A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A lista do "granário para os dízimos" chega aos líquidos — vinho e azeite —, cada um com seu próprio sinal de fixação, e com resíduos remanescentes que continuam permitidos ao consumo mesmo após a fixação principal
O vinho, desde que forma espuma (kipuy — quando as cascas e sementes sobem à superfície durante a fermentação inicial no poço do lagar). Ainda que tenha formado espuma, toma-se da prensa superior e do duto, e bebe-se (pois o vinho que ainda está no lagar superior, ou escorrendo pelo duto até o poço inferior, ainda não completou seu processamento). O azeite, desde que desce ao poço (a cavidade onde se acumula o azeite prensado). Ainda que tenha descido, toma-se da corda e de entre a mó e de entre as tábuas, e coloca-se numa tigela pequena e numa travessa (recipientes usados para servir de imediato), mas não se coloca na panela ou no caldeirão enquanto estão fervendo (pois isso equivaleria a cozinhar o azeite, um processamento que fixaria definitivamente sua obrigação). Rabi Yehudá diz: coloca-se em qualquer coisa, exceto no que contém vinagre ou salmoura (pois estes, sendo condimentos ácidos e fortes, aceleram o processo de "cozimento" mesmo sem fogo direto — opinião individual que a halachá não segue).
הַיַּיִן, מִשֶּׁיְּקַפֶּה. אַף עַל פִּי שֶׁקִּפָּה, קוֹלֵט מִן הַגַּת הָעֶלְיוֹנָה וּמִן הַצִּנּוֹר, וְשׁוֹתֶה. הַשֶּׁמֶן, מִשֶּׁיֵּרֵד לָעוּקָה. אַף עַל פִּי שֶׁיָּרַד, נוֹטֵל מִן הֶעָקָל וּמִבֵּין הַמָּמָל וּמִבֵּין הַפַּצִּים, וְנוֹתֵן לַחֲמִטָּה וְלַתַּמְחוּי, אֲבָל לֹא יִתֵּן לַקְּדֵרָה וְלַלְּפָס כְּשֶׁהֵן רוֹתְחִין. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, לַכֹּל הוּא נוֹתֵן, חוּץ מִדָּבָר שֶׁיֶּשׁ בּוֹ חֹמֶץ וְצִיר:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Esta mishná aplica aos líquidos — vinho e azeite — o mesmo princípio de "granário para os dízimos" já desenvolvido para sólidos nas mishnayot anteriores.
Devarim (Deuteronômio) 14:23
וְאָכַלְתָּ לִפְנֵי ה׳ אֱלֹהֶיךָ בַּמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר לְשַׁכֵּן שְׁמוֹ שָׁם, מַעְשַׂר דְּגָנְךָ תִּירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ.
"E comerás diante do Eterno teu Deus, no lugar que Ele escolher para ali fazer habitar Seu nome, o dízimo de teu grão, de teu vinho (tirosh) e de teu azeite (yitzhar)" (Devarim 14:23) — o vinho e o azeite são mencionados explicitamente entre os produtos obrigados ao dízimo. Como líquidos, seu "granário" — o ponto de fixação equivalente ao empilhamento do grão — é definido pelo momento em que completam seu processamento primário: para o vinho, quando forma espuma no poço do lagar; para o azeite, quando desce à cavidade de recolhimento após a prensagem.
Por que se permite ainda tomar do vinho na "prensa superior" e o azeite "entre as tábuas", mesmo depois que o grosso já se fixou? O princípio geral, já visto em 1:6, é que a fixação acompanha o estado real de processamento de cada porção do produto — não o status do lote inteiro. O vinho que já desceu ao poço e formou espuma está tecnicamente pronto e fixado; mas o vinho que ainda está na prensa superior, ou escorrendo pelo duto, ainda não completou o mesmo estágio, e por isso permanece permitido ao consumo casual. O mesmo vale para o azeite retido entre as tábuas da prensa ou na corda que envolve as azeitonas — resíduos que, fisicamente, ainda não passaram pelo processamento pleno que caracteriza o produto "acabado". A proibição de colocar o azeite em panela fervente, por sua vez, decorre de um princípio distinto: o cozimento em si é um dos "seis fatores" que fixam definitivamente qualquer produto ao dízimo (Hilchot Maasser 3:3), de modo que aquecer o azeite ao ponto de fervura equivaleria a processá-lo de forma completa e irreversível.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica esta lei em Hilchot Maasser, no mesmo capítulo dos fatores que fixam os frutos ao dízimo, agora aplicado aos líquidos.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maasser 3:14-15
הַיַּיִן מִשֶּׁיַּנִּיחֶנּוּ בֶּחָבִיּוֹת וְיִשְׁלֶה הַזַּגִּין וְהַחֲרְצָנִין מֵעַל פִּי הֶחָבִית. אֲבָל כְּשֶׁהוּא בְּתוֹךְ הַבּוֹר כְּשֶׁיַּגְבִּיהֶנּוּ לְהַעֲמִידוֹ בֶּחָבִית שׁוֹתֶה עַרְאַי וְקוֹלֵט מִן הַגַּת הָעֶלְיוֹנָה. הַשֶּׁמֶן מִשֶּׁיֵּרֵד לַעוּקָה אַף עַל פִּי שֶׁיָּרַד נוֹטֵל מִן הָעֵקֶל וּמִן הַמֶּמֶל וּמִבֵּין הַפַּסִּין וְנוֹתֵן לִקְעָרָה קְטַנָּה וּלְתַמְחוּי... וְאִם הָיָה חַם בְּיוֹתֵר כְּדֵי שֶׁיִּכְוֶה אֶת הַיָּד לֹא יִתֵּן לְתוֹכוֹ מִפְּנֵי שֶׁהוּא מִתְבַּשֵּׁל.
