A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A mishná estende a lógica dos telhados a diversos tipos de abrigo sazonal e temporário — cabanas rústicas, guaritas, toldos de verão, a sucá dos pescadores de Guinossar e a dos oleiros — todos isentos por não constituírem moradia permanente (dirat keva); e discute-se o caso da sucá construída para a festa de Sucot
As cabanas (de galhos, sem paredes), as guaritas (estruturas simples para guardar produtos no campo) e os toldos (abrigos de verão para dar sombra) estão isentos (de fixar a obrigação). A sucá de Guinossar (cabana sazonal junto ao Mar da Galileia, onde se habitava durante a época da colheita), mesmo que tenha nela moinho e galinhas, está isenta (pois, apesar da aparência de uso permanente, não é moradia de fato fixa). A sucá dos oleiros (construída em duas partes, uma dentro da outra): a interna é obrigada, e a externa está isenta. Rabi Yossei diz: toda aquela que não é moradia de verão e moradia de inverno (isto é, que não serve de habitação ao longo de todo o ano) está isenta. A sucá da festa, na própria festa (de Sucot): Rabi Yehudá obriga, e os sábios isentam.
הַצְּרִיפִין וְהַבֻּרְגָּנִין וְהָאֶלְקָטִיּוֹת, פְּטוּרִין. סֻכַּת גִּנּוֹסַר, אַף עַל פִּי שֶׁיֶּשׁ בּוֹ רֵחַיִם וְתַרְנְגוֹלִים, פְּטוּרָה. סֻכַּת הַיּוֹצְרִים, הַפְּנִימִית חַיֶּבֶת, וְהַחִיצוֹנָה פְּטוּרָה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, כָּל שֶׁאֵינָהּ דִּירַת הַחַמָּה וְדִירַת הַגְּשָׁמִים, פְּטוּרָה. סֻכַּת הֶחָג בֶּחָג, רַבִּי יְהוּדָה מְחַיֵּב, וַחֲכָמִים פּוֹטְרִין:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Esta mishná aprofunda o critério de "dirat keva" (moradia permanente) que fundamenta toda a discussão sobre o que conta como "casa" para fins de fixação da obrigação do dízimo.
Devarim (Deuteronômio) 26:13
בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת.
"Removi o consagrado da casa" (Devarim 26:13) — como visto em toda a discussão sobre chatzer e bayit, o critério bíblico da "casa" pressupõe moradia estável, não qualquer estrutura física onde se possa passar algum tempo. Abrigos sazonais como cabanas de verão, guaritas de guarda de produtos, ou a sucá temporária dos pescadores de Guinossar, ainda que ocupados por meses seguidos, carecem justamente dessa permanência que caracteriza o "bait" da Torá — e por isso não fixam a obrigação, mesmo quando neles se guardam utensílios de uso contínuo, como moinho e galinhas.
Por que a sucá de Sucot é objeto de debate? O caso da "sucá do chag" é especialmente instrutivo porque, para a mitzvá de Sucot, a própria Torá exige que a cabana seja considerada, ao menos por sete dias, "dirat keva" (moradia como se permanente) — daí o mandamento de nela comer, dormir e viver como em casa. Rabi Yehudá aplica essa mesma qualidade de "moradia como casa" também para fins de dízimo, considerando-a apta a fixar a obrigação durante a festa. Os sábios discordam: para eles, a exigência de "dirat keva" na lei de Sucot é uma ficção legal específica daquela mitzvá, válida apenas para seus próprios fins — mas não transforma a cabana, que é estruturalmente temporária e desmontável, em "casa" real para o propósito, distinto, da fixação do dízimo. A halachá segue os sábios.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica esta mishná quase literalmente em Hilchot Tithes, capítulo 4, decidindo a favor dos sábios quanto à sucá da festa.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 4:4
הַצְּרִיפִין וְהַבֻּרְגָּנִין וּבָתֵּי הַקַּיִץ... וְכֵן סֻכּוֹת שֶׁעוֹשִׂין בְּנֵי הַכְּרָמִים וּבְנֵי הַגִּנּוֹת בִּימֵי הַקַּיִץ, אַף עַל פִּי שֶׁדָּרִין בָּהֶן כָּל יְמֵי הַקַּיִץ וְיֵשׁ בָּהֶם רֵחַיִם וְתַרְנְגוֹלִין, אֵינָן קוֹבְעִין לְמַעֲשֵׂר. וְכֵן סֻכַּת הַיּוֹצְרִים הַחִיצוֹנָה וְסֻכַּת הֶחָג בֶּחָג אֵינָן קוֹבְעִין, שֶׁכָּל אֵלּוּ אֵין דִּירָתָן קֶבַע.
