A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Encerra-se o Perek Guimel com a árvore cuja copa se inclina de um domínio a outro: em regra, o consumo segue o local físico onde se come — mas em três casos especiais e halachicamente significativos (bens de cidades muradas, cidades de refúgio, e Jerusalém), o critério se inverte, seguindo ora a raiz, ora a copa
A figueira que está de pé no pátio e se inclina para o jardim, come à sua maneira habitual e está isento (pois, ao comer no jardim, onde está a copa, aplica-se a regra do jardim — mais permissiva — mesmo que a raiz esteja no pátio). Estando de pé no jardim e inclinando-se para o pátio, come um a um, está isento. Mas se reuniu, é obrigado (pois ali se aplica a regra do pátio, mais restritiva, quando come no pátio). Estando de pé na Terra (de Israel) e inclinando-se para fora da Terra, ou estando fora da Terra e inclinando-se para a Terra, tudo segue a raiz (o tronco, o local de nutrição da árvore, determina o estatuto do fruto, e não o local da copa). E nas casas das cidades muradas, tudo segue a raiz. Mas nas cidades de refúgio, tudo segue a copa. E em Jerusalém, tudo segue a copa.
תְּאֵנָה שֶׁהִיא עוֹמֶדֶת בֶּחָצֵר וְנוֹטָה לַגִּנָּה, אוֹכֵל כְּדַרְכּוֹ וּפָטוּר. עוֹמֶדֶת בַּגִּנָּה וְנוֹטָה לֶחָצֵר, אוֹכֵל אַחַת אַחַת, פָּטוּר. וְאִם צֵרַף, חַיָּב. עוֹמֶדֶת בָּאָרֶץ וְנוֹטָה לְחוּצָה לָאָרֶץ, בְּחוּצָה לָאָרֶץ וְנוֹטָה לָאָרֶץ, הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הָעִקָּר. וּבְבָתֵּי עָרֵי חוֹמָה, הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הָעִקָּר. וּבְעָרֵי מִקְלָט, הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הַנּוֹף. וּבִירוּשָׁלַיִם, הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הַנּוֹף:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Esta mishná final combina o tema do dízimo (regido pelo lugar de consumo) com dois institutos bíblicos totalmente distintos — as casas das cidades muradas (Vayikrá 25) e as cidades de refúgio (Bamidbar 35) — usando-os como paralelo instrutivo para a regra especial de Jerusalém quanto ao segundo dízimo.
Vayikrá (Levítico) 25:29-30
וְאִישׁ כִּי יִמְכֹּר בֵּית מוֹשַׁב עִיר חוֹמָה... וְקָם הַבַּיִת אֲשֶׁר בָּעִיר אֲשֶׁר לוֹ (לא) חֹמָה לַצְּמִיתֻת לַקֹּנֶה אֹתוֹ.
"E se um homem vender uma casa de morada em cidade murada... a casa que está na cidade que tem muro ficará em definitivo com quem a comprou" (Vayikrá 25:29-30) — a lei da casa em cidade murada, que não retorna ao vendedor no Jubileu (diferentemente do campo aberto), é usada aqui apenas como paralelo estrutural: assim como o estatuto legal da casa murada é definido por sua localização física — dentro do muro —, também o estatuto da árvore cuja copa ultrapassa o muro é definido "atrás da raiz", isto é, por onde o tronco está plantado, e não por onde a copa se estende.
Por que a regra se inverte em cidades de refúgio e em Jerusalém? A regra geral — "tudo segue a raiz" — reflete o senso comum de que o tronco, fonte de nutrição da árvore, determina sua identidade legal. Mas em cidades de refúgio (Bamidbar 35:6, refúgio para o homicida involuntário), a lei precisa proteger fisicamente quem já está sob a copa da árvore, mesmo que o tronco esteja fora dos limites da cidade — por isso "tudo segue a copa": se o vingador do sangue não pode alcançar o homicida enquanto sob a copa, pouco importa onde está a raiz. Em Jerusalém, a inversão tem outra razão: a lei proíbe resgatar o segundo dízimo (maasser sheni) dentro dos limites da cidade, pois ali ele deve ser consumido diretamente; se a copa de uma árvore de fora se estende para dentro de Jerusalém, o fruto ali colhido não pode ser resgatado, seguindo, por precaução (lechumra), a localização da copa, e não da raiz — mesmo que isso resulte, em ambos os casos, numa aplicação mais restritiva da lei.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica esta mishná em Hilchot Tithes, capítulo 4, na sua conclusão, mantendo os quatro casos apresentados sem introduzir dissenso.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 4:16
הָיְתָה עוֹמֶדֶת בְּחָצֵר וְנוֹטָה לְגִנָּה הֲרֵי זֶה אוֹכֵל מִמֶּנָּה בַּגִּנָּה כְּדַרְכּוֹ כְּאִלּוּ הָיְתָה נְטוּעָה בַּגִּנָּה. הָיְתָה נְטוּעָה בַּגִּנָּה וְנוֹטָה לְחָצֵר הֲרֵי זוֹ כִּנְטוּעָה בֶּחָצֵר שֶׁאֵינוֹ אוֹכֵל שָׁם אֶלָּא אַחַת אַחַת.