"O vinho, desde que o coloque em barris e as cascas e sementes subam à superfície do barril. Mas enquanto está dentro do poço, quando o levanta para colocá-lo no barril, bebe casualmente e toma da prensa superior. O azeite, desde que desça à cavidade; ainda que tenha descido, toma da corda, da mó e de entre as tábuas, e coloca numa tigela pequena e numa travessa [...]. E se estiver muito quente, a ponto de queimar a mão, não se coloca nele, pois isso equivale a cozinhá-lo" (o Rambam explicita o critério de "queimar a mão" como definição prática de quando o calor de um alimento equivale a cozimento pleno, fixando a obrigação — critério que se tornaria central na halachá posterior sobre "yad soledet bo").
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maasrot 1:7
משיקפה. פירוש משיעלה עליו קצף ובלשון חכמים אופיא: גת העליונה. גת שדורכין שם הענבים הגת התחתונה הוא המקום שהיין יורד ומתקבץ לתוכה ובלשון קודש יקב: וצנור ידוע ממנו יורד היין: עוקה. היא החפירה שמתקבץ לתוכה השמן: ועקל הוא החבל כי היו לוקחים החבלים ועושים מהם כמו כלי עגול וצוברין לתוכו הזיתים וסוחטין אותם: וממל הוא האבן שטוחנין בו הזיתים: ומבין הפסים ענינו מבין שני האבנים או שני העצים מעצי הגת או אבניה והעיקר אצלנו כי הבשול על האש קובע למעשרות שאין המנהג שיבשל אדם ויאכל ותקרא זאת האכילה אכילת עראי לפי שכיון שבשל אינו עראי: וחמטה ותמחוי שמות למיניהם מן הכלים שנותנים בהם המאכל כשהוא חם: וקדרה ולפס. שמות הכלים שמבשלים בהם התבשיל והתיר לתת השמן בכלי שנותנין המאכל לפי שאינו מתבשל לשם ואסור לו לתת אותו בקדרה שבשל בה התבשיל כל זמן שהיא רותחת לפי שהוא מתבשל לשם ורבי יהודה מתיר שיתן לקדרה וללפס כשהן רותחים אלא אם היה באותו התבשיל הרותח שיש באותה הקדרה חומץ או ציר לפי שהוא מתבשל מחמת החדוד ואין הלכה כרבי יהודה:
"Desde que forma espuma" (mishekapê): significa desde que sobe sobre ele espuma, chamada na linguagem dos sábios ofya. "Prensa superior": o lagar onde se pisam as uvas; o lagar inferior é o lugar aonde o vinho desce e se acumula, chamado em língua sagrada yekev. "E duto": conhecido, por onde desce o vinho.
"Poço" (uká): é a cavidade onde se acumula o azeite. "E corda" (ekel): é a corda, pois costumavam pegar cordas e fazer delas algo como um recipiente redondo, e amontoavam nele as azeitonas e as espremiam. "E mó" (mamal): é a pedra com que se moem as azeitonas. "E entre as tábuas": significa entre as duas pedras ou os dois pedaços de madeira do lagar, ou suas pedras.
E o princípio fundamental para nós é que a cocção sobre o fogo fixa ao dízimo, pois não é costume que uma pessoa cozinhe e coma, e esse tipo de consumo se chama "casual" apenas quando não se cozinhou — pois uma vez cozido, já não é casual.
"Chamitá e tamchuí": nomes de tipos de utensílios em que se coloca a comida quando está quente. "Panela e caldeirão" (kedera velafas): nomes dos utensílios em que se cozinha o guisado. E permitiu-se colocar o azeite no recipiente onde se coloca a comida, pois não se cozinha ali; mas é proibido colocá-lo na panela em que se cozinhou o guisado enquanto está fervendo, pois ali ele se cozinha. E Rabi Yehudá permite colocar na panela e no caldeirão enquanto estão fervendo, exceto se naquele guisado fervente que está na panela houver vinagre ou salmoura, pois então se cozinha por causa da acidez. E a halachá não é como Rabi Yehudá.