"As cabanas, as guaritas e as casas de verão... e do mesmo modo as sucot que constroem os donos de vinhas e hortas nos dias de verão, ainda que nelas habitem durante todo o verão e tenham moinho e galinhas, não fixam a obrigação do dízimo. E do mesmo modo a sucá externa dos oleiros e a sucá da festa, na festa, não fixam — pois todas estas não têm moradia permanente" (o Rambam decide explicitamente a favor dos sábios contra Rabi Yehudá quanto à sucá de Sucot, afirmando o princípio geral de que a permanência estrutural — não a duração do uso — é o que determina a fixação).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Tithes 4:5
הַצְּרִיפִין וְהַבֻּרְגָּנִין טוֹבְלִין לְבַעְלֵיהֶן אַף עַל פִּי שֶׁאֵינָן טוֹבְלִין לְכָל אָדָם.
"As cabanas e as guaritas fixam a obrigação para seus próprios donos, ainda que não fixem para qualquer pessoa" (o Rambam introduz aqui uma nuance importante, ausente na formulação simples da mishná: mesmo estruturas sem "dirat keva" para o público em geral podem funcionar como "casa" para o próprio dono, que ali tem seu centro de vida durante o período em que a ocupa — uma distinção relevante para entender por que a lei trata diferentemente o consumo do próprio dono e o de terceiros).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 3:7
צְרִיפִין. הֵם כְּמוֹ עַמּוּדִים וַעֲלֵיהֶם קֵרוּי כְּמִין צְרִיף... וְהַבּוּרְגָּנִין הֵם כְּמוֹ מִגְדָּלִים עֲשׂוּיִין לִשְׁמֹר הַדְּרָכִים. אֶלְקָטִיּוֹת. הֵם כְּמוֹ סֻכּוֹת עוֹשִׂים בְּנֵי אָדָם בִּימוֹת הַחַמָּה לִהְיוֹת צֵל עַל רֹאשָׁם... וּגְנוֹסָר מָקוֹם בְּאֶרֶץ הַצְּבִי... וְעוֹשִׂין בּוֹ אֹהָלִים לְדִירָה כָּל זְמַן אֲסִיפַת הַפֵּרוֹת. וְיוֹצְרִים אֻמָּנֵי כְּלֵי חֶרֶס... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה, וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.
"Cabanas": são como colunas com uma cobertura por cima, formando uma espécie de tenda. "E as guaritas" são como torres construídas para guardar os caminhos. "Toldos": são como sucot que as pessoas fazem em dias de verão para terem sombra sobre suas cabeças. E Guinossar é um lugar na Terra da Formosura (região da Galileia), onde se fazem tendas para moradia durante todo o tempo da colheita dos frutos. E oleiros são artesãos de utensílios de cerâmica. E não é a halachá segundo Rabi Yehudá, e a halachá segue os sábios.
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 3:7
סֻכַּת הַיּוֹצְרִים. רְגִילִים לַעֲשׂוֹת שְׁתֵּי סֻכּוֹת זוֹ לִפְנִים מִזּוֹ, בַּפְּנִימִית מַצְנִיעַ קְדֵרוֹתָיו וְדָר שָׁם, וּבַחִיצוֹנָה עוֹשֶׂה מְלַאכְתּוֹ וּמוֹכֵר קְדֵרוֹתָיו: כָּל שֶׁאֵינָה דִּירַת הַחַמָּה וְדִירַת הַגְּשָׁמִים. וְסֻכָּה פְּנִימִית אֵין הַיּוֹצֵר דָּר בָּהּ בִּימוֹת הַגְּשָׁמִים, הִלְכָּךְ פְּטוּרָה, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי: רַבִּי יְהוּדָה מְחַיֵּב. רַבִּי יְהוּדָה לְטַעֲמֵיהּ, דְּסָבַר סֻכָּה דִּירַת קֶבַע בָּעִינַן, וְחַיֶּבֶת בִּמְזוּזָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.
"A sucá dos oleiros": costumam fazer duas sucot, uma dentro da outra; na interna, guarda suas panelas e mora ali, e na externa realiza seu trabalho e vende suas panelas. "Toda aquela que não é moradia de verão e de inverno": e a sucá interna, o oleiro não mora nela nos dias de chuva; por isso está isenta — mas não é a halachá segundo Rabi Yossei. "Rabi Yehudá obriga": Rabi Yehudá segue seu próprio raciocínio, pois entende que a sucá exige moradia permanente (para a mitzvá de Sucot), e é obrigada em mezuzá (por essa mesma razão); mas não é a halachá segundo Rabi Yehudá.
Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.