"Estando de pé no pátio e inclinando-se para o jardim, come dela no jardim de sua maneira habitual, como se estivesse plantada no jardim. Estando plantada no jardim e inclinando-se para o pátio, é como se estivesse plantada no pátio, e não come ali senão um a um" (o Rambam confirma o princípio decisivo: o que importa não é onde está a raiz da árvore, mas onde fisicamente se encontra a pessoa ao comer — no local da copa que ela alcança).
Rambam · Mishné Torá, Perush HaMishná, Maasrot 3:10
הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הָעִקָּר... אִם יִהְיֶה עִקַּר הָאִילָן בְּחוּ"ל, הַפְּרִי אֵינוֹ חַיָּב בְּמַעֲשְׂרוֹת אַף עַל פִּי שֶׁיִּהְיֶה הַנּוֹף וְהַפְּרִי נוֹטֶה לְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל. וְאִם הָעִקָּר בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל וְהַנּוֹף נוֹטֶה חוּצָה לָאָרֶץ, חַיָּב בְּמַעֲשֵׂר.
"Tudo segue a raiz... Se o tronco da árvore está fora da Terra, o fruto não é obrigado ao dízimo, ainda que a copa e o fruto se inclinem para a Terra de Israel. E se o tronco está na Terra de Israel e a copa se inclina para fora da Terra, é obrigado ao dízimo" (o Rambam esclarece que, para fins da própria obrigatoriedade do dízimo — não apenas do lugar de consumo —, o critério decisivo é sempre a localização do tronco, fonte da seiva e da identidade legal da árvore).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que encerra o Perek Guimel de Massechet Maasrot.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 3:10
וּבְעָרֵי מִקְלָט הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הַנּוֹף... כְּגוֹן שֶׁיִּהְיֶה הָאִילָן עוֹמֵד בְּתוֹךְ הַתְּחוּם וְנוֹפוֹ נוֹטֶה חוּץ לַתְּחוּם, כֵּיוָן שֶׁהָיָה הָרוֹצֵחַ תַּחַת הַנּוֹף קְלָטוֹ וְאָסוּר לְהָרְגוֹ... וּבִירוּשָׁלַיִם הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הַנּוֹף, הָעִקָּר אֶצְלֵנוּ שֶׁמַּעֲשֵׂר שֵׁנִי אָסוּר לְפָדּוֹתוֹ בִּירוּשָׁלַיִם בְּשׁוּם פָּנִים.
"E nas cidades de refúgio, tudo segue a copa": como quando a árvore está de pé dentro do território da cidade e sua copa se inclina para fora do território — já que o homicida, estando sob a copa, foi "acolhido" por ela, é proibido matá-lo (pelo vingador do sangue, mesmo que a raiz esteja fora dos limites protegidos). "E em Jerusalém, tudo segue a copa": o princípio fundamental para nós é que o segundo dízimo é proibido de ser resgatado em Jerusalém de modo algum (por isso, se a copa de uma árvore alcança o interior da cidade, o fruto ali colhido segue a proibição de resgate própria de Jerusalém).
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 3:10
הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הָעִקָּר. דְּשָׁדִינַן נוֹפוֹ בָּתַר עִקָּרוֹ, שֶׁהוּא מְקוֹם יְנִיקַת הָאִילָן: וּבְבָתֵּי עָרֵי חוֹמָה הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הָעִקָּר. אַף הַנּוֹף הַנּוֹטֶה חוּץ לַחוֹמָה, אִם לֹא גְאָלוֹ בְּתוֹךְ הַשָּׁנָה, נֶחְלַט לִצְמִיתוּת כְּאִלּוּ הָיָה בְּתוֹךְ הַחוֹמָה, הוֹאִיל וְעִקַּר הָאִילָן בְּתוֹךְ הַחוֹמָה הוּא.
"Tudo segue a raiz": pois consideramos a copa segundo a raiz, que é o lugar de nutrição da árvore. "E nas casas das cidades muradas, tudo segue a raiz": mesmo a copa que se inclina para fora do muro — se não a resgatou dentro do ano (prazo bíblico para resgate de casas em cidades muradas) — fica definitivamente com o comprador, como se estivesse dentro do muro, já que a raiz da árvore está dentro do muro.
Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná encerra-se o Perek Guimel, que tratou do direito do trabalhador de comer (mishnayot 1-3), do achado na estrada (mishná 4), e do chatzer como fator de fixação da obrigação do dízimo (mishnayot 5-10). O tratado continuará com o Perek Dalet.