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maasrot 1:7
מִשֶּׁיְּקַפֶּה. מִשֶּׁיָּסִיר הַחַרְצַנִּים וְהַזַּגִּים שֶׁמַּעֲלֶה הַיַּיִן בְּתוֹךְ בּוֹר שֶׁל יַיִן בִּשְׁעַת רְתִיחָתוֹ: מִן הַגַּת הָעֶלְיוֹנָה. שֶׁעֲדַיִן לֹא יָרַד לַבּוֹר: וּמִן הַצִּנּוֹר. הֶעָשׂוּי בְּפִי הַגַּת, וְהַיַּיִן מְקַלֵּחַ מִן הַצִּנּוֹר לַבּוֹר. וְהַיַּיִן שֶׁבַּגַּת אוֹ שֶׁבַּצִּנּוֹר עֲדַיִן לֹא נִגְמְרָה מְלַאכְתּוֹ: לָעוּקָה. גֻּמָּא שֶׁלִּפְנֵי בֵית הַבַּד שֶׁהַשֶּׁמֶן יוֹרֵד לְתוֹכָהּ: עָקָל. כְּלִי עָשׂוּי מֵחֲבָלִים שֶׁצּוֹבְרִים הַזֵּיתִים לְתוֹכוֹ כְּשֶׁמַּכְבִּידִים הַקּוֹרָה עֲלֵיהֶם: מָמָל. הָרֶכֶב הָעֶלְיוֹנָה שֶׁטּוֹחֲנִין בָּהּ הַזֵּיתִים: מִבֵּין הַפַּצִּים. שֶׁמֶן הַיּוֹצֵא מִבֵּין הַנְּסָרִים: חֲמִטָּה. הִיא עֻגָּה דַקָּה, וּכְשֶׁמּוֹצִיאִין אוֹתָהּ מִן הַתַּנּוּר רְגִילִים לְהַחֲלִיק פָּנֶיהָ בְּשֶׁמֶן, וְקָא מַשְׁמַע לָן דְּלֹא חָשִׁיב כִּמְבֻשָּׁל. שֶׁהָאֵשׁ קוֹבַעַת לַמַּעֲשֵׂר וְאָסוּר לֶאֱכֹל עֲרַאי מִכָּל תְּבוּאָה וּפֵרוֹת וִירָקוֹת שֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ בָאוּר, אֲבָל הַאי לֹא חָשִׁיב בִּשּׁוּל: וְכֵן לַתַּמְחוּי. דִּכְלִי שֵׁנִי הוּא וְאֵינוֹ מְבַשֵּׁל: אֲבָל לֹא יִתֵּן. שֶׁמֶן לַקְּדֵרָה וְלָאִלְפָס כְּשֶׁהֵן מַרְתִּיחִים. לַכֹּל הוּא נוֹתֵן. לְכָל אִלְפָסִין רוֹתְחִין וּלְכָל קְדֵרוֹת רוֹתְחוֹת הוּא נוֹתֵן, לְאַחַר שֶׁהֶעֱבִירָן מִן הָאוּר, וְאֵינוֹ קוֹבֵעַ לַמַּעֲשֵׂר: חוּץ מִדָּבָר שֶׁיֶּשׁ בּוֹ חֹמֶץ וְצִיר. שֶׁחֲרִיפָתוֹ שֶׁל חֹמֶץ וְצִיר מְסַיֵּעַ לְבַשֵּׁל. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:
"Desde que forma espuma": desde que se removem as sementes e as cascas que o vinho traz à superfície dentro do poço de vinho no momento de sua fermentação. "Da prensa superior": que ainda não desceu ao poço. "E do duto": feito na boca do lagar, e o vinho jorra do duto para o poço; e o vinho que está no lagar ou no duto ainda não teve seu processamento completado.
"Ao poço" (laoocá): cavidade diante da prensa de azeite onde o azeite desce. "Corda" (ekel): utensílio feito de cordas onde se amontoam as azeitonas quando se pressiona a viga sobre elas. "Mó" (mamal): a pedra superior com que se moem as azeitonas. "De entre as tábuas": azeite que sai de entre as tábuas.
"Chamitá": é um bolo fino, e quando o tiram do forno costumam alisar sua superfície com azeite — e isso nos ensina que isso não se considera cozido, pois o fogo fixa ao dízimo e é proibido comer casualmente de qualquer grão, fruto ou vegetal que tenha sido cozido no fogo, mas isto não se considera cocção. "E assim a travessa": pois é um recipiente secundário, e não cozinha.
"Mas não coloca": azeite na panela e no caldeirão enquanto estão fervendo. "Coloca em qualquer coisa": em todos os caldeirões fervendo e panelas fervendo ele coloca, depois de retirá-los do fogo, e isso não fixa ao dízimo. "Exceto no que contém vinagre ou salmoura": pois a acidez do vinagre e da salmoura ajuda a cozinhar. E a halachá não é como Rabi Yehudá.
Massechet Maasrot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.