve tomar a romã inteira, mas reparti-la ainda na árvore e comer os gomos dali. E do mesmo modo na melancia, deve fatiá-la no chão e comê-la ali" (o Rambam decide explicitamente a favor de Rabi Akiva, sem sequer mencionar a posição, rejeitada, de Rabi Tarfon).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 4:18
כֻּסְבַּר הַזְּרוּעָה בֶּחָצֵר מְקַרְסֵם עָלֶה עָלֶה וְאוֹכְלוֹ. וְאִם צֵרֵף חַיָּב לְעַשֵּׂר, וְכֵן כָּל כַּיּוֹצֵא בָּזֶה.
"Coentro semeado no pátio, arranca folha por folha e come; e se reuniu, é obrigado a dizimar; e do mesmo modo qualquer semelhante" (o Rambam generaliza o princípio da mishná para toda erva de folha semeada no pátio, não apenas o coentro especificamente citado).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 3:9
כֻּסְבָּר, יָדוּעַ, וְכֵן הוּא בַּעֲרָבִי כֻּסְבָּרָה. סֵאָה, בַּעֲרָבִי פוּנְדָ"ג. אֵזוֹב, בַּעֲרָבִי צַעְתַּ"ר. קוֹרָנִית, בַּעֲרָבִי חַסָ"א. וְדֶרֶךְ אֵלּוּ הָעֲשָׂבִים שֶׁצּוֹמְחִין בַּגַּנּוֹת וּבַבָּתִּים מִבְּלִי שֶׁזָּרְעוּ אוֹתָם, וְאוֹמֵר בְּכָאן שֶׁאִם הֵם נִשְׁמָרִים כְּלוֹמַר בְּמָקוֹם שִׁמּוּר שֶׁחַיָּבִים בְּמַעֲשְׂרוֹת, וְהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא.
"Coentro": conhecido, e assim é chamado em árabe, "kusbara". "Sê'á" (arruda): em árabe, "pundag". "Ezov" (hissopo): em árabe, "tza'atar". "Koranit" (tomilho): em árabe, "chassa". E o costume destas ervas é que crescem nas hortas e nas casas sem que as tenham semeado (espontaneamente), e diz-se aqui que, se são guardadas — isto é, em lugar de proteção —, são obrigadas ao dízimo. E a halachá segue Rabi Akiva.
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 3:9
נוֹטֵל אֶת הָאֶשְׁכּוֹל. אוֹכֵל כְּדַרְכּוֹ וְאֵין צָרִיךְ לְגַרְגֵּר, וְכֵן בְּרִמּוֹן אֵין צָרִיךְ לִפְרֹט, וְכֵן בַּאֲבַטִּיחַ אֵין צָרִיךְ לִסְפּוֹת, דְּהַיְנוּ לַחְתֹּךְ חֲתִיכוֹת דַּקּוֹת: רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר וְכוּ'. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא: אִם הָיוּ נִשְׁמָרִים חַיָּבִין. דְּאֵין חַיָּב בַּמַּעֲשֵׂר אֶלָּא אֹכֶל וְנִשְׁמָר.
"Toma-se o cacho": come da forma costumeira, sem necessidade de desfiar; e do mesmo modo na romã, sem necessidade de repartir; e do mesmo modo na melancia, sem necessidade de fatiar em pedaços finos. "Rabi Akiva diz" etc.: e a halachá segue Rabi Akiva. "Se são guardadas, são obrigadas": pois não há obrigação de dízimo senão sobre aquilo que é comestível e guardado (os dois requisitos bíblicos essenciais para qualquer produto sujeito ao dízimo — sem o cuidado de guarda, mesmo uma erva comestível permanece fora da categoria de "tevuat zaracha").
Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.